8 de fevereiro de 2006

Amarelo Manga

O filósofo e comunista italiano Antônio Gramsci, que influenciou boa parte dos estudiosos de comunicação do século XX, defendia uma cultura pregadora de transformações profundas, uma cultura revolucionária, e não simplesmente uma mantenedora do status quo vigente. Segundo esse conceito, o filme de Cláudio Assis não passa de uma grande enganação.Amarelo manga é forte, nauseante, escatológico, angustiante e deprimente. Tudo bem, o pernambucano consegue chocar o espectador, mas uma pergunta não me sai da cabeça: com qual propósito? Simplesmente nenhum, apenas o constrangimento puro e simples. Os elementos são simplesmente jogados na cara do telespectador; não vemos nenhuma alternativa, nem ao menos um viés de esperança ou de uma indignação social plausível.

A trama, escrita por Hilton Lacerda, se passa em Recife. Vários personagens - quase todos, exceção feita à dona do bar (Leona Cavalli), estereotipados – se cruzam e se relacionam em um ambiente colorido e tumultuado. Eles têm suas taras e desvios de comportamento reprimidos ou explicitados da maneira mais apelativa possível. “O pudor é a forma mais inteligente de perversão” - o diretor diz isso em uma pontinha, e vc interpreta da forma que for possível. Temos um taxista necrófilo, uma evangélica reprimida, um açougueiro bruto, um padre incrédulo, uma asmática nauzeabunda, um homossexual maquiavélico, e por aí vai. Apresentações feitas, o filme vai apenas trabalhando com esse material humano por meio de um exercício de estilo do mais puro mau gosto.

Durante a projeção, só consegui lembrar de Saló – 120 dias em Sodoma, de Pasolini. A proposta de exagerar no mau gosto, de apresentar situações absurdas e nojentas já foi vista na obra do polêmico cineasta italiano. No entanto, apesar de Saló ser muito mais agressivo, vemos uma crítica contudente às formas de dominação e poder exercidas sobre a sociedade italiana em uma época determinada. Mas, e Amarelo Manga ? Cláudio Assis disse que o filme levou muita gente da periferia de Recife ao cinema (fizeram promoções a preços populares) – iniciativa legal, mas deveriam fazer isso não com essa bomba, e sim com algum documentário de Eduardo Coutinho. Não acredito, mas caso a proposta tenha sido incomodar os governantes, a produção também não obteve êxito. Reza a lenda que, em uma sessão vip no Palácio da Alvorada, Lula caiu na risada com as situações apresentadas pelo seu conterrâneo.

O filme varreu praticamente todos os prêmios importantes dos festivais de Ceará e de Brasília e levou até alguns prêmios internacionais direcionados ao cinema latino-americano. Isso prova apenas que Amarelo Manga acertou, ao menos do ponto de vista comercial, na sua proposta. Pessoas de classe média encheram as salas de cinema e disseram ter visto um retrato verdadeiro e expressivo da periferia de uma miserável metrópole nordestina. Não se dão conta que a realidade apresentada no fime é inverossímil, pois vivem tão distante daquilo quanto o cidadão de um país desenvolvido. É o mesmo que acontece com o norte-americano que assiti ao Central do Brasil (gosto do filme de Walter Salles). Ele sai, de certa maneira, aliviado de viver longe daquilo, e ainda acha que fez um dever humanitário ao “presenciar” duas horas de tanta miséria e sofrimento.

Apesar de tudo, o longa tem pontos positivos, caso da fotografia - assinada por Walter Carvalho, que ganhou o prêmio do Festival de Cinema Brasileiro de Miami (hein?). Walter retrata os contrastes de cores em uma Recife explosiva e suja. Alguns atores também conseguem ser sair bem, caso de Dira Paes, Natchergaele e Leona Cavalli. Achei Chico Díaz desmotivado e o personagem de Jonas Bloch tão detestável, que não consegui enxergar brilho na interpretação do veterano e sempre competente ator. Cito ainda a trilha sonora (bem pop, ou o movimento mangue beat ainda não foi abraçado pelo mercado?), como outro fato positivo. E só. Esse Amarelo Manga é amarelo demais para o meu gosto.

Ponto Alto: Dira Paes. Bonita e talentosa.

Ponto Baixo: a tentativa de chocar com a morte dos animais no matadouro.

3 Comments:

Anonymous Thaís Ninômia said...

Olá, Juarez!
A Graziele já havia me indicado seu blog e resolvi visitá-lo.
Bom, quanto ao "Amarelo Manga", concordo com vc em vários pontos. Assisti a esse filme em 2003, na época do Festival de Brasília. A impressão que tive à época foi de que a história possui personagens interessantes, embora caricatos. E nada contra a violência e o sexo no filme, a menos que haja um propósito definido, uma justificativa, o que não percebi claramente no filme. Ficou tudo mergulhado num vazio. Talvez uma nova leitura minha fosse possível agora (uma prova dos nove... hehehe).
Você teve a oportunidade de assistir a "Baixio das Bestas" no Festival de Brasília? Cláudio Assis segue a mesma linha e está consolidando a sua estética. Confesso que não sou muito fã. Novamente destaca-se a fotografia impressionante de Walter Carvalho.
Eu, particularmente, não consigo entender o culto que há em torno dos filmes dele por parte dos "intelectuais" do cinema.

11:30 PM  
Blogger Juarez Junior said...

Olá Thaís. Seja bem-vinda ao blog. Tô meio preguiçoso ultimamente e nunca mais atualizei o blog. Sobre o Cláudio Assis, ainda não vi o filme novo. Não sou muito fã de festivais (muita gente posando, sabe como é, né?!). Mesmo assim, sou fã do Walter Carvalho...
Sinta-se em casa para enviar suas críticas e sugestões. :-p
Abração!

6:17 PM  
Anonymous Letrex said...

Muito bacana esse blog. Mas não concordei com essa crítica. Acho que esse filme não é pra ser levado a sério assim. Não se trata de mostrar a realidade, é apenas uma estória. Assim como Lula, também achei algumas cenas engraçadas. E também sou fã de Claudio Assis.Um abraço, Juarez, o blog está em meus favoritos, vou ler todas as críticas.

12:27 PM  

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