25 de Junho de 2009

O Matador


Ao acompanharmos as aventuras de Jeff (ChowYun-Fat), entendemos em detalhes o porquê de John Woo ter se tornado um objeto tão cult entre cineastas moderninhos do mainstream americano. As construções das várias seqüências de ação são realmente de tirar o fôlego. Tiros, sangue, tiros, pombos, tiros, roupas brancas, tiros, acordes histriônicos, tiros... O estilo do cineasta que foi consagrado a posteriori com obras mais “limpas” como A Outra Face e Missão Impossível II transborda por aqui. Estamos falando do auge de Woo no cinema chinês – violência, estilo exagerado, cafonice e uma pieguice de fazer corar roteirista de novela mexicana.


A trama gira em torno da amizade entre um ético matador profissional (Fat) e o policial (Danny Lee) que o persegue. Jeff mata bandidos e é um cara cheio de honra e em um tiroteio acaba ferindo a cantora Jenny (Sally Yeh) e a deixa praticamente cega. Sente-se culpado e topa um último serviço para conseguir um transplante de córnea para a garota. Cumpre o serviço, mas acaba vítima de uma emboscada e tem início a sua perseguição pelo policial vivido por Danny Lee. O sucesso de O Matador não vem de sua trama, mas da maneira com a qual o diretor constrói as belas cenas de ação; os movimentos dos heróis são belíssimos, cheios de estilo. Em contraponto, há vilões caricatos que deixam nítido a contradição entre o belo e o feio. Palavras de honras pra lá de afetadas, muitos (mas muitos) tiroteios e um melodrama de arder os olhos em um filme que fez de Woo um mito. Aqui o diretor contou com o apoio do produtor Tsui Hark (aquele mesmo, o diretor de Era Uma vez na China) e do super astro Chow Yun-Fat. Simplesmente irresistível.


Ponto Alto: o humor estilo pastelão me incomoda.


Ponto Baixo: a plasticidade das sequências de ação continua insuperável, mesmo depois de tantas imitações.

9 de Junho de 2009

E Continuam os Festivais...

Só que este Festival é atrevido, no bom sentido, e sugere novas linguagens. Trata-se da Cel.U.Cine com o 1° Festival de micrometragens brasileiro. Focado em produções de até 3 minutos, o festival possibilita ainda que os filmes sejam gravados em celulares, câmeras digitais e mini-dvds.

O Festival Cel.U.Cine de micrometragens, adotando novas mídias, principalmente o celular, tem tudo para se tornar um pólo difusor de cultura no Brasil. Sempre oferecendo novas possibilidades, como a utilização da mídia celular para a produção e ampla difusão de conteúdos brasileiros criativos.

A Cel.U.Cine conta também com grandes parcerias, como o canal Brasil e a RIO Filmes, onde os micrometragens serão exibidos com exclusividade pelo canal e lançados em DVDs pela produtora.

A segunda etapa do Festival está em andamento com tema “Sonhando acordado”, os filmes estão sendo enviados diretamente ao portal www.celucine.com.br, agora prorrogado até dia 10 de junho. O resultado da 2° etapa sairá entre os dias 16 e 22 de Junho.

Liberte seu lado cultural e criativo produzindo seu micrometragem. Participe do Festival Cel.U.Cine

8 de Junho de 2009

SP TERROR

Entre os dias 22 de junho e 02 de julho, os paulistanos poderão desfrutar do SP TERROR - Festival Internacional de Cinema Fantástico. Os filmes serão exibidos nas salas da Reserva Cultural na Avenida Paulista. São mais de 30 títulos com destaque para o sueco Deixe Ela Entrar de Tomas Alfredson (eu nunca vi, mas já li que a coisa é boa) e o brasileiro Mangue Negro, filme de zumbis dirigido por Rodrigo Aragão. Outro produções que não posso deixar de citar são o britânico Lesbian Vampires Killers de Phil Claydon e Solos do chileno Jorge Olguín. Mas a lista é grande e não pára nisso; têm filmes argentinos, japoneses e também independentes americanos.


O SP TERROR terá ainda duas mostras competitivas: a internacional e a iberoamericana. Os jurados são do quilate de José Mojica Marins (dispensa apresentação), Dennison Ramalho (cineasta de curtas como Amor Só de Mãe), Erico Borgo (crítico de cinema – site Omelete – lembra?!) e Leopoldo Tauffenbach (artista plástico e “dono” do recém-lançado blog Cine Demência). Oportunidade imperdível para a galera de Sampa. Aqui em Brasília, resta ficar morrendo de inveja ou programar uma viagem de última hora. Quem sabe?


Serviço – www.spterror.com

5 de Maio de 2009

O Homem que Amava as Mulheres


Como diz uma das “suas mulheres”, Bertrand Morane (Charles Denner) parece ter cara de passarinho. E é com um jeitão de garoto carente, sem qualquer traço do convencional carisma sexual, o nosso cara de passarinho, que vive para e pelas mulheres, arranca suspiros e se envolve em paixões avassaladoras. Apenas as mais espertas conseguem sair com menos arranhões das garras de um conquistador tão sensível. Na verdade, a trajetória do amante insaciável de Truffaut, uma espécie de vampiro da alma feminina, começa com o funeral deste, no qual apenas mulheres acompanham o cortejo. Depois, somos levados a acompanhar, por meio de uma autobiografia de qualidade duvidosa – escrita pelo próprio personagem, a eterna busca de expiação de um homem que corrompe e se deixar iludir pela complexidade do universo feminino. E Truffaut realmente faz as coisas fluírem na elegância do idioma francês com enquadramentos versáteis e uma construção narrativa louvável.

Diferente de outros conquistadores, como o sarcástico Alfie de Michael Caine, que tem como combustível de suas conquistas o narcisismo masculino, Bertrand Morane traz uma bagagem muito mais complexa. E neste “enquadramento” da narrativa, o ator Charles Denner parece nunca se entregar por completo. Sempre meio ausente, o protagonista deixa as garotas direcionarem a relação e depois, a frustração. Extremamente simples em sua condução, o filme segue a trajetória da obsessão pela complexidade de alma feminina, em um viés mais convencional que o proposto por cineastas como Bergman e Khouri, mas não menos rico e interessante. Um estudo do comportamento humano e uma aula de cinema.

Ponto Alto: As mulheres, se não belas, têm um estilo blasé irresistível.

Ponto Baixo: toda a energia do personagem ter uma justificativa convencional, como sugerido em certa parte da trama, incomoda mesmo aos menos sensíveis. Preferi encarar como uma brincadeira.

The Wizard of Gore


Herschell Gordon Lewis, com toda a sua tosquice, é realmente um visionário do cinema extremo. Como uma espécie de Jess Franco do novo continente, o cineasta norte-americano compensava os recursos paupérrimos com uma criatividade emocionante. E neste The Wizard of Gore temos um exemplo palpável desta invencionice. O clima nostálgico e a violência gráfica ainda são capazes de angustiar os “escaldados” espectadores modernos. A canastrice do mágico Montag (Ray Sager), a trama cartunesca, as insinuações sexuais e a violência explícita formam uma sugestiva mistura de filmes ao estilo da produtora inglesa Hammer com produções explotations.

Na trama, um mágico consegue fazer truques sangrentos com voluntárias da platéia que depois acabam morrendo com as mesmas seqüelas dos truques apresentados no palco, o que levanta a curiosidade de um casal de jornalistas. Na verdade, Sherry (Judy Cler) quer levar o mágico ao seu programa de televisão, enquanto Jack (Wayne Ratay) é um repórter esportivo que desconfia da violência do mágico desde o início. No caso de The Wizard of Gore, Herschell Gordon parece um hippie (em tons pastéis, é claro) fazendo aquele cinema maniqueísta, bem ao gosto da máquina republicana americana. E o melhor é que, com exceção da inegável ação do tempo em certas passagens, o resultado é pra lá de satisfatório.

Ponto Alto: a resolução da trama justifica um pouco os truques de vai-e-vem nos momentos dos sangrentos truques. Sem falar que é uma solução, no mínimo, interessante.

Ponto Baixo: a improvável cena final é uma das coisas mais ridículas que já tive a oportunidade de acompanhar.

28 de Março de 2009

Vanishing Point


Filme cool setentista sobre Kowalski (Barry Newman), um ex-piloto de corridas que tem de transportar um carro de Denver para San Francisco e acaba perseguido pela polícia, mas, ajudado por um radialista cego, segue viagem, modificado a paisagem dos desertos ao seu redor. O carro queridinho dos americanos, o Dodge Challenger, e o estilo despojado do protagonista movido a anfetaminas fazem de Vanishing Point um pequeno clássico da contracultura.

A chave do filme está em seu protagonista. Kowaslski foi policial (mas foi expulso por tentar ajudar uma garota a fugir do assédio de um colega) e mantém o respeito por ser veterano da guerra do Vietnã. Entretanto, surge como uma espécie de ex-hippie em busca de expiação. Ele mantém o olhar distante e não se apega a nada, nem a ninguém - ainda parece incorformado com a morte trágica da mulher que gostava - e na sua trajetória rumo a lugar nenhum descontrói "símbolos" como a polícia, a religião e o próprio estilo de vida dos hippies. Um reflexo do incorformismo e dos conflitos vividos pela juventude americana na época, ainda perdida com as possibilidades abertas nos anos 1960.

Como não poderia ser diferente, um filme politicamente incorreto como esse não poderia passar sem um remake. E este foi realizado em 1997 e traz Viggo Mortensen no elenco. Não vi e nem me interessa, pois tenho medo deles terem transformado a macheza inconseqüente de Kowaslki em sensibilidade. Prefiro ficar com o original e lembrar que uma dose extra de testosterona não faz mal a ninguém.

Ponto Alto: fico na dúvida entre a cena dos ladrões gays ou a sequência onírica com os fanáticos religiosos no deserto.

Ponto Baixo: os flashbacks com as cenas de romance, incluindo a estúpida morte da companheira do protagonista, são muito ruins.

PS: atenção para a música do Globo Repórter logo no início das perseguições.

A Espiã


No retorno ao país laranja depois de um “estágio” cheio de altos e baixos no mainstream norte-americano, Paul Verhoeven nos traz ao mundo da espionagem na resistência holandesa em plena segunda-guerra. Amontoado de clichês e forçadas situações pra mostrar que alguns nazistas não são tão maus assim; enquanto, por outro lado, há heróis movidos por interesses nada éticos. Na verdade, um punhado de soluções fáceis recheadas com pitadas de erotismo e violência. Achou ruim?! Eu não!

Ponto Alto: a protagonista, Carice van Houten, tem um corpo perfeito e é um sopro de esperança nestes tempos em que a beleza natural faz falta no cinema. O “tingimento ariano” é um daqueles momentos gratuitos que nos fazem sorrir de orelha a orelha.

Ponto Baixo: a canastrice suja do tal médico Hans (Thom Hoffman) incomoda até os mais tolerantes.

25 de Fevereiro de 2009

O Lutador

Os chatos criticaram a brincadeira com a rivalidade entre EUA e Irã no final de O Lutador. Meu Deus, não é possível que não tenham percebido a ironia. A grande piada sobre o estilo esbanjador dos americanos nos anos 1980 e a decadência dessa pujança econômica personificada no próprio protagonista. Quem gosta de wrestling senão o americano padrão, aquele redneck de carteirinha? E qual seria a reação desse público diante de um confronto-piada entre um “radical” iraniano e um herói yankee da velha-guarda? Nada além de uma deliciosa ironia deste Darren Aronofsky, que dá provas de realmente pairar acima da mesmice do cinema americano.

Na figura exagerada de Mickey Rourke o ícone perfeito de uma geração decadente. A fusão entre ator e personagem é mesmo impressionante. O estilo maduro e gente boa de Randy “The Ram”, um lutador de telecath ainda se equilibrando em ringues amadores em busca de uma glória sem volta, não poderia caber a outro ator. Rourke representou a decadência de um estilo de vida exagerado e fluorescente que deixou marcas profundas em quem o aproveitou sem meios termos.

Randy foi personagem de um videogame e agora dorme no carro, pois não tem dinheiro para pagar o aluguel do trailer que chama de casa - isso ultrapassa o conceito que temos do white trash lutando pelo seu espaço. Uma vez que a redenção não vai vir – o sonho americano do talento brotando na lama ficou no passado – o futuro é ainda mais sombrio. E o melhor é que tudo vem recheado por uma deliciosa farofa kitsch que está na música, no figurino, na direção de arte, nos personagens (Marisa Tomei também dá show em todos os sentidos) e respinga na cara do telespectador em cada frame de O Lutador.

Para ficar nos aspetos técnicos, as lutas são primorosas (a do grampeador faz qualquer um ranger os dentes) e se encaixam perfeitamente à narrativa – até que ponto é teatro, até que ponto está passando dos limites... E, tirado alguns exageros pirotécnicos do nosso cineasta (a entrada no açougue poderia ter ficado sem os gritos na platéia, como bem lembrou um amigo), O Lutador merece ser descoberto justamente por cuspir na cara do americano comum que o mundo mudou e ele não paira mais acima do bem e do mal. E olha que a mensagem é polêmica, pois a atuação irretocável de Rourke não lhe rendeu todos os prêmios que merecia. Agora vale mais ser chapa branca apoiando a causa homossexual utilizando-se de Sean Penn que escancarar a decadência de uma era com um galã deformado. Todos fomos enganados.

Ponto Alto: o diálogo exaltando a diversão desmedida dos anos 1980 em contraste com a deprê sugerida por Kurt Cobain na década seguinte. Coisa de gênio.

Ponto Baixo: entendemos a proposta de lugar comum no encontro com a filha (interpretada pela bela Evan Rachel Wood), mas faltou uma mão mais leve nestes momentos. A idéia podia ser outra, mas a mensagem que ficou foi de pieguice.

PS: reparem na cena externa em que Tomei e Rourke conversam em frente a um brechó; uma filial da Igreja Universal com letreiros em espanhol aparece atrás do ator. Como não acredito em “situações casuais” no cinema, fica a impressão de mais uma prova que os EUA dos anos 1980 realmente mudou.

18 de Fevereiro de 2009

Rocky Balboa


Reza a lenda que o personagem Rocky Balboa foi inspirado em Chuck Wepner, um coadjuvante no mundo dos pesos pesados, que, por um golpe do destino, enfrentou Muhammad Ali. Chuck chegou a derrubar “o maior de todos os tempos” durante a luta. O problema foi que a batalha durou os quinze rounds previstos e Ali não derrubou o cara, apenas judiou. O negócio foi feio. Pego este mote, criou-se em época de moral em baixa nos EUA (todos citam a Guerra do Vietnã e o caso Watergate) o “freak” mais querido do mundo do boxe. O cenário: as ruas lavadas da Filadélfia, sinônimo de liberdade para o povo americano. O filme mostrava que qualquer um, inclusive um retardado que trabalhava como cobrador para os mafiosos, pode ser um vencedor.

O primeiro filme foi em 1976 e chegou a papar alguns Oscars (o detalhe é que Rocky perde a luta para Apollo Creed, apesar de ter uma versão dublada em que dizem que deu empate... nada a ver). O filme foi o golpe certo na carreira de Stallone; definitivamente, catapultou a carreira do astro. Pois depois de uma temporada tenebrosa (a série só caiu de qualidade ao longo do tempo), Rocky - agora um velho viúvo em conflito com o filho - volta às ruas molhadas da cidade natal e, na tentativa de promover um jovem e impetuoso lutador, encara uma improvável luta promocional. É a chance de redenção e a oportunidade de passar bons valores ao filho etc. O cara é um herói, mas tem de provar isso mais uma vez – dizem que as pessoas têm até três oportunidades de darem certo na vida, mas essa regra não se aplica ao nosso boxeador favorito. Rocky Balboa, apesar de puxar na sacarose em vários momentos, tem seu charme; afinal a despedida do Ganharão Italiano dos ringues não poderia passar despercebida.

Ponto Alto: as sequências de treinamento ao som clássico de Bill Conti e as cenas de luta são muito bem realizadas.

Ponto Baixo: Rocky continua aquele cara lento na vida social. Meio perdidão, sem tato nenhum com a mulherada. Naquela época era até legal ver isso; hoje, ninguém mais tem paciência.

P.S: dedicado ao amigo Dieguito.

12 de Fevereiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamim Button

Quem viu o novo filme de David Fincher com certeza vai o comparar a Forrest Gump. E a semelhança com a obra de Zemeckis não é à toa – os roteiros foram concebidos pelas mesmas mãos. No caso, as mãos de Eric Roth. Não sei se isso é bom ou ruim – pois apesar do inegável talento em dar vida a personagens fascinantes - Roth enfraquece o foco deste Benjamim Button, que é a ação implacável do tempo. E há outras peculiaridades que detonam com a pretensão épica idealizada por Fincher: a estrutura narrativa não é nada inventiva (e, como diz um amigo, lembra Titanic), a maquiagem e os efeitos comprometem qualquer verossimilhança (tudo bem que o tom era de fábula, mas fica o registro) e certas “liberdades poéticas” são, no mínimo, inadequadas (aceito sugestões para seqüências mais piegas que a do beija-flor).

Mesmo assim, justiça seja feita – as quase três horas de projeção jamais se tornam enfadonhas e a premissa é interessante demais. Também é preciso ressaltar que um pouco de altruísmo não faz mal a ninguém. O Curioso Caso de Benjamim Button prega virtudes e a mensagem de “viva o presente” é extremamente adequada para os dias atuais. Sem falar que, a despeito da inconsistência do roteiro, saímos realmente intrigados com a ação irremediável do tempo em nossas vidas. Isso eu comprovei em ver o rosto enrugado da personagem mais gratuita da trama, a leitora-de-diários vivida por uma das minhas paixões de adolescência, Julia Ormond.

No elenco, destaque para o charme e elegância de Cate Blanchett. Brad Pitt está bem e acho legal a idéia de criar expectativa para ver o ator de “cara limpa”. A seqüência do ataque suicida ao submarino é magnífica e as cenas de dança são extremamente bem realizadas, com exceção daquele encontro lúdico e brega à meia luz. Enfim, um filme bom e do bem, mas enfraquecido pela pretensão napoleônica de seu principal realizador.

Ponto Alto: Benjamim Button, agora quase um garoto, vislumbra o corpo desgastado da sua amada Daisy. Cena realmente deslumbrante.

Ponto Baixo: a invencionice narrativa da seqüencia do atropelamento em Paris não leva a lugar nenhum.

21 de Dezembro de 2008

Halloween


Tudo bem que a irregularidade é uma característica dos filmes de Rob Zombie, pois ele não tem lá muita mão pra criar roteiros ou gerar momentos de tensão; entretanto, em termos de estilo e ousadia, suas produções são ímpares. Neste Halloween, a cena iniciada por Love Hurts do Nazareth é uma das coisas mais ousadas e estilosas que vi no cinema mainstream nos últimos tempos. Para mostrar uma criança iniciando uma carnificina violentíssima no renascimento de um ícone pop tem de ser, no mínimo, atrevido. O problema é que, após um momento tão marcante, há a infeliz seqüência do garoto no internato, com uma tentativa confusa de tentar ilustrar o mal – edição remontando a um dos trabalhos anteriores do cineasta: A Casa dos 1000 Corpos. Entretanto, depois do tédio pretensioso, o menino ataca uma enfermeira e aí todo o talento do cineasta ressurge. E é com esses momentos díspares que Zombie reconta a estória de Michael Myers, personagem criado por John Carpenter nos saudosos anos 1970.

O filme de Zombie cai bastante depois que Myers cresce (e muito, vira um gigante), foge do internato e volta para a pequena Haddonfield a fim de terminar um serviço que começou quando criança. O tema batido e a falta de tato em gerar aflição no espectador não ajudam muito. Em compensação, as cenas violentas seguem visualmente impecáveis. No elenco, destaque para a musa Sheri Moon e William Forsythe, como um padrasto nada afetivo, sem falar nas pontas de Ken Foree, Bill Moseley e Danny Trejo.

Parênteses para Malcolm Mcdowell como o Dr. Loomis. Mcdowell mais uma vez insiste em dar provas de que não soube envelhecer. O ator genial de Calígula e Laranja Mecânica foi a personificação do rolling-stone-way-of-life no cinema – olhos esbugalhados, gesticulação frenética e uma marcante áurea junkie; além, é claro, do inegável talento. Sei lá por que cargas d’água, mas o cara nunca mais repetiu aquelas atuações e foi escolhendo papéis com dedo podre – chegando ao cúmulo de participar daquelas produções softcores ridículas que a Band não cansa de reprisar nas sextas sexies da vida. Neste Halloween, o ator dá mais uma prova de que seu estilo não resistiu ao tempo. No universo dark e cabeludo de Zombie, o personagem do psiquiatra, deslocado e ofegante, virou uma mera caricatura.

É fato que, feitas as contas, o Halloween de Zombie paira acima do lugar comum do cinema americano. Entretanto, a fragilidade do argumento e outra série de defeitos (o que é aquele calabouço edwoodiano no qual Myers aprisiona sua irmã?) trouxeram muitas críticas negativas e o filme ficou marcado como um caça-níquel sem atrativos. Não concordo com esta opinião; pois, a despeito de tudo, se não pelo conjunto da obra, gostei de Halloween pelas sangrentas seqüências do massacre inicial e do desfecho.

Ponto Alto: Zombie selecionou bem o casting feminino e foi extremamente generoso nas cenas de nudez. Ponto pra ele.

Ponto Baixo: a protagonista Scout Taylor-Compton dá uma melhorada no duelo final, mas levou o filme todo no piloto automático com aquela carinha de atriz dos seriados de Aaron Spelling.

7 de Dezembro de 2008

Ebola Syndrome


Filme realizado para um público que não se incomode em entrar na tosqueira exagerada proposta pelo cineasta. A estória recheada de situações de mau gosto conta a torta trajetória de um chinês que após realizar um triplo homicídio em Hong Kong vai tentar a sorte em restaurante na África do Sul e acaba por contrair o vírus Ebola. O detalhe é que o cara é tão escroto que tem imunidade ao Ebola, mas se transforma em um hospedeiro dos mais indesejados. O filme é um festival de extravagâncias, o que justamente torna a obra, se não divertida, ao menos curiosa. Vamos a alguns momentos que desde sempre fazem parte da antologia asiática do cinema extremo: o vilão se masturba com um pedaço de carne de porco e depois os serve aos clientes do restaurante, as crises com as pessoas se debatendo e babando por conta do Ebola merecem aplausos de tão ruins, o vilão adquiri o ebola ao estuprar uma moribunda (ela tem espasmos durante a penetração e o cara fica com dificuldade de, digamos, desfazer o ato sexual), os hambúrgueres feitos com carne de gente morta e por aí vai.

Em contraposição, vale citar algumas tomadas diferentes do corpo humano - mais especificamente, a boca, repleta de saliva e vírus. Idéia legal e bem apresentada. Mesmo assim, o filme quis e decididamente faz jus ao rótulo de trash. Para quem quiser rir ou ficar de estômago embrulhado com o show de escatologias este Ebola Syndrome é imperdível. O chauvinismo do protagonista e o preconceito fanfarrão contra negros, brancos e os próprios asiáticos podem mexer com os brios dos críticos mais sensíveis, mas decididamente este tipo de cinema não foi produzido para os mais sensíveis.

Ponto Alto: o protagonista sempre agitado é um achado. O diretor Herman Yau e Anthony Wong trabalharam no famigerado The Untold Story um pouco antes e aqui dão mais uma prova da afinidade da dupla.

Ponto Baixo: a cena da garotinha dividindo um doce com seu cachorrinho provoca náuseas, mas apresenta um gancho que definitivamente não tem nada de diferente do convencional.

28 de Novembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona

Fui todo empolgado ver o novo de Woody Allen e saí decepcionado. O tema do pragmatismo dos americanos versus o espírito libertários dos europeus é batido e o cineasta não apresentou nada de novo, na verdade se afundou em um sem fim de situações comuns. Minha memória só conseguiu buscar Só Você – farofa com Marisa Tomei e Robert Downey Jr. que enriqueceu nosso capenga vocabulário romântico há uns bons 10 anos atrás. A ciranda de paixões propostas por Allen em Vicky Cristina Barcelona é falsa e mal estruturada e, assim, somos levados a crer que não é obra de um artista genialmente cínico que tem o poder de interpretar situações cotidianas como nenhum outro.

Vamos aos fatos - as personagens que dão nome ao filme são duas americanas que vão passar o verão (verão longo, viu!) em Barcelona e lá irão experimentar o estilo de vida espanhol. Enquanto Vicky (Rebecca Hall) está prestes a se casar e apenas quer concluir os estudos em cultura catalã, Cristina (Scarlett Johansson) não sabe bem o que quer da vida, apenas quer viver de maneira intensa. Elas conhecem o pintor Juan Antonio (Javier Bardem), o tipo sedutor mais óbvio dos últimos tempos, que com um papinho de boteco leva as meninas para um final de semana na bela Oviedo. Lá tem início um triângulo amoroso que se tornará um quadrado com a chegada de Maria Elena (Penélope Cruz) – ex-mulher do pintor.

Vamos destacar o personagem central da trama; o Juan Antonio de Bardem parece zombar do publico com uma caricatura tão óbvia do sedutor latino; isso sem mencionar o poder de persuasão previsível - na verdade, ele apenas usa os argumentos desconsertados das mulheres a seu favor. A conturbada relação de Juan com a ex-mulher rende alguns momentos divertidos, mas que logo se tornam repetitivos e inverossímeis, mesmo em um lugar em que as pessoas se expressam de forma expansiva. Nesta linha, a Maria Elena de Penélope Cruz deixou o histrionismo se sobrepor à sensualidade.

Com tantas críticas, fica a impressão que odiei o filme, mas não é bem assim. Vicky Cristina Barcelona é leve e fácil de assistir e, apesar de tudo, vemos o bom e velho Allen em alguns momentos. Os melhores exemplos são a ironia de um personagem ao tema de mestrado de Vicky e a seqüência em que Cristina é questionada sobre o motivo que a levou a estudar o idioma chinês. Outro ponto forte é que a cidade de Barcelona foi muito bem fotografada, entretanto tudo leva a crer que o roteiro foi elaborado para se encaixar aos pontos turísticos e não o contrário. Para um cineasta comum, Vicky Cristina Barcelona seria uma obra satisfatória, mas para alguém com o talento de Allen fica abaixo da linha do medíocre.

Ponto Alto: a música e o som pontuam a trama de maneira bem eficiente.

Ponto Baixo: o esperado beijo entre Johansson e Cruz é uma desapontadora bitoquinha acompanhada de um carinho no rosto. Muito barulho por nada.

24 de Novembro de 2008

O Massacre da Serra Elétrica

Este clássico do horror é presença obrigatória na lista de quem se aventure a entender o cinema americano. O filme tem um tom documental genuíno que empresta uma urgência desesperada ao espectador – uma sensação que vai além do medo. A grande obra de um cineasta, tanto que, a despeito do relativo sucesso comercial que alcançou depois, Tobe Hooper sempre será lembrado pela originalidade de O Massacre da Serra Elétrica. O filme foi realizado com uma liberdade artística evidente e não temeu em ser ousado. Nos anos 1970, o hype era ser politicamente incorreto e os excessos de toda esta geração foram escancarados com a crueza necessária em câmeras de 16 mm neste exemplar singular do cinema independente.

A suposta lenda urbana de um grupo de jovens vítimas de uma família redneck do Texas é uma coletânea de lendas, fatos e preconceitos que ajudam a construir e/ou consolidar um arquétipo do medo. O tema por si é indigesto e, para piorar, a construção dos personagens e situações passam a impressão de que estamos diante de um vídeo amador - o pesadelo parece mesmo real. Sem falar no insaciável combustível hedonista quer perpassa não só o que vemos na tela, mas a produção como um todo. Ao contrário de qualquer conceito do establishment atual, somos deleitados com um festival de seqüências perturbadoramente antológicas.

Antologia suja construída com a desconstrução de mitos do american way of life: veterano de guerra ardil e sanguinário, a morte de um cadeirante sem qualquer valoração por conta das suas limitações e a nada convencional cena de jantar em família são apenas exemplos. Revi um dia desses e o filme continua original, anárquico e assustador. E para alfinetar os moderninhos, vale salientar que não há remake violento e bem produzido que faça jus ao original.

Ponto Alto: a cena da primeira morte com a marretada na cabeça.

Ponto Baixo: não que tenha feito falta, mas vamos dizer que faltou um pouco mais de exploração da sensualidade da protagonista.

20 de Novembro de 2008

Falcões da Noite

Filme policial estiloso e casca grossa ambientado em uma úmida Nova Iorque no início dos anos 1980. Astros de primeira linha, violência sem frescura e ainda uma trama de terroristas com atentados na Europa. Falcões da Noite é um filme bom, mas não passa disso, pois em momentos cruciais da trama seus realizadores optaram por lançar mão de uma ironia que pode soar agressiva a quem curte o gênero. Particularmente, não gostei de certas resoluções que tiraram o foco do contexto violento e sério que pautava a obra até então. Pensando com calma, depois da cena do teleférico – estilo 007 fanfarrão - tudo já tinha ido por água abaixo mesmo e a tal “sacação final” apenas pôs fim a quem, assim como eu, ainda acreditava em alguma redenção.

Pois bem, vamos falar das flores. Stallone faz o cana barra pesada Deke DaSilva - veterano da guerra do Vietnã, cheio de marra, que marca território com o cabelo grande, a barba e o inseparável casaco de couro. Seu parceiro de polícia é outro poço de estilo, o bruto Matthew Fox (o galã Billy Dee Williams) – os dois vivem armando botes em traficantes e ladrões dos bairros mais violentos de Nova Iorque. Fazem um excelente trabalho, mas são rechaçados constantemente pelos superiores. A propósito, DaSilva está em uma fase de reconciliação com a ex-mulher Irene (vivida pela famosa Lindsay Wagner, em papel pequeno). Do outro lado da linha, temos o terrorista Wulfgar (Rugter Hauer, sempre mesclando elegância e agressividade na dose certa) que depois de aprontar nas ruas de Londres e Paris se manda para Nova Iorque para fazer valer uma lógica política precipitada mal explicada no filme. Wulfgar ainda conta com o apoio da bela Shaka (Persis Khambatta).

O diretor Bruce Malmuth - que, entre outros, fez o figurinha carimbada da sessão de gala Onde Estão as Crianças? e também Difícil de Matar com Steven Seagal - sabe criar estilo, mas tem mão frouxa na condução da trama. A despeito de tudo nos deleitamos com cenas pra lá de icônicas, como a perseguição que se inicia na boate e termina na estação do metrô e a canastrice de Stallone fazendo beicinho ao receber a notícia de que em uma situação de risco pode haver a possibilidade de ferir alguém para deter o tal terrorista. No fim, o saldo positivo se deve a bela construção de algumas seqüências. Mesmo assim, não vale a consciência pesada, pois se nem os realizadores levaram o filme a sério, não é o publico que os vai redimir!

Ponto Alto: Billy Dee Wiliams faz o coadjuvante dos sonhos de todo o protagonista – dá uma força, se machuca, mas sua presença no fundo pouco acrescenta – nada sabemos sobre o personagem ao longo trama. No caso de Falcões da Noite, ele apenas impregnou os frames de estilo.

Ponto Baixo: as cenas de drag queen.

31 de Outubro de 2008

La Casa Dalle Finestre Che Ridono


O filme não é de todo ruim, mas por comentários de amigos, confesso que esperava mais. A estória do restaurador Stefano (Lino Capolicchio) que ao chegar a uma pequena cidade italiana passa a investigar estranhos acontecimentos ocorridos com o pintor do afresco de São Sebastião que tenta restaurar é razoável, mas sinceramente careceu de um roteirinho mais bem elaborado e de uma produção melhor acabada. Enquanto o incipiente investigador adentra nos meandros da cidade e descobre os segredos de seus habitantes somos atacados por uma horda de situações lugar-comum que veríamos depois em uma infinidade de obras. Não há como discutir o caráter inovador do filme em 1976, como também não há como negar que La Casa... não resistiu tão bem ao tempo e, numa inversão irônica, acabou por se tornar uma obra comum.

Vamos aos fatos – Stefano tem um amigo na cidade que tenta alertá-lo do perigo em investigar os desdobramentos da vida do pintor, mas o que ocorre? O amigo morre. O tal mistério principal envolve um caso de família mal resolvido e todos na cidade têm consciência dos crimes, mas o único disposto a falar é um bêbado (o Coppola de Gianni Cavina), que logicamente carece de credibilidade. Há o affair do protagonista (a bela Francesca – Francesca Marciano) a quem desconfiamos no início, mas descobrimos a posteriori ser apenas mais uma vítima. A polícia não descobre nada quando é convocada pelo incauto investigador. E, por fim, o personagem mais óbvio aparece como o derradeiro vilão. Ou seria vilã? Por mais simpáticos que sejamos ao gênero, é fato que a produção sucumbiu à superexposição dos próprios clichês.

Infelizmente, a concepção estética da produção também tende ao local comum. Obviamente, o filme é bem retratado, a música é boa e algumas seqüências realmente causam tensão. Entretanto, não há nada no filme de Pupi Avati que se destaque. Mais uma vez tudo (ou quase tudo) caiu na vala comum. Não há como negar que contemporâneos e conterrâneos de Avati como Argento e Fulci são bem mais gráficos não só do ponto de vista da violência, mas também no acabamento estético. Por outro lado, é impossível não reconhecer que assistir ao filme é uma boa diversão. La Casa.... tem um bom ritmo e apesar de óbvia, a trama prende a atenção. Até o lugar comum do cinema italiano lá nos 1970 é diferenciado.

Ponto Alto: o melhor momento, sem dúvida, é a tomada com a tal "casa das janelas que riem”.

Ponto Baixo: faltou um pouco mais da boa e velha sensualidade italiana.

21 de Outubro de 2008

Cidadão X


A história da caçada da polícia soviética ao insaciável serial killer Andrei Chikatilo deu um excelente telefilme com gente do porte de Stephen Rea, Donald Sutherland e Max von Sydow no elenco. Na verdade, a história é focada nas perrengas enfrentadas pelo médico-legista Viktor Burakov (Rea) elevado à condição de investigador e perseguidor do mais cruel assassino da cortina de ferro, que matou mais de 50 jovens nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Toda a investigação passava pelo crivo do partido comunista e os problemas eram muitos, não só pelo ponto de vista ideológico, mas principalmente pelas limitações estruturais.


O filme faz severas críticas ao sistema comunista e uma coisa ou outra ainda parece provocação gratuita (uma vez que Citizen X é de 1995), mas é evidente a falta de tato por parte do governo soviético para enfrentar um monstro como Chikatilo (aqui vivido com a angústia necessária por Jeffrey DeMunn). Mas será que é simples enfrentar um homem que leva uma vida aparentemente normal, mas para saciar um instinto bizarro ou uma frustração deplorável molesta e mata crianças? Definitivamente não, uma vez que do lado de cá da ficção, países ricos sofrem com a profusão destes monstros sociais, cuja imprevisibilidade da atuação torna praticamente impossível qualquer ação de prevenção. O que países com um aparato tecnológico melhor e um banco de dados mais completo geralmente faz é identificar e tirar de maneira mais célere o serial killer de circulação, pois no caso de Chikatilo o próprio governo soviético se negava a acreditar na existência de um assassino tão brutal – o que realmente dificulta e muito qualquer trabalho.


Apesar de detalhes como o fato de todos falarem inglês na União Soviética (isto me causa incômodo desde Casa dos Espíritos) e o protagonista ser um ser humano composto apenas de virtudes deixarem a produção com a cara da boa e velha dialética maniqueísta do cinema americano, isto não estraga o fato de Cidadão X ser uma produção intrigante e muito bem realizada. Na verdade, o que importa é que o filme é bem conduzido e deixa o espectador ligado até os créditos finais. E olha que estamos falando de uma produção feita para a televisão. Merece e muito ser descoberto.


Ponto Alto: Donald Sutherland como o oficial irônico que agiliza por baixo dos panos as coisas para o esforçado Burakov destila talento. E olha que o pai do nosso querido Jack Bauer levou no piloto automático.


Ponto Baixo: A entrada do psiquiatra interpretado por Sydow, que cria o tal relatório Cidadão X com o perfil psicológico do assassino é feita de supetão. A importância do personagem é fundamental na trama, entretanto ele é muito mal explorado.

2 de Outubro de 2008

Abre Los Ojos


Quando Tom Cruise e Cameron Crowe realizaram Vanilla Sky todos acharam o filme diferenciado e correram atrás do original, idealizado por Alejandro Amenábar e protagonizado por Eduardo Noriega um tempinho antes. Muitos se frustraram com o filme espanhol, mas o preconceito é infundado, pois, apesar da versão americana ser mais bem realizada (produção caríssima e tal), é fato que não é mais interessante (e muito menos original, obviamente) que seu antecessor. Enquanto Tom Cruise - apesar de qualquer preconceito que se possa ter contra o cara - passeia quando posto em comparação com o nosso eterno platinha queimada Noriega, Cameron Diaz definitivamente não é melhor que sua rival latina (Najwa Nimri) e no duelo Fele Martínez versus Jason Lee sugerimos um empate técnico com ligeira vantagem para o americano. Como Penélope Cruz é a tal musa Sofia nas duas produções e o personagem do psquiatra tanto faz como tanto fez, deixamos o desempate para outro diferencial que é o clímax do filme. E aqui é inegável que o original é mais sustentável que seu primo rico. Sem falar que ter a idéia original também conta pontos e, dessa forma, o ouro vai para Amenábar.


Novamente acompanhamos a trajetória do playboy mulherengo (mas sensível e inteligente) que se vê diante de um dilema ao comer o pão que o diabo amassou depois que fica deformado por conta de um acidente. Ele tinha tudo e com o rosto destruído desliga-se de um mundo no qual sempre reinou como protagonista. Ele não sabe lidar com a sensação de ser desagradável, e aí parte para um tratamento nada convencional. O bom do filme é que a galera com menos de 40 anos vai se identificar com dilemas como envelhecimento, eternidade, beleza, desejo, dinheiro, sexo... Um estudo superficial e deliciosamente pop, mas que inegavelmente causa reflexões. Não é mania de moleque metido a indie não, mas que este pequeno clássico moderno fica ainda mais autêntico e charmoso com sotaque latino isso fica. Pode acreditar!


Ponto Alto: Penélope Cruz quando fala espanhol é mesmo uma atriz diferenciada. É aqui ela se sobressai.


Ponto Baixo: o roteirista teve uma idéia, colocou no papel e viu que o negócio era bom pra ser filmado, entretanto a produção, nitidamente sentido o peso da falta de dinheiro, acaba por exagerar na improvisação em certos momentos. E é nesses momentos que refletimos como a máquina hollywoodiana sabe mesmo tornar mais críveis as fantasias.

23 de Setembro de 2008

Cloverfield - O Monstro


A premissa é avassaladora, mas o resultado ficou aquém do que esperávamos. O ritmo não se mantém e do meio para o final estamos bocejando no aguardo para a conclusão da estória do monstro que resolve destruir Nova Iorque. Pois bem, o filme tem gente de seriado famoso envolvida, um elenco novo e “descolado” e uma idéia que, apesar de não ser nada original, sugere um sopro de criatividade – estamos falando da câmara subjetiva, que empresta um certo tom documental e urgente ao filme e, obviamente, nos aproxima dos personagens.

Falar em personagens, os tais são dignos de seriado! O conflito de um casal de amigos que se gosta e não se assume não sabemos por que cargas d’água é coisa que funcionava lá na época do Barrados no Baile. Pois bem, Rob Hawkins (Michael Stahl-David) é o protagonista e, ao ser “rejeitado” pela amiga Beth (Odette Yustman), aceita uma proposta de emprego no Japão. E é na festa de despedida do baitola que as coisas acontecem. O tal monstro chega destruindo tudo e comendo a todos; no desespero da fuga, uma tragédia aqui, outra ali, e o desespero é grande, mas o que Rob faz? Ele, praticamente a salvo do pior, decide voltar para o lugar dos ataques - que virou um verdadeiro campo de guerra por conta da intervenção do exército - para salvar a amada sem nem saber se a garota está viva. Os amigos (fiéis ou idiotas?) o acompanham.

E o roteiro se sustenta por este fiapo de trama que só funciona para quem deixou de lado qualquer sinal de bom senso. Entretanto, nesta versão ianque de Godzilla, a baboseira de jovens adultos divididos entre o amor e o lado profissional é o que menos importa, o povo quer ver é a destruição e o caos provocados pelo tal monstro. E nisso os realizadores acertaram em cheio no início; ficamos apavorados na primeira metade do filme com a insegurança provocada pela situação, mas esse suspense se dilui à medida que o roteiro força escolhas inverossímeis. No final, a melhor coisa do filme - a tal câmara subjetiva - não funciona mais e o telespectador está cansado deste ritmo frenético e descerebrado. O filme não é ruim, mas tinha potencial para muito mais.

Ponto Alto: a cabeça da Estátua da Liberdade no meio da rua e a cena no túnel do metrô. Momentos que deixaram muita gente nostálgica de Fuga de Nova Iorque e Aliens – O Resgate.

Ponto Baixo: pode ser implicação, mas é fato que a passividade emocional e a ausência de qualquer traço de carisma do tal Michael Stahl-David são constrangedoras e acabam por comprometer toda a produção.

14 de Setembro de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas


O novo filme do Batman é realmente diferenciado. Sombrio e, na medida do possível, atrevido, mas é inegável que grande parte desse sucesso se deve a interpretação irretocável de Heath Ledger no papel de Coringa. Não há limites para um personagem tão anárquico. Lembrei de um ensaio de Edgar Allan Poe sobre a perversidade. Caso fosse uma produção menos endinheirada e com mais liberdade artística, a exploração do personagem poderia ir mais longe e não parar em um dilema cafona de bondade. A cena do hospital é antológica, mas depois temos de engolir o desfecho da seqüência do barco. Uma parece que faz parte do nascimento de um talentoso cineasta europeu ainda sem freios, enquanto a outra é a cara das produções protagonizada pelas irmãs Olsen. Tudo embrulhado na mesma produção. Desse jeito, fica difícil qualquer mensuração.

Pois bem, aqui o que menos interessa é mesmo Batman, apesar de alguns forçados conflitos e do auxílio de Lucius Fox (Morgan Freeman) e Alfred (Michael Caine) para dar “sustância” ao herói. Neste caso, temos a história de Harvey Dent (Aaron Eckhart, segurando a canastrice) – promotor incorruptível que depois de um trauma vira o Duas Caras, personificação de uma Gotham City totalmente podre a beira da hecatombe que recebe um empurrão para a completa insanidade pelas mãos do Agente do Caos (essa denominação é muito apropriada). É algo assustador a presença avassaladora do vilão, sempre maquiavélico, irônico, escatológico... a insegurança provocada em algumas seqüências são primorosas; algo que David Fincher sempre buscou e conseguiu, diga-se a verdade, mas em raros momentos.

O Coringa é o contraponto perfeito a mesmice do filme que tem de se valer de exageros pirotécnicos que beiram a infantilidade e do velho dilema do desespero amoroso para segurar a narrativa. Na verdade, ninguém suporta mais ver os heróis matando milhares de pessoas, pois o bandido mantém sua namorada como refém – a bondade mandando a mensagem que vale sacrificar tudo por amor. Na verdade, o herói não passa de um egoísta que usa seus recursos em benefício próprio. Pois bem, separe o joio do trigo e divirta-se com o novo filme do Batman, digo Coringa. Ah, esqueci de mencionar o Christopher Nolan. Ele, na verdade, merece todos os méritos por entender que o segredo não está no herói, mas sim nos desígnios dos vilões. Parabéns para o cara; fez um filme acima da média nessa mediocridade que paira no cinemão - e tem gente que ainda briga por achar genial os conflitos adolescentes vividos por Peter Parker.

Ponto Alto: Why So Serious?! Novo ícone pop.

Ponto Baixo: a voz forçada de Batman. Impossível não rir!

12 de Setembro de 2008

O Portal

Trata-se daqueles filmes orientais violentos, mas este aqui está longe de ter um roteiro elaborado ou alguo emblemático. Na verdade, aqui não há absolutamente nada de inventivo – um grupo de jovens (alguns são tão jovens que parecem crianças) se perde em meio a uma floresta e são mortos pelo sobrenatural (no melhor estilo Premonição) ou por um serial killer (aqui vamos de slasher mesmo). Sempre que o pesadelo está para acabar, mais surpresas. E, por fim, o confronto final que não é tão FINAL assim...


Estamos falando de uma produção tailandesa com pinta e estilo de filminho americano, mas então por que ver este tal de Rap Nawng Sayawng Khwan? Simples – o gore. Obra de arte neste quesito!!! Cada coisa exagerada e pra lá de divertida. Para os iniciados um deleite, pra quem não ta acostumado só vai ter de novo o estilo silábico e entoado de falar dos tailandeses, logicamente mais próximo dos chineses que dos japoneses. Mas é importante avisar que ninguém vai passar alheio a tanta sangueira. Esqueça completamente o senso crítico e boa diversão. Vale a pena.


Ponto Alto: gore, gore, gore, gore.


Ponto Baixo: a forçada no desfecho é uma das coisas mais imbecis que vi nos últimos tempos. Pode até amarrar algumas coisas que acontecem durante o filme, mesmo assim não dá pra aceitar de coração aberto.

22 de Maio de 2008

O Franco-Atirador


Este filme é bom pra CARALHO. Desculpe a grosseria inicial, mas este pequeno épico intimista assinado por Michael Cimino me deixou eufórico. Um filme pesado, mas muito bem conduzido e que propõe uma visão antibelicista, no mínimo, engenhosa. Sem falar em um elenco de causar comoção em qualquer pessoa. Pois bem, reza a lenda que após o sucesso do filme (laureado de todas as formas) Cimino se lançou em um projeto que simplesmente quebrou a United Artist – o faroeste cabeça Portal do Paraíso. Hoje gente considera cult, mas não posso emitir qualquer juízo de valor, pois nunca o vi. Mas o assunto aqui é outro e que parece bem mais unânime.

O roteiro é de autoria do próprio Cimino em parceria com Deric Washburn, e, segundo consta, foi inspirado em escritos de um veterano alemão da 1° Guerra Mundial. Em O Franco-Atirador, realizado em 1978, temos um grupo de amigos descendentes de russos (ou ucranianos, isso não fica bem certo), moradores de uma pequena cidade na Pensilvânia e dividem o tempo entre o trabalho em uma siderúrgica, a bebedeira e a caça de veados nas belas montanhas geladas que cercam o lugar. A turma é formada pelos irmão Michael (Robert De Niro) e Nick (Christopher Walken) e pelos amigos Steven (John Savage), Stanley (John Cazale), John (George Dzundza) e Axel (Chuck Aspegren). Michael, Steven e Nick estão de viagem marcada para defender o país na Guerra do Vietnã. Porém, antes da guerra, há o casamento de Steven com cerimônia realizada em uma igreja ortodoxa e comemorada em uma festa pra lá de animada – são seqüências de uma plasticidade incrível. No meio da bebedeira, os três futuros combatentes demonstram a ansiedade e a incerteza gerada pelo desafio que está por vir. Completando o bafão, Linda (Meryl Streep), namorada de Nick, e cortejada pelo cunhado Michael. Sei que parece putaria barata, mas a coisa vai bem além do desejo carnal.

Na guerra, os três são capturados e obrigados a “brincar” de roleta russa para divertimento dos inimigos. Um trauma que cada um encara de maneira diferente. A roleta russa (um tiro só pra matar a caça) é o que vai pontuar toda a trama daí por diante. Uma guerra que deixou seqüelas não só para quem a enfrentou. Poderia soar piegas, mas não é isso o que acontece. Não sei se a reação mais habitual, mas eu realmente me emocionei - sorri nos momentos felizes (o encontro de Michael com os amigos depois da guerra) e os olhos marejaram nas cenas mais intensas.

Visualmente o filme também é um assombro – as montanhas da Pensilvânia ou as próprias cenas internas são retratadas com uma sensibilidade assombrosa. A música faz aquele estilo épico marcando época – exatamente o que aconteceu. Sem falar da ambigüidade sobre o conceito de nação e as mais variadas alegorias para a roleta russa; interpretações variadas e difusas mas todas enaltecendo virtudes nobres. O filme decididamente não é fácil, mas merece toda a atenção. Indispensável.

Ponto Alto: o sensível personagem John, interpretado por George Dzundza. Mesmo diante de um elenco de monstros (alguns só vieram a se consagrar a posteriori) e em um papel menor, ele se sobressai.

Ponto Baixo: as cenas das batalhas na Guerra ficam aquém do restante da obra.

3 de Maio de 2008

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Numa comparação ousada, atrevo-me a dizer que Tim Burton é uma espécie de Fellini da nova geração. Ao invés da estrutura onírica do primeiro, o nosso amigo é soturno e tem preferência por uma atmosfera gótica. Assim como o italiano, Burton criou seu universo nos filmes – todos os personagens são pálidos e o tom que prevalece é o cinza. E adiante nesta comparação inusitada, digamos que o Marcello Mastroianni do americano seja Johnny Depp. Não há dúvida sobre a eficiência da dupla que já provou a fina sintonia em filmes como Ed Wood, Edwards – Mãos de Tesoura e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Burton diz que adora trabalhar com o astro, pois ele não tem medo de se colocar nas mais inusitadas situações; sem falar que o aspecto camaleônico do ator é fundamental para o sucesso da parceria.

Pois feita esta introdução, vamos falar do violento musical Sweeney Todd que mais uma vez confirma o talento da dupla. Trata-se de uma fábula politicamente incorreta ambientada na Era Vitoriana em que um pai de família que teve a vida destruída por um corrupto juiz volta à cidade natal (a nebulosa Londres) em busca de vingança. E, para isso, o rapaz usa o talento de saber manusear como poucos uma lâmina de barbear. Detalhe – ele se hospeda na sobreloja da senhora Lovett (Helena Bonham Carter). Lovett tem uma loja de tortas que vai muito mal das pernas, mas acaba usando a carne das pessoas mortas pelo inquilino para dar uma virada nos negócios. Fechando a história – a filha Johanna (Jayne Wisener) que teve de ser abandonada por Sweeney e viver com seu algoz, o juiz Turpin (Alan Rickman), é cortejada pelo jovem Anthony (Jamie Campbell Bower). O vilão Turpin, então, usa de seu fiel Bedel (o sempre irretocável Timothy Spall) para infernizar a vida do jovem Anthony.

O filme tem um ritmo muito agradável e é extremamente convencional em sua narrativa. Não há aquelas invencionices que já viraram clichês de filmes moderninhos. Mas há um estilo interessante na edição. Ressalta-se ainda a violência nas cenas em que o protagonista degola suas vítimas, sangue aos borbotões. Sem falar que a atmosfera sombria – design de produção a cargo de Dantte Ferretti - e um Johnny Depp à vontade completam o tom acertado do filme. O final não se encaixa propriamente no contexto de fábula, mas cabe perfeitamente no universo idealizado por Tim Burton. Mais um exemplo do bom cinema comercial. Aliás, não posso ir embora sem falar que o cineasta tem a sua Giullieta Masina, estamos falando de Helena Bonham Carter. Ela também faz seu show.

Ponto Alto: o divertido barbeiro fake italiano feito por Sacha Baron Cohen.

Ponto Baixo: realmente os excessivos números musicais enchem o saco – em um certo momento fica ridículo ver Anthony suspirar pela meiga Johanna.

29 de Março de 2008

Maré, Nossa História de Amor


Meu camarada que está na equipe de divulgação do filme pediu uma força. O filme vai estrear no dia 04 de abril no circuito Rio-São Paulo. A coisa promete; como instigação, só conto a presença de Lúcia Murat à frente do projeto. Estou torcendo pra chegar logo em Brasília.

26 de Março de 2008

Um Homem, Uma Mulher


Quem manja um cineminha francês adora dizer que ama Truffaut e Eric Rhomer e odeia Claude Lelouch. A turma malha dizendo que ele faz o cinema francês mais comercial que alguém poderia fazer e que não é, digamos, politizado como seus amigos franceses. Preconceito bobo, pois o cara tem um senso estético apurado, adora carros velozes, tem um refinado gosto musical e adora mulheres bonitas. E para saudar este mestre - recentemente homenageado em uma mostra que rodou o Brasil e pela febre na internet depois que a bacaninha banda de rock Snow Patrol usou o curta metragem C’Était un Rendez-Vous como clipe da música Open Your Eyes - vamos falar do seu filme mais famoso: Um Homem, Uma Mulher. A produção criou praticamente todos os clichês dos filmes de romance. O que dizer de casal correndo pela praia, acompanhado de crianças e um cachorro, tudo ritmado por uma agradável bossa nova e embalado por uma bela fotografia em preto e branco?

Realmente Lelouch gostava de estórias convencionais e aqui não foi diferente – apesar da montagem ter sido bem inventiva. Casal na faixa dos 30 anos se encontra ao deixar os filhos pequenos no internato durante o inverno. Ele ( Jean-Louis Trintignant), um piloto de corridas; ela (Anouk Aimée), uma roteirista amargurada pela morte traumática do marido e que não sabe se vai estar pronta para engatar um novo relacionamento. Feita as apresentações, tome cenas açucaradas, ressentimento, lembranças doces e amargas - tudo envernizado em um acabamento estético de muito bom gosto (e olha que tinha tudo para ser extremamente brega). O final, com a perseguição ao trem, é coisa fina. O filme ganhou Oscar de filme Estrangeiro, Palma de Ouro em Cannes e se transformou em referência obrigatória. Aqui vai uma dica, jogue fora o DVD de Doce Novembro e começe uma bela noite ao lado da amada com os carinhos entre Trintignant e Aimé sob a batuta afiada do mestre Lelouch. Não tem erro.

Ponto Alto: não há um só fotograma em que Anouk Aimée não transpire charme. A balzaquiana perfeita.

Ponto Baixo: A personagem de Aimée seria perfeita, mas a obsessão pelo marido falecido passa do limite do aceitável. O ápice está representado a seguir - “Por que você me disse que seu marido havido morrido?”. A resposta é constrangedoramente piegas - “Ele morreu, mas para mim ainda não”.

15 de Março de 2008

May - Obsessão Assassina

Só me arrisquei com este terror com pinta de gótico, pois o diretor Lucky McKee foi um dos únicos (acho que o único) “novatos” chamados a compor a respeitada turma dos Masters of Horror. Porra, o cara chamou a atenção com este May, então vamos ver o quê realmente é isso. E o filme é surpreendentemente bom. Visual moderno, trama retrô, protagonista angustiantemente estranha e climinha mórbido sempre na ascendente que culmina em um desfecho bacana.

A menina May tem pais estranhos e é rejeitada pelos coleguinhas do colégio por um problema oftalmológico. Ela vive no seu mundo e sua singular amiga é uma boneca guardada em uma caixa de vidro. May fica adulta (vale citar a interpretação magistral de Angela Bettis), mas continua vivendo isoladamente – trabalha como ajudante de um veterinário estrangeiro (Ken Davitian, o produtor Azamat de Borat) e se apaixona pelo estudante de cinema Adam (Jeremy Sisto). Ela também se envolve afetivamente com Polly (Anna Faris), sua doce colega de trabalho A carência e a insegurança de May, obviamente, funcionam como catalisadores da efemeridade dos seus relacionamentos. E aí, tome mais angústia e rejeição e como a garota não tem parâmetros comportamentais bem definidos, além de um certo fascínio por mutilação, a explosão violenta é questão de tempo. ..

Tudo bem, May é mesmo bullying no estilo Carrie na veia, mas, a exemplo do clássico de Brian De Palma, sob uma leitura mais intimista e bem trabalhada que propriamente violenta. Além disso, o filme tem um estilo legal e não lança mão de homenagens cults, as citações são mesmo clássicas, como o Frankstein tatuado no braço de um punk... A coisa é século XXI e, em um mundo repleto de facilidades, o isolamento da menina fica ainda mais intenso e constrangedor. A última cena propõe uma leitura piegas da proposta do filme, mas não macula a boa impressão causada por May. Foi amor à primeira vista.

Ponto Alto: a cena das crianças cegas engatinhando sobre cacos de vidro é um achado. Uma inovação que merece ficar nos anais do cinema extremo.

Ponto Baixo: o tal de Jeremy Sisto é insosso demais. Tudo bem que May era estranha, mas merecia um objeto de afeto melhorzinho.

24 de Fevereiro de 2008

Os Embalos de Sábado à Noite

O clássico maior da era da Disco Music. O filme é forte em suas imagens e na construção do conceito de uma época. Para isso a parte técnica ajudou bastante - teve até inovações na câmera (steady-cam - câmeras menores sem o uso de tripés, rodas ou outros acessórios) a fim de mostrar com mais precisão o rebolado de John Travolta. O filme também é intenso não apenas pelo colorido da Discoteca 2001, mas pelo clima depressivo e questionamentos que pesam na trajetória de Tony Manero.

O início - Manero desfilando seu carisma pelas ruas do Brooklyn - é emblemático e abre a proposta do roteiro. Ali, o garoto é rei. Logo no início, ele é questionado pelo seu empregador sobre o futuro. Apenas desconversa, pois quer mesmo é viver o presente e continuar seu reinado naquela faixa de território. Descendente de italianos, o protagonista espera o final de semana para bailar (com muita competência) pelas discotecas do bairro. Lá é o sonho de consumo das meninas e o modelo de comportamento para os garotos.

O cara vive às turras com a família - pai desempregado, irmão largando a batina, mãe insatisfeita e arrumando briga com os vizinhos latinos. O personagem de Manero é bem desenvolvido – o cara não é má pessoa, mas é marrento ao extremo e acaba jogando todas as suas insatisfações em cima das garotas e amigos que o idolatram. Um suburbano bacana, mas cheio de imperfeições. Ele encontra Stephanie Mangano (Karen Lynn Gorney) para ser sua parceira em um concurso de dança e ela começa a questionar sua situação. Ele tem apenas 20 anos e a condição de ídolo do bairro é bacana, mas exige responsabilidade, pois seus amigos e admiradoras cobram atenção e atitudes, e ele não tem maturidade pra lidar com isso.

Reza a lenda que o filme seria comandado por Jonh G. Avildsen, que, segundo Travolta, queria tornar Manero um cara boa-praça, um personagem convencional. Não era essa a proposta e, quando o ator firmou o pé para manter a complexidade de seu personagem, os produtores optaram pelo astro e John Badham passou a comandar o barco. Os Embalos de Sábado à Noite demora a pegar o ritmo e tem atores ruins, mas isso é coisa menor perto de um filme tão importante e que curiosamente propõe muito mais do que se podia supor. Sem falar que Bee Gees é maneiro, Travolta dança pra caramba e o figurino é de primeira. Com tantas qualidades não foi por acaso que virou clássico.

Ponto Alto: o quarto de Manero decorado com pôsteres de Rocky Balboa, Al Pacino e Bruce Lee. Legal quando uma garota compara Manero a Al Pacino. O Dirk Digleer de Boogie Nights tem cheiro de homenagem.

Ponto Baixo: a protagonista Stephanie Mangano. A tal de Karen Lynn Gorney é muito, mas muito fraca. Não tem um pingo de carisma e a carinha de Margot Kidder não colou.

2 de Fevereiro de 2008

Hot Summer in The City


Arrisquei este pornozinho setentista pelo anúncio de que era o filme adulto predileto de Tarantino. E não me decepcionei com o resultado. Sexplotation setentista repleto de perversões, violência e muito estilo. Tem uma trilha sonoroa impecável (umas das melhores do blaxplotation que já tive o prazer de ouvir/ver) e aquela deliciosa imagem granulada e verticalizada. Adicione ainda uma violência ingênua, exagerada e descabida e cenas de sexo explícito com belas garotas. Pérola genuína que só os anos 70 poderia produzir.

Pois bem, o filme foi realizado em 1976 por uma garota, Gail Power, sob a alcunha de The Hare (sentiu a marra?). E só podia ser o felling feminino mesmo, pois em Hot Summer in The City não há bem uma estória, mas aquele velho pretexto pra tentar encadear as imagens e fazer estilo, que é o que realmente interessa. Acompanhamos as aventuras da virgem Debby (a ninfeta Lisa Baker, playmate da década de 1960) – que recusa as investidas do namorado – mas se desespera ao ver a mamãe na farra com dois rapagões. Sai pelo mundo sem eira nem beira e acaba se perdendo nas mãos de quatro negros. A menina é surrada, estuprada, faz às vezes de empregada.... Mas acaba encontrado a redenção e o amor (risos) em um ato exagerado de violência de Duke (Duke Johnson), líder da gangue. O final com a bela ninfeta branquinha andando ao som de Summer in The City é coisa fina. Impossível não sair assobiando a melodia de hot town, summer in the city...

O filme tem apenas 60 minutos e uma produção de fazer sorrir a galera que sua a camisa para fazer valer o cinema amador brasileiro.... Bobo, ingênuo e esquecível, por isso sim um pornô acima da média. Ainda acho Atrás da Porta Verde e Garganta Profunda mais interessantes, mas este aqui com certeza não faz feio.

Ponto Alto: a bela Black Orchid (nunca mais encontrei nada da garota) no papel da rival de Debby. Gata e hiper marrenta.

Ponto baixo: o baixo orçamento, às vezes, faz das suas. Quando um personagem tem o peito estourado por um tiro de escopeta temos apenas a marca do sangue e não há buraco nenhum. Tudo bem, tudo bem... sei que isso é meio frescura, mas que faltou um acabamento melhor aí isso faltou.

30 de Janeiro de 2008

O Gângster


Reza a lenda que quando da feitura de Blade Runner, Ridley Scott tinha a intenção de excluir a narração em off do personagem de Harrison Ford, idéia dos produtores. Porra, este detalhe foi um dos fatores que fizeram a fama cult do filme e coube como uma luva para o clima noir da ficção-científica. Assim, não é de estranhar que ao tenta fazer uma análise sociológica da sociedade americana na década de 1970, com elenco liderado por Denzel Washington, o diretor tenha entregue um filme apenas mediano. Não há qualquer dúvida que O Gângster paira acima da mediocridade que impera no cinema americano, mas ficou aquém da expectativa gerada. Todos esperavam a obra definitiva sobre a relação entre o sonho americano, a questão racial, a violência, a criminalidade, a relação com as drogas e não foi esse o resultado.

Na trajetória de Frank Lucas temos a exemplificação do efeito Eu sou 157 - música dos Racionais MC's na qual Mano Brown conta a trajetória de um bandido pra depois apresentar o final trágico e sem meio termos – a mensagem é que o crime não vale a pena, mas o planejamento do crime é o que fica marcado. Assim como na música, no filme é bem melhor acompanhar a ascensão que a queda (esta, aliás, é bem eufêmica). Nos anos 1970, um negro nascido na Carolina do Norte pode ser o número 1 de uma cidade como Nova Iorque por meio da venda de heroína trazida da Ásia dentro dos caixões que transportavam os soldados mortos na Guerra do Vietnã. Para firmar o negócio, ele busca a mãe e os irmãos e, por meio de comércios de fachada, vai distribuindo a droga e lavando dinheiro. Usa ainda sua influência para deslizar pela alta roda (é cumprimentado por Muhammad Ali e põe um sobrinho para defender os Yankees) . Lucas é maior que a cor da sua pele.

O traficante é inteligente, não resta dúvida, mas com uma lógica meio torta bota tudo a perder por meio de atitudes violentas. Ele luta contra a ostentação dos irmãos, mas a revolta pela redenção por ter crescido em meio a um sul extremamente racista é o ponto fraco do homem. É num ato impensado de exibicionismo, equipado com um indescritível casaco de chincila, que nosso vilão troca os pés pelas mãos e começa a inevitável trajetória ladeira abaixo.

No contraponto de Lucas, há o policial Richie Roberts vivido com competência por Russell Crowe. O cara estuda à noite, está se separando da mulher (mas pega muita gente por fora), foi criado em um local barra pesada e sua honestidade é vista como uma característica negativa pelos colegas de corporação. Assim, o personagem é construído na contramão dos clichês do gênero. O cara lidera uma equipe de investigação antidrogas e é quando seu caminho cruza o de Frank Lucas. O loser branco contra o winner negro, uma dicotomia interessante. Mas o desfecho torna-se desinteressante e até frustrante pela previsibilidade da situação.

Pois bem, o filme tem uma reconstituição de época beleza, músicas maravilhosas e uma produção caprichada, mas peca pela indefinição entre diversão e política. Alguns conseguem fazer isso com maestria, a exemplo Martin Scorcese no início de carreira. Não foi o caso de Scott, que, Deus sabe como, não conseguiu dar o tom necessário a esta epopéia urbana que já nasceu certa. Ainda espero o verdadeiro The Return of Superfy.

Ponto Alto: Josh Brolin como o policial ultracorrupto nos faz rememorar William Forsythe nos bons tempos.

Ponto Baixo: O filme é longo e merecia uma ediçao mais ágil.

3 de Janeiro de 2008

Contra Todos


Fascinante, instigante e altamente deprimente a exposição de uma periferia tão sórdida, mas tão verossímil neste bom filme, que foge de qualquer estereótipo cinematográfico. Dirigido por professor da USP, Contra Todos tem como maior mérito o excelente acabamento na construção de seus perturbados personagens. Filmado com câmara digital em som ambiente e interpretações improvisadas, o filme segue a idéia de um olhar documental sobre existências miseráveis. Impossível ficar indiferente à desesperança de gente sórdida lutando pela sobrevivência em um ambiente tão desagradável.

A opção dos realizadores – Fernando Meirelles entre os produtores – foi construir a trama em uma periferia sombria, sem qualquer resquício daquela pobreza colorida e cercada de trajetórias alegres tão explorada pela mídia nacional. A vida naquela área da zona leste de São Paulo é escura e triste, não há qualquer resquício de felicidade ou sinal de alívio. O filme gira em torno da família de Teodoro (Giulio Gomes). Ele é um matador profissional que, na companhia do amigo Waldomiro (Ailton Graça), executa marginais nas proximidades de onde vive. A família de Teodoro ainda é formada pela filha rebelde, Soninha (Silvia Lourenço), e pela esposa infeliz (Leona Cavalli). Estes quatro personagens se confundem em suas frustrações, anseios e desejos em uma ciranda urbana, sombria e miserável.

O filme tinha tudo para ser uma bomba. Pensa comigo: intelectual paulistano fazendo retrato cru (com câmara na mão) dos pobres da sua cidade, interpretações comandadas pelo improviso e gente graúda na produção. Com exceção de um detalhe ou outro, pensamos logo em Cama de Gato. Entretanto, Contra Todos se prestou a ser apenas um filme e como isso valeu mais que qualquer panfleto repleto de idéias políticas ou interpretações sociais. A crítica está lá, obviamente, mas o filme vale mais como uma tragédia intimista bem elaborada e extremamente bem executada. Cinema brasileiro de primeira.

Ponto Alto: O elenco está irretocável. Não há qualquer crítica que possa ser feita neste sentido.

Ponto Baixo: As reviravoltas do roteiro, apesar de chocantes nas apresentações, foram idealizadas de maneira muito simplista. Pensando com calma, pode-se dizer que essa simplicidade se encaixa no contexto do projeto. Como sou obrigado a falar mal de alguma coisa, fica o registro.

2 de Dezembro de 2007

O Dia Seguinte


Lembrava do filme da época áurea do Supercine, quando era bem garoto. Só me vinha à cabeça a imagem das pessoas correndo ao supermercado a fim de pegarem mantimentos e o efeito radioativo por meio de uma espécie de radiografia, na qual aparecia o esqueleto das pessoas atingidas pela explosão.Revi o filme agora e que surpresa ao constatar que é um típico exemplo, talvez o maior, daquele cinema catástrofe oitentista gerado pela disputa nuclear. Trata-se de um telefilme com cara de anos 80, até pelo jeitão de interior americano, e que se dá ao luxo de expor honestamente uma mensagem pacifista.

Realizado em 1983, o filme ganhou notoriedade por ter sido uma das maiores audiências da TV americana e apresentar de forma nada sutil os reais efeitos de uma guerra nuclear. Toda a turma do Kansas era adepta da calça jeans apertada e da boa e velha camisa xadrez – americanos típicos envoltos em seus problemas cotidianos. O problema é que a região, na divisa entre Kansas e Missouri, armazena as armas nucleares dos Estados Unidos. Alvo óbvio em uma possível terceira guerra. Quando as tais armas americanas são disparadas no auge de uma crise com a URSS gerada pela invasão da Alemanha, a destruição daquela inóspita região é questão de tempo. Chega o bombardeio e seu efeito devastador é retratado de maneira cruel – sem qualquer tentativa de maniqueísmo. Neste filme, a bandeira americana nas portas das casas traz um reflexo irônico da mesquinhez das relações patrióticas e pessoais.

Jason Robards (parece que já nasceu velho) comanda o elenco na pele do cirurgião boa-praça Russel Oakes, que lida com o excesso de trabalho, a maturidade da filha e o relacionamento duradouro com a esposa. Steve Guttenberg é um universitário que tenta voltar pra casa em meio ao caos de um iminente ataque nuclear. Temos ainda a família Dahlberg, envolvida com o casamento da primogênita, e o drama de Billy McCoy (William Allen Young) - militar perdido na própria desgraça. Além de uma boa turma de coadjuvantes, incluindo John Lithgow, como o inteligente professor Huxley. O charme do filme-catástrofe é que o espectador sabe o que vai acontecer, mas a tragédia é desconhecida aos personagens. Isso causa uma angústia tremenda. O roteirista Edward Hume e o diretor Nicholas Meyer trabalharam esse aspecto de forma magistral nos cinqüenta minutos que antecedem às explosões.

O fato que dá nome ao filme, o day after do ataque nuclear, é algo para corar o mais ferrenho milico republicano. Sem esperança, os protagonistas vão se desintegrando, junto com a Nação, vítimas dos devastadores efeitos radioativos naquele ambiente apocalíptico desolador. Apesar do tema nuclear estar démodé, a questão humanitária e a mensagem pacifista pregadas pela produção continuam em voga. A desesperança com que as vítimas recebem o discurso do presidente americano anunciando o cessar-fogo com a URSS e a pouca importância dada ao fato de saber quem disparou o míssil primeiro provam o caráter antibelicista de The Day After. As cicatrizes de uma guerra, qualquer que seja a forma de combate, vão muito além da história recontada pelos vencedores ou dos atos “heroícos”. Não sei é por que Spielberg, que sempre explorou da forma mais imbecil a guerra e outras fobias, se deu tão bem, enquanto Nicholas Meyer teve que se contentar em escrever roteiros para os outros. Como diria Vonnegut, outro antibelicista ferrenho, são “coisas da vida”.

Ponto Alto: a cena final quer sair piegas, mas, na verdade, causa comoção. Impossível não ficar emocionado.

Ponto Baixo: algumas cenas foram nitidamente enxertadas. Faltou um pouquinho mais de esmero na edição.

22 de Novembro de 2007

A Tale of Two Sisters


Sons e imagens primorosos em um terror oriental old school. Na verdade, A Tale of Two Sisters parece mais um drama intimista europeu sobre o delicado tema da relação familiar. Depois de uma temporada fora, duas irmãs voltam a viver com a madrasta e o pai em uma bela casa de campo. Situações mal resolvidas no passado vêm à tona. As meninas agridem a madrasta que parece ter uma culpinha mesmo no cartório. E naquela de ter algo no passado desconhecido e apenas sugerido ao espectador vamos sendo absorvidos por uma atmosfera onírica assustadora. A tensão vai crescendo aos poucos e aparições fantasmagóricas vão arrepiar a espinha. Segredos são construídos e descontruídos até a resolução da trama.

O legal neste tipo de terror oriental está em envolver o espectador com os personagens e seus dramas. Daí vem a comoção quando ocorrem as assombrações e as mortes. Desde a década de 1980, o horror americano não constrói esta estrutura narrativa da melhor forma possível. Olha que sou fã de slashers americanos, mas confesso que o envolvimento é mesmo muito superficial. Contraditoriamente, o exemplo maior deste “estilo” está em um clássico do terror setentista americano – O Exorcista. A angústia do padre interpretado por Jason Miller, o sofrimento de Ellen Burstyn ao ver a filha passar por um processo tão devastador importam mais que o terror. E é por isso que O Exorcista é tão assustador, ainda nos dias de hoje. E Kim Ji –Um (diretor de A Tale of Two Sisters) usou esta fórmula de maneira brilhante, sem falar que esteticamente seu filme é belíssimo. Vale a pena conferir. A propósito, lançaram o filme em DVD aqui no Brasil com o título de MEDO. Então tá fácil. Cuidado que já tem remake pronto.

Ponto Alto: o elenco está irretocável. A madrasta interpretada por Yeom Jung-a é bonita e interpreta sua personagem com ambigüidade na medida certa.

Ponto Baixo: o final traz uma resolução meio forçada e, de certa forma, convencional.

11 de Novembro de 2007

O Fim e o Princípio


Sou fã de Eduardo Coutinho. O cara tem uma técnica genuína e um acabamento estético ímpar em seus documentários. Merece sim toda a badalação em torno de seu nome. O Fim e o Princípio apenas corrobora seu talento. No entanto, a repetição do tema sertanejo forte, que não é novidade desde a época de Euclides da Cunha, e a falta de um direcionamento para a produção fazem deste uma obra menor – ao menos, na minha opinião - na trajetória de Coutinho.

Essa falta de direcionamento é explicitada no primeiro minuto do filme, quando o cineasta confirma que vai filmar sobre alguma coisa no sertão nordestino. E a intenção é que a coisa flua no decorrer das gravações. Uma câmara na mão e uma idéia na cabeça (olha que original?!) Ele pára, então, em uma cidade do interior da Paraíba a fim de descobrir algum agente da Pastoral da Criança que conheça a região para lhe dar um direcionamento. Encontra a desenrolada Rosa, mas no primeiro contato com pessoas de uma vila rural mais afastada percebe que o filme deve virar apenas um canal para o sertanejo apresentar queixas contra as condições insatisfatórias do lugar, do trabalho... Solução para fugir do panfletário – filmar as pessoas do vilarejo (Araçás) da simpática guia.

Aí é aquele exercício de estilo primoroso do cineasta no retrato dos anciãos sertanejos. Os rostos marcados por rugas e as mãos calejadas da lavoura não têm cultura, mas sabem muito da vida. E apesar de apontar um canhão para a pessoa e logicamente tirar um pouco da naturalidade do cotidiano, Coutinho sabe deixar o entrevistado o mais relaxado e natural possível. O cineasta se anula quando é possível e proporciona aqueles imensos e constrangedores silêncios nas explanações dos paraibanos. Na questão de se anular, destaque para a cena em que alguém pergunta se o cineasta acredita em Deus.

O respeito às pessoas é imenso e não há aquela forçada de tornar as cenas emocionantes ou de manter o distanciamento maravilhado e babaca no retrato de vidas tão diferentes. O filme é visceral, seco – sempre tive a impressão de que Coutinho nos deixa aquele amargo na boca que só se tem ao ler Guimarães Rosa. Agora, é fato que ao focar tão somente o rosto de uma pessoa a imagem causa estranhamento ao próprio retratado. E o filme brinca com isso, como na seqüência em que uma senhora vê uma foto dela com um cachimbo. O Fim e o Princípio seria a obra definitiva de muita gente, mas em relação a Coutinho vou buscar em Cabra Marcado para Morrer a essência da sua obra.

Ponto Alto: a fotografia é arrebatadora.

Ponto Fraco: pouco mais de uma hora já estava de bom tamanho, mas filmar todas as pessoas praticamente duas vezes deixa o filme arrastado demais. Fica chato!

26 de Outubro de 2007

Calafrios


Acabei de sair do cinema depois de ter visto aquela bomba chamada Os Invasores - . A bomba tem diretor alemão e a pior atriz de todos os tempos no elenco, além de jurar de pé junto que se trata de uma nova versão da estória de Jack Finney. Além de uma mensagem duvidosa do ponto de vista sociológico e ético, presenciei duas horas de uma ficção científica frouxa e que mais parecia teatro infantil. Sem falar daquela porra convencional de ter de ir atrás do filho mesmo que a existência humana tenha de ser sacrificada, do olho no olho no momento de desespero, das conclusões geniais feitas por pessoas comuns em questões de segundos, dentre outras merdas. Pois bem, ficção científica parte de premissas inverossímeis, daí o talento de seus realizadores em fazer algo que ao menos se torne crível ao primeiro olhar. Isso não acontece com a produção hollywoodiana, que se leva a sério demais. Entretanto no filme Calafrios, obra seminal de Cronenberg, temos um dos modelos mais fidedignos desta proposta de invasores de corpos – que serviu e ainda é usada para uma infinidade de alegorias.

Feito no início da carreira do nosso canadense preferido, o filme é repleto de erros, mas é muito autêntico em identificar o espectador com sua situação ilógica. Vejamos, a trama toda se passa em um condomínio de luxo em uma isolada ilha canadense e a epidemia é causada por um erro de cientistas que pretendiam criar uma bactéria que se adaptasse ao corpo humano e se transformasse em órgãos – dispensando a necessidade de transplante no caso de alguma debilidade fisiológica. Entretanto, uma garota do condomínio é usada na experiência, que obviamente dá errado. Como a epidemia se alastra principalmente por relações sexuais e a menina é promíscua...

O espectador acompanha o desenvolvimento dos sintomas - terríveis cólicas abdominais e monstrinhos em forma de larva – por meio de Nicholas Tudor (Allan Kolman). Os sintomas são aqueles tipo zumbi de praxe, acrescido do fato dos infectados terem uma maior compulsão sexual. Lógico que alguns são mais maliciosos e sedutores, e outros, digamos, mais compulsivos mesmo. Nossos heróis são o “galã” Paul Hampton, como o Doutor Roger St. Luc e sua namorada, a enfermeira Forsyth (Lynn Lowry). Ele faz o tipo McQueen dos pobres, enquanto ela é a ninfetinha esperta. O legal é que os personagens têm seus atos heróicos limitados a suas condições físicas e a própria situação a qual estão envolvidos.

O elenco em si não compromete o resultado final que, a despeito de uma série de imperfeições, são compensados por aquele delicioso climinha B dos anos 1970. Sem falar que o melhor do cinema de Cronenberg do início da carreira está aqui – teses científicas absurdas e assustadoras, aquele povo branquelo e feioso do Canadá e, é claro, a sexualidade. Enfim, cabe dizer que o clima onírico indispensável a uma idéia tão surreal e pretensiosa está em Calafrios, mas não no filmeco de Nicole Kidman. Mais uma vez o cinema parece andar para trás.

Ponto Alto: a cena final é um deslumbre.

Ponto Baixo: muitos erros de edição passam do limite do aceitável. Personagens mudam de posição de um enquadramento para outro, entre outros.

20 de Outubro de 2007

Island of Death


O filme é uma coleção de pequenas bizarrices com uma temática meio torta, que tenta fazer críticas ao puritanismo ou a instituições mais conservadoras como a igreja. Tudo bem! Mas o lance é que a pretensão, a falta de recursos e a maluquice dos realizadores (deveria ser distribuído ácido antes das gravações) deixam a coisa com um ar lisérgico e fake demais. A trama é a seguinte: casal inglês vai parar em uma ilha paradisíaca na Grécia e tentar limpar o lugar das influências ruins. Qualquer tipo de comportamento fora do convencional será punido com violência pelos justiceiros do bem. Mas o cara é atormentado e também tem de lidar com suas taras – faz uma zoofilia com uma cabra e depois a mata, pois a bichinha é a culpada de tudo. Lógica zero...

Pois bem Christopher (Bob Behling) e Celia (Jane Ryall) ainda matam um restaurador francês que queria fornicar com a moça, um policial (ou detetive) negro que sai de Londres no encalço da dupla e acaba morto ao estilo James Bond, um casal de gays que acabou se de casar, uma lésbica junkie, uma viúva rica e pervertida etc. Em meio a tanta justiça, a moça fica atormentada e pensa em desistir, mas Christopher insiste na idéia de deixar lugar limpo. Lá pelas tantas, Célia sofre um a tentativa de estupro por parte de dois hippies e Chris tem de resolver o problema da forma mais convencional possível. Depois da reviravolta final, os dois são acolhidos por um humilde pastor de ovelhas. E como o desfecho já tinha sido revelado no início do filme, ficamos por aí.

Realizado em 1975 por um grego doido chamado Nico Mastorakis, o filme é até fácil de ver, mas não diz nada e não leva a lugar nenhum. Não é plástico o suficiente como poderia se esperar de uma produção setentista pouco convencional; nem, tampouco, inteligente em sua ironia, como o diretor pretendia. Entretanto, se tivéssemos um protagonista no estilo maluco-carismático tudo será amenizado. Nada feito, pois o tal Bob Behling deveria estar mesmo muito doido e sua atuação é apenas caricata. Pois é, nem a beleza das paisagens gregas salva o filme. Tem gente que gosta – ganhou estrela de cult, mas na minha humilde opinião o lugar de Island of Death é mesmo no ostracismo.

Ponto Alto: a música folk dá um tom acertado ao clima lisérgico da produção.

Ponto Baixo: sabe qual a grande revelação final? Celia e Christopher são irmãos. Não, isso não. Nossa, relação incestuosa. Estou chocado até agora! Fala sério - esse detalhe não acrescentou nada. Dispensável.

4 de Outubro de 2007

Funny Games


Michael Haneke é mesmo um diretor acima da média. E só descobri o cara agora por meio da minha atenciosa e sempre antenada amiga, Jamile. Bem, vamos falar de Funny Games, esta pequena obra-prima recheada de sarcasmo e violência. A trama é absurdamente simples – Anna (Susanne Lothar), Georg (Ulrich Mühe) e o filho pequeno são torturados por dupla de malucos, em bela casa de veraneio. É só isso mesmo, mas além da tortura com aquela frieza européia- aquele desprezo blasé em seu exagero psicológico -, ainda há uma infinidade de alegorias propostas.

A tortura é extremamente cruel sem razão de ser – a interpretação mais teórica fala do exagero para ridicularizar as situações exploradas pela cultura de massa. Vários temas são abordados – religião (a oração forçada de Anna é de doer o coração), MTV, a bagaceira do punk se sobrepõe aos acordes de uma ópera ou de uma música clássica. Grosso modo, pode-se falar naquela tão combalida cultura popular engolindo e reconstruindo o processo cultural puro. Proposta ousada que aqui se sustenta sem maniqueísmos.

A despeito de todo o empirismo, como cinema também vale a satisfação. O diretor brinca com o espectador não apenas nas colocações de metalinguagem, mas a angústia toma proporções gigantescas quando os personagens têm a falsa impressão de uma escapatória. Nós também somos torturados com requintes de crueldade.

Enfim, o filme não é para todos os gostos, mas vai fazer diferença para quem aprecia aquele cineminha europeu aguçado. Ora, nem tanto assim, afinal o próprio Haneke entregou este ano a versão clean desta produção realizada em 1997 (não tem nem 10 anos). Agora com a ajuda de gente como Tim Roth, Naomi Watts e Michael Pitt. Dispenso a reeleitura e fico com a angústia macabra e inteligente do original.

Ponto Alto: o malucaço Paul (Arno Frisch) dá show.

Ponto Baixo: não gosto da ironia da metalinguagem. Entendo a proposta, mas a cena do rewind não entra de jeito nenhum.

26 de Agosto de 2007

Tarantino's Mind


Curta-metragem bem sacado realizado com talento brasileiro. Em um boteco paulistano Seton Mello destila seu estilo junkie-cool para conjeturar sobre a obra de Tarantino, enquanto Seu Jorge faz o papel do espectador incrédulo. Quinze minutos bem aproveitados. Exibido em festivais aqui no Brasil, foi fácil fazer fama no boca-a-boca.

Em tempo, entre as divertidas ilações sobre a obra do nosso nerd favorito, a do Top Gun como ícone do cinema gay tem destaque. Lembro do Some Kind of Wonderful (Alguém Muito Especial) em que Eric Stolz, Craig Sheffer, Lea Thompson e Mary Stuart Masterson fazem troca de casais em LA. O filme foi escrito pelo papa das comédias oitentistas, John Hughes, mas a cena em que Tarantino (em ponta não creditada) lança sua teoria sobre a ambigüidade sexual de Top Gun - durante uma festinha descolada - deve ter sido mesmo autoria do próprio.

30 de Julho de 2007

Seul Contre Tous

Gaspar Noé – este franco-argentino é um daqueles malucos que faz valer o termo extremo da expressão cinema extremo. O mais mainstream dos seus filmes, Irreversível, ganhou fama de maldito e doentio e jogou o cineasta novamente no limbo underground. A galera do lado de cá da indústria agradece. A saga maldita começou com o curta Carne (nunca vi, mas já ouvi comentários positivos) e se concretizou com o longa Seul Contre Tous.

O filme é cinza, escuro, claustrofóbico, angustiante, desajustado, enfim ou o espectador vê que tem gente que é pior que ele e agüenta o tranco ou entra numa depressão profunda que nem tarja preta dá jeito. A trajetória do açougueiro francês - interpretado pelo ator predileto do cineasta, Philippe Nahon - refugiado na periferia imunda de Paris é uma afronta a qualquer traço de civilidade ou bondade. O personagem é uma ode ao ódio - detesta gays, alemães, mulheres, negros, árabes... Xenofobia e preconceito, em doses nada homeopáticas, retratados por um Tim Burton quase pornográfico.

A única redenção, ou melhor, o único traço de humanidade está na pureza da filha autista. Mas Noé é tão escroto que este alívio explode em tons avermelhados no final. O final é forte; muito forte mesmo. Provoca ânsia nos organismos mais resistentes. Muito mais que o viés socialista da justificativa da violência pela pobreza econômica e a miséria social o filme nos mostra a sordidez humana, a gratuidade do desespero e da desesperança. Angústia ilimitada do mal que nós nos causamos. A desilusão em um país rico repleto de cidadãos e estrangeiros sem identidade. Nessa odisséia cosmopolita e violenta, ninguém é poupado. Todos são culpados e a fúria se torna justificável. Desilusão a tudo, todos e em todo lugar. Assim como seu cineasta, Seul Contre Tous é grande demais para o cinemão; é leão para o seu quintal.

Ponto Alto: os textos pontuando a narrativa.

Ponto Baixo: o filme sofre do efeito Apocalypse Now – agüente até o fim e entenda a grandiosidade da obra.

18 de Julho de 2007

Corrente Literária


Indicação da minha nova amiga Jamile e seu blog tudo vintage, ou não. Vou indicar cinco livros que realmente mexeram comigo. Obras que me fizeram mudar um pouco a percepção de mundo. Tem outros livros estupendos que tive de deixar de fora. Mas sem essa marra, pois lembro que fui fã do estilo escrotão de Harold Robbins (esse era guru, o que é aquele O Contador de Histórias?), da cafonice de Mario Puzo da prosa simples de Marcos Rey etc. Vão aí meus livros definitivos:

- Vidas Secas – Graciliano Ramos: retrato maravilhosamente belo, mas profundamente triste da realidade brasileira. Despertou em mim uma consciência social que, mal ou bem, carrego até hoje. Sem falar na morte da Baleia. O que é isso?

- O País do Carnaval - Jorge Amado: li quando tinha uns 16 anos e estava na fase da Bossa Nova... Descobri o porquê do brasileiro sorri apesar de tanta miséria e sofrimento. A euforia efêmera do carnaval vale sim.

- Amor nos Tempos do Cólera – Gabriel García Márquez: uma estória de amor linda, realista e tremendamente irônica. O autor acabou vítima do próprio talento, mas aqui entrega sua obra mais bem acabada. Não tenho dúvida disso.

- O Som e a Fúria – William Faulkner: isso é um assombro de talento. Difícil e perturbador, o livro de uma vida. Entender a mente maquiavélica de Jason Compson é algo que ajudou a moldar meu caráter. Final arrebatador, vale a pena resistir até o fim e entender o fascínio em torno desse Guimarães Rosa redneck.

- Lolita – Vladimir Nabokov: não há como ficar com raiva de Humbert Humbert. Ele é pedófilo (vamos assim dizer), mas na verdade é a vítima de tudo. Vítima de seus próprios desejos. Ela é a vilã – vale ler Triângulo Sensual pra entender bem essa ambigüidade da beleza, da inocência. Só os gênios conseguem e o nosso russo que escrevia em inglês sabia bem disso.

Só vou ficar devendo as outras cinco indicações de blogs. Desculpe amiga.

13 de Julho de 2007

Donnie Brasco

Esse filme é bem pessoal. Vi no cinema e fiquei maravilhado. Já era fã de Al Pacino e principalmente de Johnny Depp. Lembro que, terminado o filme, queria andar como os personagens e ficava repetindo “forget about it”. Tudo bem, admito que esse tipo de atitude não é lá uma prova de maturidade, entretanto me justifico pela ansiedade espinhenta em encontrar parâmetros de comportamento. Cinema e música eram e são as opções mais acessíveis. Mas não estou sozinho e fico tranqüilo quando vejo Woody Allen conversando com um conselheiro Humprey Bogart em Sonhos de um Sedutor. Com Johnny Depp lembro até de um filme chamado L.A Without a Map em que Johnny é o oráculo de um escocês que vai tentar a sorte na California.

Acabada a sessão divã, vamos falar dos diferenciais de Donnie Brasco. O mais bacana em acompanhar a aventura “baseado em fatos” do agente do FBI Joseph Pistone estabelecendo contato com a máfia italiana pela porta dos fundos é a sensibilidade em retratar o aspecto humano da história. A pirotecnia dos tiroteios e fugas espetaculares fica em segundo plano. Mike Newell é um bom diretor inglês e tenho respeito por ele mesmo depois de Monalisa Smile.

Aqui acompanhamos a angústia do agente infiltrado ao trair os amigos-bandidos e a relação delicada que enfrenta em casa com a esposa e as filhas. O cara cria uma amizade verdadeira com o personagem mais ingrato da carreira de Al Pacino (mais perdedor que o cozinheiro Frank e Johnny e o assaltante meia-tigela de Um Dia de Cão). Estamos falando do figuraça Lefty Ruggiero, um daqueles ítalo-americanos de meia-idade crescidos em Nova Iorque a sombra da máfia. Superestima sua importância para os outros, pois sabe da sua insignificância naquela faixa de mundo em que vive. E chega um cara mais novo que tem a chance de refazer seu próprio caminho, a segunda chance pela qual todos clamam. Sem puxar no clichê, mas esse é irresistível – o duelo de interpretações é de sair faísca.

Na verdade, sentimos pena de Lefty Ruggiero. Três cenas em particular chamam a atenção – o encontro no hospital na overdose do filho de Lefty, o convite que Depp recebe em um barco devido a incompetência do parceiro e o confronto mais intenso entre os protagonistas - Donnie pede a Lefty para dizer o nome de um “amigo” morto por eles sob suspeita de traição. Ah ia esquecendo do momento em que Pacino lamenta que tem tanto azar que deve ter câncer no pau.

Donnie Brasco vale também pelo elenco de apoio que conta com gente como Michael Madsen e Anne Heche, pelo clima setentista sempre bem-vindo, sutilezas como a piada com os Sonny (Sonny Red e Sonny Black) e cenas memoráveis como a briga do casal no porão. Neste último, Depp mostra por que é indiscutivelmente o melhor ator de sua geração. Enfim, confesso que até hoje me emociono quando tenho a oportunidade de rever este clássico particular. Filme repleto de sensibilidade, mas pra macho.

Ponto Alto: Pistone é homenageado - ganha um cheque mixuruca das autoridades e fotos posadas. Ele olha para o nada e resume bem a importância pífia do sacrifício humano perto do intricado jogo dos poderosos. Putz, essa foi uma homenagem a minha adolescência esquerdista!

Ponto Baixo: o ritmo do filme é muito particular. Em alguns momentos, fica muito carregado, o que dificulta sobremaneira o acompanhamento. Eu nem liguei, mas tem gente que detesta o filme por causa disso.

27 de Junho de 2007

Lady Vingança


Chan-Wook Park encerra com maestria sua trilogia sobre a vingança. Vingança que traz todas aquelas indagações filosóficas (salvo engano, o cinesta é filósofo de formação) sobre a relação “promíscua” entre a vítima e o algoz, sobre a questão de quão longe se pode ir, sobre a própria maldade humana. Falo de maldade em letras garrafais, pois em Lady Vingança temos um dos personagens mais filhos-da-puta imaginados pela mente humana. Baek (Min-Sik Choi) é praticamente o mal encarnado, capaz de atrocidades de fazer corar o mais escroto dos oficiais nazistas. E esse cara tem um fim digno de sua persona. Pois bem, o filme que trata da vingança de uma bela garota que, depois de treze anos presa acusada de matar um garoto de seis anos, vai atrás de seu companheiro, o verdadeiro culpado pelo crime e que também raptou sua filha. E em um exercício de estilo muito genuíno com enquadramentos e construções estéticas estupendas vamos tomando par do engenhoso plano da bela Geum-ja (Yeong-Ae Lee).

Delicada e aparentemente submissa durante a prisão, a garota cria uma teia de relações na cadeia que será usada em seu ardor maquiavélico. Todos os envolvidos têm importância na intricada trama de vingança. Aqui vale uma ressalva - há personagens demais e alguns têm a importância diluída ou são valorizados de uma hora para outra. Mas isso é coisa menor perto da magnitude do filme. Pois bem, na trama, Geum-ja ainda arruma tempo para buscar a filhota, adotada por um casal australiano, e para se envolver com um garoto bem mais novo como forma de expiação.

Geum-ja então põe em prática o plano depois de uma estranha reviravolta em que o vilão quase toma o controle da situação. Por fim, revelações que escancaram toda a maldade do Sr. Baek. Cenas de pavor costuradas com a precisão de um artesão angustiado e provocativo. Esses momentos despertam reações conflituosas nos espectadores – vi gente saindo da sala de projeção. O lance é punk mesmo, a aguardada vingança então é concluída com requintes de uma crueldade primitiva. O final branco e plástico propõe uma redenção aos moldes coreanos. Difícil dizer qual o melhor da série, mas é fácil afirmar que estamos diante uma complexa reflexão filosófica oriental em forma de cinema. São obras assim que nos fazem manter a fé na sétima arte.

Ponto Alto: a interpretação deliciosamente ambígua de Yeong-Ae Lee.

Ponto Baixo: O epílogo se arrasta por tempo demais.

22 de Junho de 2007

Machete


They call him Machete. Caramba - o trailer que aparece em Grindhouse é a melhor coisa que vi do cinema nos últimos tempos.

Trejo retomando o personagem de Pequenos Espiões e o padre que fazia parte do emblemático Cheech & Chong. Vou parar por aqui e destacar meu agradecimento a parceria bagaceira entre Dany Trejo e Robert Rodriguez. Aí está a salvação para o cinema comercial!

11 de Junho de 2007

Zodíaco


São Francisco. Ao meu ver, a cidade que melhor exterioriza essa grande contradição chamada Estados Unidos. Mezzo californiana, mezzo sulista. Libertária e conservadora. Republicana, mas cheia de gays e berço do movimento hippie. E neste Zodíaco - em que acompanhamos a luta em desvendar o homem por trás das mensagens enigmáticas e dos assassinatos que chocaram São Francisco e regiões adjacentes durante o final de 1960 e toda a década seguinte - esta contradição toma cores viscerais. E esta é apenas uma das características que fazem o último trabalho do sempre superestimado David Fincher pairar acima da mediocridade do cinema americano feito hoje em dia.

Tendo como base os assassinatos de um vaidoso serial killer, o roteirista James Vanderbilt constrói uma atmosfera perfeita para externar as frustrações de uma sociedade sem identidade. Cenas de violência (mais sugeridas que propriamente explícitas) em uma reconstituição de época muito charmosa. O desconforto da redação do San Francisco Chronicle, aonde os telefones tocam sem parar. Deliciosas referências da época – anúncio do show dos Stones em Altamont, movimento hippie e exploração dos assasinatos do Zodíaco pela mídia. Além destas excelentes escolhas, a delicada construção dos personagens é outro mérito da produção. A insegurança de um jovem cartunista obcecado por uma descoberta. O policial casca grossa que luta contra as limitações estruturais e burocráticas da própria corporação policial. O talentoso jornalista que se perde no meio da avalanche da vida pessoal. E o contraditório assassino - um cara conservador, mas com uma vaidade que se satisfaz por meio da publicidade dos seus feitos. Zodíaco reúne com propriedade esses elementos e os joga na cara do espectador, amargurado por saber de antemão o final inconclusivo reservado ao esforço dos personagens.

O filme é bom, mas, na minha pobre opinião, tem um defeito que credito ao seu realizador maior – David Fincher. Zodíaco se leva a sério demais mesmo se valendo de uma estrutura cinematográfica sem grandes inovações. O filme é pesado para sessões regadas a pipoca, mas definitivamente está longe de ser um cult movie como alardeia a crítica impressionável. Mesmo diante de tanta pretensão, o diretor não cria um novo conceito de fazer cinema. A badalação apenas corrobora as palavras de Tony Bennet em “I left my heart in San Francisco”. Mais apropriado impossível.

Ponto Alto: O personagem Allen foi brindado com a interpretação bacanérrima de John Carroll Lynch.

Ponto Baixo: como o roteiro se baseou nos escritos de Robert Graysmith, tenho dúvidas sobre a fidelidade no retrato deste personagem.

3 de Junho de 2007

Turistas


Iria passar despercebido por aqui e pelo mundo. A mediocridade da própria obra já a deixaria no ostracismo. Mas bastou uma notinha no Fantástico pra neguim ficar doido com o preconceito dos estrangeiros diante do Brasil, fato apresentado em tons caricaturais neste Turistas. Comunidade no orkut, debates em fóruns de discussão e milhares de e-mail detonando a produção. Mal perceberam que foi justamente a publicidade da polêmica que tirou esta bomba do escuro. O filme apresenta um Brasil primitivo? Certo. Os mocinhos lançam pérolas preconceituosas? Exato. Mas agora, diga a verdade, pra que se importa com tanta besteira? Não é novidade pra ninguém, como diz um mané lá no filme, que os estrangeiros ricos só buscam “mulher, praia e diversão” por aqui. O cinema hollywoodiano é uma máquina de fazer estereótipos, exemplo disso é o próprio interior americano, retratado muitas vezes como um lugar perigoso e de gente pouco amistosa. Exigir respeito com o Brasil seria demais. Mas se importe não, pois os algozes de Turistas são seus próprios realizadores.

Voltamos ao filme. No início é engraçado ver como os estrangeiros lidam com as limitações estruturais do nosso país. Pois bem, depois de um acidente de ônibus, um grupo de seis estrangeiros (três americanos, dois ingleses e uma australiana) vão parar em uma praia isolada, numa região, ao que deu pra perceber, entre a Bahia e Pernambuco. Mesmo assim todos os habitantes do lugar têm sotaque carioca. Para causar confusão ainda maior - as filmagens foram realizadas em Ubatuba. Pois bem, a turma encontra dois outros civilizados (um casal de suecos). Muita música – trilha sonora é do Marcelo D2 - e diversão. A galera ainda conhece o boa-praça Kiko (Agles Steib), que arranha o inglês e vai ter um papel de destaque ao longo da trama.

No início, Turistas se carrega como um trash divertido de tão ridículo, mas depois que a turma é drogada e roubada – isso lá pela meia hora de filme - aí a graça acaba. O terror não acontece apenas do lado de lá da tela, aqui o espectador também passa por momentos de pura angústia. Não pela aflição das cenas, mas pela ruindade da fita em si. Sabemos a posterior que o vilão que seqüestra turistas para retirar seus órgãos, o temido Zamorra (Miguel Lunardi), é o cara mais sóbrio da produção. Excetuando-se os excessos de maldade, o cara é um tremendo humanitário. Hahahaha. Enfim, uma cena forte de dissecação e muitas imagens escuras pra esconder as limitações deste filmeco de quinta categoria. A incoerência do roteiro é algo de assustar o telespectador mais easy go. Todos comparam com O Albergue, mas o filme de Eli Roth, apesar de bem irregular, perto desse é uma obra-prima. Turistas é mesmo horripilante.

Ponto Alto: peguei o filme em DVD e dei uma passada nas cenas deletadas. Quem editou esta bomba deve ter, no mínimo, bom senso. E cada merda que ficou de fora - não vale o comentário.

Ponto baixo: não contive a gargalhada ao ouvir Fico Assim Sem Você (música de Claudinho e Buchecha) na voz de Adriana Calcanhoto no encerramento deste clássico.

19 de Maio de 2007

A Hora da Zona Morta

Um dos poucos filmes baseados em obra de Stephen King que conseguem superar a mediocridade literária do escritor e fazer cinema de qualidade. Neste caso, o mérito recai sobre os ombros do nosso bizarro canadense David Cronenberg, que faz um filme acertado em quase todos os aspectos. O cineasta segue a cartilha de coisas estranhas acontecendo com gente comum em um ambiente frio e desconfortável. O lugar, acho que é Colorado, funciona como um personagem soturno e branco, mas jamais aconchegante. As pessoas são aquelas branquelas do início dos anos 1980 com óculos grandes e roupas de inverno sem cor. Enfim, Cronenber na veia.

Todos esses fatores constroem o clima ideal para a estória do professor de literatura Johnny Smith (Christopher Walken). Ele é um cidadão super do bem e após um acidente, que o deixa cinco anos em coma, volta ao convívio social com fortes poderes premonitórios. Ainda atormentado pelo novo dom, que não sabe se é uma bênção ou uma maldição, Johnny ajuda a salvar a filha de uma enfermeira, desenterra fantasmas do passado de seu médico e tira um sarro com um jornalista folgado. Chega então o momento de fazer algo maior e, após certa relutância, ajuda o delegado da cidade vizinha, interpretado por Tom Skerritt, a capturar um perigoso serial killer. O desfecho desta seqüência é um dos pontos altos do filme. No meio de tanta novidade, Johnny perde a mãe e volta a se relacionar com a namorada de antes do acidente, Sarah (Brooke Adams); o detalhe é que a garota está casada e tem um filho. Parece impossível, mas o relacionamento entre o casal não é canalhice.

As visões são um processo desgastante para Johnny. O cara já é branco, e, devido a exaustão por conta dos novos poderes, fica praticamente transparente, até o cabelo parece sem cor. Assim, ele busca se isolar e passa a tentar a ganhar a vida dando aulas em seu novo refúgio. Engraçado, as pessoas mandam cartas para o cara e parece não ser muito difícil localizá-lo, mas mesmo assim ele jura que está isolado. Por fim, o sacrifício depois do contato com um inescrupuloso candidato ao senado, Greg Stillson (Martin Sheen, destilando canastrice). Aliás, o exagero no retrato de um político tão pilantra pode parecer inverossímil em princípio, mas faz sentido pelo caráter fantasioso da obra. Aliás, retrato de homem público safado é caso de documentário quando falamos de Brasil.

A Hora da Zona Morta é um filme forte, bonito e que, a despeito de várias inconsistências, soube envelhecer como uma das melhores obras derivadas desta agência de literatura barata chamada Stephen King. Na verdade, King tem uma criatividade realmente impressionante para bolar personagens e situações estranhas, entretanto suas obras dariam, no máximo, uma crônica e nunca um romance. Mesmo assim, ele as estende com uma técnica literária ruim por centenas de página. Aí fica difícil! Mesmo assim, as idéias são mesmo, na maioria das vezes, intrigantes... daí o sem número de adaptações para a TV e o cinema. Neste A Hora da Zona Morte, temos uma produção adulta e amarga em que o processo de amadurecimento de um cineasta hermético como Cronenberg fica evidente. Nostalgia pura para quem está arranhando os 30 anos.!

Ponto Alto: A violência raras vezes é explícita, mas aquele incômodo psicológico que perpassa toda a projeção deixa o espectador inseguro e assustado.

Ponto Baixo: Deu a impressão que trechos do livro foram picotados no roteiro de Jeffrey Boam. São vários momentos perdidos ou que pouco acrescentam, como a relação de Johnny com o garoto Chris (Simon Craig). Várias pontas e situações ficaram soltas. Talvez seja problema de edição, um dos pontos fracos de Cronenberg.

12 de Maio de 2007

Calígula

Malcom Mcdowell capitaneando o elenco, produção a cargo do genérico de Hugh Hefner e dono da Penthouse, Bob Guccione, roteiro do aclamado Gore Vidal e direção nas mãos do maluco tarado italiano Tinto Brass. Produção rodada na Europa com gastos estratosféricos. O resultado tinha tudo pra ser um sucesso arrebatador, mas aconteceu justamente o contrário. O filme foi um fiasco comercial. Às favas com esse detalhe; o que importa é que estamos diante de um clássico explotation, recheado de artistas consagrados em situações constrangedoras. O que é aquela cena com Peter O’Toole? Sem comentários. O caso é que a despeito das frustrações de uma produção que não deu o retorno esperado, estamos diante de um filme ousado, divertido e interessante. Sinceramente, merecia melhor sorte.

Como todos sabemos, Calígula conta a estória de um dos mais ensandecidos imperadores romanos. Ele armou para chegar ao poder e fez de tudo para se manter lá, abafando com veemência qualquer tentativa de golpe. Até aí, tudo normal. O lance é que o cara era um hedonista egocêntrico capaz das mais bizarras excentricidades. Algumas mostradas no filme: apaixonado pela própria irmã, dormiu ao lado de um cavalo, tirou a virgindade de uma noiva e sodomizou o noivo na noite de núpcias do casal, ridicularizava constantemente os soldados do seu exército, promoveu uma orgia com as mulheres dos senadores e ao se fazer passar por um plebeu acabou preso e currado, e por aí vai. Um cardápio realmente sugestivo.

Malcom Mcdowell dá um show ao retratar com escárnio a loucura de uma figura tão poderosa. Discuto com um amigo que este é o melhor papel da carreira do ator inglês, inclusive melhor que o badalado Alex de Laranja Mecânica. A interpretação definitiva de Mcdowell. Ele é (ou era) maior que o próprio filme. O que não acontece sob a batuta de Kubrick. A despeito do talento do elenco, a maior polêmica de Calígula gira em torno das intervenções de Guccione. Disseram que ele usou a produção para mostrar as generosas curvas das modelos de sua revista e que inseriu cenas de sexo na hora da edição. Muito barulho por pouca coisa.

Outros fatos pitorescos contribuíram para a fama de maldita da produção. Gore Vidal, por exemplo, escreveu o roteiro, mas hoje renega o filme. Ele afirma que destruíram o que havia escrito e toda aquela conversa mole. Tô nem aí para Vidal, mas me incomoda o fato de Tinto Brass não ter ficado à vontade para comandar a produção. O filme teve custos muito altos e queriam apenas alguém que não complicasse. Vale lembrar que Wolfgang Petersen não era famoso na época! Desperdiçaram a chance de ver nosso querido italiano destilar seu talento fetichista. Sacanearam com Brass, e por isso confesso que é impossível não rir da pretensão canhestra da reconstituição de época. Lembra aqueles filmes sobre a vida de Jesus Cristo que passam na TV aberta durante a semana santa? Mesma coisa. Apesar de tantos erros, Calígula tem fortes momentos de violência (a máquina de arrancar cabeças é um delírio interessante) e várias cenas de nudez e sexo. Não deu certo, mas os fãs do explotation agradecem.

Ponto Alto: A interpretação irretocável de Helen Mirren como Caesonia. Pois é, a rainha Elisabeth, com toda a sua carga shakespeariana de teatro inglês, emprestou seu irrefutável talento dramático à Calígula.

Ponto Baixo: Tudo bem Guccione dirigir cenas de sexo, mas uma cena lésbica é tão gratuita e fora do contexto que chega a ser patético. Ridículo, para dizer o mínimo.

3 de Maio de 2007

Inverno de Sangue em Veneza


Quando falamos de cinema e nos referimos a palavra cult, deveria haver uma foto de Donald Sutherland e Julie Christie em Don’t Look Now. Filmaço obscuro dirigido por Nicolas Roeg em 1973. Por que o filme é tão cult? Simples – trata-se de uma produção tão acertada que simplesmente criou um conceito quando falamos do cinema de suspense. Vários elementos viraram referências e é uma obra tão complexa em sua simplicidade (essa foi forte) que não podemos enquadrá-lo em um gênero cinematográfico simplesmente. Seria o mesmo que limitar o potencial de O Poderoso Chefão dizendo que a saga Corleone é um filme policial.

Em Don’t Look Now acompanhamos a luta do casal John e Laura Baxter em superar a morte da filha. Eles são ingleses, mas estão em Veneza, onde ele está trabalhando como restaurador de uma igreja. O primeiro contato estranho ocorre com uma dupla de irmãs interioranas em um restaurante. Uma das irmãs é cega e diz ter poderes mediúnicos e que teria visto a filha do casal sorridente ao lado deles. Laura fica deslumbrada e vai querer saber mais sobre o assunto. A trama vai evoluindo como um suspense sobrenatural sob a batuta de um cético. Coisa de profissional. Surgem outros personagens, e a perturbadora visão de uma garota de capa vermelha (a filha morreu afogada em um lago com um impermeável vermelho) perpassa toda a trama e intriga não só os personagens. O espectador é absorvido e acaba por compartilhar com o casal a angústia por uma perda tão significativa.

A trama é envolvente, mas os aspectos técnicos são primorosos. A música se encaixa perfeitamente ao roteiro, isso sem dizer que são composições belíssimas. E uma Veneza cinza e compacta, cheia de vielas e pequenos labirintos, serve para encher a tela em uma fotografia de tirar o fôlego. O final é instigante, entretanto confesso que fiquei um pouco decepcionado neste momento. Isso é detalhe em um filme feito muito mais de acertos, escolhas perfeitas como a empatia de Sutherland e Christie que fazem de Inverno de Sangue em Veneza um item obrigatório na coleção de quem aprecia cinema de verdade. Não por acaso, objeto de tantas referências.

Ponto Alto: a cena de sexo entre o casal principal, no melhor estilo fusão dos corpos, é de arrepiar.

Ponto Baixo: o início do filme quando vemos a angústia do pai em tentar salvar a vida da filha dá nó na garganta mesmo no mais bruto dos cafajestes. A cena é estupenda, mas a transição com o grito agudo da mãe ao ver a filha morta é um pecado. Seria bom ver Christie destilar talento neste momento tão intenso.

21 de Abril de 2007

Mondo Cane


Confesso que esperava mais cenas sangrentas e aterradoras. Mondo Cane é uma obra mais bem elabora e não apela para a gratuidade como Faces of Death, Traces of Death e cia. Este documentário, que trata de hábitos bizarros ao redor do mundo, é uma obra extremamente bem realizada, apesar de envelhecida quando vista no século XXI. Mesmo assim, o acabamento estético europeu está lá. Música irretocável, fotografia primorosa, além de um senso de humor inconfundível. Realmente um documentário forte e germinal e não uma filmagem barata do Notícias Populares (com todo o respeito, ao saudoso jornal paulistano).

Realizado em 1962, este documentário, dirigido por Gualtiero Jacopetti, Paolo Cavara e Franco Prosperi, deu início a onda dos documentários de exploração. Um gênero que foi chamado de Cane, tal o sucesso de Mondo Cane - obrigatório nos drive-ins da década de 1960. Narrado em italiano com uma ironia que muitas vezes resvala no grosseiro, o filme tem início no funeral do galã Rodolfo Valentino em sua cidade natal na Itália. Os conterrâneos dele querendo tirar uma casquinha da fama do ator... Depois passamos para um outro galã qualquer sendo atacado por um grupo de fãs em Nova Iorque e, logo depois, as nativas da Nova Guiné mostrando que não são muito diferentes das amigas norte-americanas. E o joguinho antropológico em que os ocidentais têm seus hábitos comparados aos de habitantes de lugares mais inóspitos pode soar meio sem vergonha hoje em dia, mas na época era novidade e funcionava.

No decorrer da trama ainda acompanhamos diversas situações inusitadas, como os pescadores mutilados da costa Oeste da Malásia que fornecem barbatanas de tubarão (afrodisíaco) a chineses ricos, os costumes de indígenas como o fértil chefe de uma tribo e suas mulheres gordas, a brincadeira com os touros em Portugal etc. Momentos bacanas como o trato dispensado aos animais ao redor do mundo com outros bem ridículos a exemplo das salva-vidas australianas. Para ser sincero, uma condução irregular e que chega a irritar em alguns momentos.

E as cenas chocantes? Na verdade, as únicas seqüências realmente chocantes são de uma execução de touros por uma tribo de mercenários do Nepal realizada em homenagem a oficiais do exército inglês e a matança de porcos em uma festa da “fartura” na Nova Guiné. Nessa linha de festividades, somos agraciados ainda com alguns tipos gastronômicos bem peculiares, como um restaurante sofisticado de Nova Iorque que serve insetos a seus clientes. A comparação entre rituais religiosos também é interessante. Há ainda uma bacana mensagem politicamente correta sobre os efeitos do testes nucleares no atol de Bikini. Enfim, uma aula de antropologia cheia de estilo e ironia. Irregular como cinema, mas ainda um clássico.

Ponto Alto: A música de Nino Oliveiro e da lenda Riz Ortolani. Concorreu a Oscar e tudo. Coisa esplendorosa.

Ponto Baixo: A ironia fazia parte do espetáculo, mas, por mais contraditório que possa parecer, o preconceito em alguns momentos é latente. Um costume em que uma nativa da Nova Guiné amamenta um porquinho em lugar do filho é ridicularizado pelo narrador, entre outros.

10 de Abril de 2007

A Paixão de Cristo


Sou católico praticante e tenho orgulho disso. Respeito todas as crenças desde que preguem o bem ao próximo e a paz de espírito. Sei que minha Igreja já foi usada e também apoiou ou inventou situações não muitos cristãs, digamos assim. Mas como respeito a todos, apenas espero que respeitem minha religião. Feitas essas considerações situacionais, vamos ao filme de hoje – o forte A Paixão de Cristo dirigido por Mel Gibson em 2004. Usaram o filme pra lançar a velha dicotomia – igreja repressora e intolerante versus o mundo que não pára de evoluir. Você realmente acredita nisso? Esse velho maniqueísmo não encontra lugar nos dias de hoje, justamente porque o mundo mudou e qualquer intolerância é vista com olhos ruins. O que acusam os cristãos de fazer é a principal defesa contra o preconceito que sofrem.

Muito da polêmica envolvendo o filme se deve ao fato do retrato pouco amigável dos judeus. Realmente a participação deste povo nos últimos momentos de Cristo foi usada como desculpa para muita monstruosidade feita a posteriori, mas no caso deste filme não soa assim tão ofensivo. Quem tem o mínimo de senso sabe que neste episódio da crucificação de Jesus Cristo os judeus fazem a alegoria da própria humanidade. É claro que de um povo que sofreu tanto, qualquer reminiscência do episódio é algo temeroso. Mesmo assim, houve uma certa má vontade por parte de todos ao insistir tanto neste aspecto.

A Paixão de Cristo trata das horas derradeiras de Jesus. Por mais que a pessoa não seja cristã, aqui no Ocidente todos sabem da importância do personagem. O diferencial está na composição de imagens bem editadas; nos diálogos em aramaico e na fotografia com variações acentuadas em cada momento da trama. Mas esta foi apenas a minha interpretação, pois além do suposto anti-semitismo o foco se voltou para o fato de que Gibson optou por mostrar um Cristo realmente combalido a fim de chocar o espectador incauto. Eu disse incauto, pois a turma que está acostumada a filmes italianos e outras pérolas do cinema explotation realmente não se chocou com as cenas de tortura. Pode se emocionar pelo personagem e tudo, mas não pela agressão das imagens. Uma evangelização até certo ponto grosseira, mas que inegavelmente funciona. Como a intenção era essa, ponto para o diretor.

Enfim, tiveram má vontade com Gibson, pois A Paixão de Cristo está acima da média e conta com um Jesus muito bem caracterizado por Jim Caviezel. Um filme bonito que precisa ser visto com mais tranqüilidade; o momento é agora, depois de passada a tempestade de seu lançamento. Prefiro o Cristo (caucasiano, como disseram alguns) de Gibson, ao Jesus arrogante e antipático de O Evangelho Segundo São Mateus de Pasolini. Não me entendam mal, aquele filme é belíssimo e mais bem intencionado que simplesmente irônico. Entretanto, o italiano entregou um Cristo furioso e não um manso e humilde de coração. Mesmo assim, o Vaticano adora a versão pasoliniana. Pois é isso, apesar de Gibson ter se mostrado depois um cara meio maluco mesmo, em A Paixão de Cristo ele foi praticamente irrepreensível. Tenho minhas dúvidas sobre o talento do cineasta, mas não duvido da força de Deus. Pense bem, o astro cafona de Máquina Mortífera dirigindo com talento ímpar uma estilosa e reflexiva reconstituição dos últimos momentos de Cristo na Terra. E tem gente que ainda não acredita em milagres.

Ponto Alto: a interpretação magistralmente carregada de Maria feita por Maia Morgenstern. Irretocável.

Ponto Baixo: o diálogo em aramaico é beleza, mas, como ninguém sabe direito o que está dizendo, em algumas cenas (protagonizadas por atores ruins) ficou parecendo via sacra de criança. Vide o caso dos sumo-sacerdotes.

31 de Março de 2007

Zombie


Esqueça o Rosebud em Cidadão Kane. Esqueça Marlon Brandon recebendo os convidados na festa do casamento da filha em O Poderoso Chefão. Esqueça Anita Ekberg na Fontana de Trevi em A Doce Vida. Esqueça a imitada seqüência da escadaria em Encouraçado Potemkin. Esqueça o corte no olho em Cão Andaluzia. A GRANDE cena da história do cinema é a briga entre um tubarão e um zumbi em Zombie, dirigido pelo nosso querido Lucio Fulci em 1979. Uma criatividade inigualável, nem tão imitada e acusada de pouco original, mas de uma plástica e de uma satisfação ímpar para o espectador. Coisa de gênio!

Brincadeiras à parte, essa obra-prima dos pobres (eu entro aqui) é um dos momentos altos do cinema de baixo orçamento italiano. Essa história de copiar os famosos filmes americanos em baratas produções italianos foi mesmo a menina dos olhos da turma durante o final dos anos 1970 e toda a década seguinte. As estórias eram chupadas de produções famosas americanas, mas misturadas e produzidas com um oportunismo tão carinhoso que era impossível não se deixar levar pelas belas imagens e músicas caprichadas, afinal italianos sempre dão um toque especial quando falamos de estética.

Aqui, acompanhamos as peripécias de um casal em busca de uma boa história. Ele, Peter (Ian McCulloch), é jornalista e depois da bronca do chefe é capaz de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, por uma boa reportagem. A motivação de Ann (Tisa Farrow), para se aventurar por uma ilha no meio do nada é mais “nobre” – quer saber o paradeiro do pai que era dono do barco que atracou misteriosamente em Nova Iorque. Zumbis na cidade, uma correria aqui, uma carta encontrada ali, os dois vão parar em um paraíso tropical e encontram um casal que topa ser guia dos aventureiros atrás da ilha Matoul. Lugar paradisíaco onde um estranho médico, interpretado por Richard Johnson, realiza experiências a fim de descobrir por que os mortos voltam à vida naquele lugar.

Pausa para a famosa cena do tubarão supramencionada na qual também somos brindados com o topless maravilhoso da bela desconhecida Auretta Gay. Eles então chegam à ilha, justamente no momento em que a coisa degringola com os experimentos saindo do controle e a zumbizada a solta por aí. No meio da correria, a mulher do tal médico é atacada ao sair do banho e se tranca no armário. Pausa para a famosa cena da imensa flerpa no olho. Fulci sabia mesmo usar o “olho” como poucos. O final é meio triste e não oferece muita alternativa para a humanidade, ou, ao menos, para Nova Iorque. Uma série de clichês bem construídos, com uma música maravilhosa e um clima sufocante. Um dos grandes do NOSSO tipo de cinema!

Ponto Alto: a ponta hithcockiana do diretor como o editor do jornal.

Ponto Baixo: o roteiro é simples demais e funciona como uma desculpa para destilar talento. Realmente não se é um ponto negativo; afinal, quem precisa de traminhas cheias de idas e vindas?

18 de Março de 2007

A Lei do Desejo


O melhor filme de Almodóvar, por acaso também é sua obra mais gay. Caramba, isso é mesmo uma proeza, levando-se em conta a genialidade do cineasta e sua insistência em retratar o tema. Aqui, temos a estória do inteligente diretor de cinema e teatro Pablo Quintero (Eusebio Poncela) e de sua irmã transexual Tina (Carmen Maura). Com a partida do jovem amante para o litoral, o cara acaba cedendo aos encantos do prestativo Antonio Benitez (Antonio Banderas). A relação entre o cineasta e seu admirador vai se tornando doentia. Pronto, as cartas estão na mesa e com o assassinato de um personagem o filme evolui, com muito bom humor, para um clímax grandioso.

O fator que mais se destaca na produção é a bem sucedida e peculiar mania de dar problemas comuns, trazer sentimentos comuns para personagens, digamos, diferentes. Neste caso, a hilária travesti Tina interpretada com maestria por Carmen Maura. Almodóvar adora abordar a questão da sexualidade e da figuração do gênero, por isso trata com tanto respeito e carinho estes personagens. Ela é muito mais que um travesti com uma história triste no passado, é uma pessoa frustrada que busca um futuro melhor ao lado da filha Ada (Manuela Velasco). Ainda sobra tempo para ser uma religiosa devota, com constantes pedidos às santas. Uma contradição marcada, mas deliciosamente verossímil. Na verdade, estranhas são a pessoas comuns (medíocres), que se fecham em seus mundinhos egoístas, caso da ausente mãe de Ada (vivida por Bibi Andersen).

Outro detalhe - o cineasta é muito bem resolvido quando o assunto é sexualidade, mas sua relação com o catolicismo é conturbada. Apesar de, a seu modo, fazer um afago na fé católica aqui e ali, ele insiste em culpar a igreja pelas escolhas sexuais alheias. De cada cinco gays almodovorianos, quatro tiveram o primeiro contato sexual com padres. Aqui, a coisa fica bem explícita com Tina, que apesar de ter traumas da infância, mantém uma fé inabalável. E com o respeito que tem por seus personagens, principalmente os travestis, essa religiosidade passou longe da zombaria.

Apesar de o homossexualismo ter uma importância primordial na trama, A Lei do Desejo vai muito além dessa ilustração. O melhor do universo almodovoriano está lá - o humor rasgado e sofisticado (contraposição que virou uma marca do cineasta), as roupas coloridas, os diálogos vibrantes, a metalinguagem bem encaixada e o clima noir que perpassa toda a obra. Em suma, Almodóvar prova mais uma vez que é muito maior que sua sexualidade e suas frustrações.

Ponto Alto: muito engraçada a relação dos dois policiais. Um veterano doidão e sensível e o outro, jovem e arrogante.

Ponto Baixo: o tal de Juan, que é o personagem central da trama, não é bem explorado. Sem falar que Miguel Molina não está no nível do filme.

5 de Março de 2007

Marcas do Terror


A participação de Takashi Miike na série Masters of Horror foi um assombro. Quem mandou dá sinal verde para o cara? Definitivamente, um dos filmes mais exageradamente perturbadores dos últimos tempos. Dou a mão à palmatória para quem não viu a escandalosa cena de tortura mordendo as mãos. Agonia pura! Bem, trata-se de um média-metragem que logicamente teve a exibição proibida nas Tvs americanas e é mais uma prova da genialidade demente deste cineasta oriental.

Imprint conta a estória do jornalista americano Cristhopher (Billy Drago) que, no século XIX, em busca de reencontrar um amor do passado acaba parando em uma ilha cheia de prostitutas. Ele pergunta pela amada, mas sem chances. Como o barco em que vai seguir viagem só sairá no dia seguinte, nosso aventureiro acaba aceitando uma gueixa para passar a noite. A escolhida é uma retraída prostituta com uma deformação no rosto (Youki Kudoh, que fez Neve sobre os Cedros e Memórias de uma Gueixa). Ela revela que a mulher que ele procura, Komomo (Michie Itô), se enforcou por não agüentar mais a espera do grande amor, neste caso, o próprio Cristhopher.

Por fim, a estranha mulher conta sua trajetória de vida e o violentíssimo fim da bondosa amada do nosso jornalista. O final logicamente revela surpresas que ninguém em sã consciência poderia supor. O filme é curto, mas a estória faz um vai-e-vem divertido no tempo que parece estender a duração da produção. Uma infinidade de temas desagradáveis (aborto, incesto, tortura...) são abordados e as imagens são tão apavorantes e repugnantes - cortesia do maquiador Yuchi Matsui, parceiro habitual do diretor - que parece que há alguma coisa por trás de tanto horror. Impressão confirmada a posteriori .

Marcas do Terror é adaptação de um famoso romance japonês, Booke Kyoutee, escrito por Shimako Iwai, uma feminista japonesa que neste livro entregou sua obra definitiva sobre a submissão da condição feminina na sociedade nipônica. Miike parece que entendeu a proposta das alegorias feminina. Ele disse que este filme trata de sentimentos humanos ruins como rancor e amargura, e não necessariamente sobre monstros e fantasmas. A própria autora do livro prefere o filme. Sem dúvida, uma maneira autêntica de mandar uma mensagem. Ao público, cabe apenas a sensação de angústia na subida dos letreiros.

Ponto Alto: a canastrice sem precedentes do nosso amigo Billy Drago. Coisa de profissional!

Ponto Baixo: o filme deveria ter sido feito em japonês, não em inglês. A liberdade de Miike foi além da conta na hora de contar a estória, mas esbarrou neste detalhe crucial.

28 de Fevereiro de 2007

Cocksucker Blues


The Rolling Stones. O nome causa comoção em todos os amantes do bom Rock n’ Roll e não por acaso está na ativa há mais de quarenta anos. Sempre rivalizando com a genialidade dos The Beatles em descobrir quem é a MAIOR de todos os tempos. Pela extravagante e escancarada vida extra-palco e por ter uma musicalidade mais negra e swingada que a turma de Lennon, fecho com os Stones. E é sobre uma turnê da banda realizada nos EUA em 1972, regada a muito, mas muito sexo e drogas, que trata este Cocksucker Blues, dirigido pelo fotógrafo Robert Frank.

Os Stones já eram monstros sagrados (o Exile on Main Streeet tinha acabado de sair do forno, sem falar que o inigualável Sticky Fingers já estava consolidado) e a badalação em cima da rapaziada era de assustar. Legal ver como as drogas deixaram Keith Richards praticamente banguela, algumas excentricidades de Jagger e a discrição de Watts. E Bill Wyman? Bem, ele tava no bolinho. O documentário retrata momentos antológicos: a orgia no avião com o saxofonista Bobby Keys fazendo horrores, a sinuca com Muddy Waters, as bagunças nos hotéis, o romance ao som de Love Me Tender, a participação de várias personalidades americanas, as cenas de drogas... Enfim, a intimidade deste super-humanos que praticamente personificaram no mundo da música o star system idealizado pelo intelectual francês Edgar Morin para os astros hollywoodianos.

Entretanto, o resultado é bem ruim. O filme é chato demais, mesmo para um fã da banda. Não há um narrador, apenas passagens narrativas (geralmente, feitas por um radialista) tentando pontuar o espectador; muitos personagens – o staff de bajuladores era imenso. Em suma, poucos números musicais e tantos defeitos que verdadeiramente não há como ficar satisfeito. Vale como registro histórico (que os garotos usavam drogas e faziam farra todo mundo sabia, mas VER isso é assustador/deslumbrante), mas está muito aquém dos Rolling Stones.

Ponto Alto: os idealizadores realmente mostraram a fundo a intimidade da banda. O cinegrafista era íntimo da turma.

Ponto Baixo: a edição deixa o filme morrento demais. Difícil agüentar até o fim.

20 de Fevereiro de 2007

Coffy


Em Jackie Brown, meu favorito do Tarantino, homenagem aos anos 1970. A referência passa pelas músicas, figurino e, claro, pelo elenco - destaque para Pam Grier. Em Jackie Brown, nos auges dos seus 48 anos, Grier foi um assombro; imagine a garota nos anos 1970 em um daqueles filmes baratos e deliciosos sobre vingança, cheios de sexo e violência. A parceria com o bacana Jack Hill rendeu clássicos explotations como Coffy e Foxy Brown. Vamos falar de Coffy, realizado em 1973, no qual ela destila sensualidade no papel da enfermeira que faz justiça pelas próprias mãos aos traficantes que deixaram sua jovem irmã em estado vegetativo.

O filme começa com a protagonista se fazendo passar por uma garota de vida fácil para estourar um PIMP com um tiro de espingarda na cabeça. A coisa é braba e sobra pra um vigarista que faz às vezes de motorista do cafetão. Depois conhecemos a rotina da doce enfermeira no hospital; nem de longe lembra a destemida justiceira. Há o envolvimento de Coffy com o congressista Howard (Booker Bradshawn) - ativista negro que depois descobrimos ser um canalha - e o quase-affair com o bondoso policial Carter (William Elliott).

Em busca do sucesso em seu mirabolante plano de vingança, ela vai fazer às vezes de uma das garotas do impagável e espalhafatoso cafetão George (Robert Doqui, o sargento de Robocop, lembra?!). George tem uma morte cruel, mas não sem antes estabelecer a relação da justiceira com o mafioso racista Arturo Vitroni (Allan Arbus) e seu inseparável capanga Omar (ninguém mais ninguém menos que Sid Haig). Apesar do virtuosismo, nossa heroína é humana e, em um raro momento de fraqueza, quase põe tudo a perder, mas rapidamente volta a si e encerra o filme de maneira honrosa andando de cabeça erguida pela praia.

Coffy está repleto de defeitos, mas tem uma edição ágil e personagens carismáticos. Isso sem dizer que aquele estilo setentista que tanto cultuamos está ali em todos os detalhes. Enfim, o filme não é um primor, mas, levando-se em conta apenas o fator entretenimento, estamos diante de uma obra-prima. Quanto a Grier no auge, só nos resta dizer que é extraordinariamente linda: alta, corpão deslumbrante, pele de chocolate, cabelão black – a diva definitiva do blaxplotation. Tarantino sabe mesmo das coisas.

Ponto Alto: trilha sonora de blaxplotation é sempre um show à parte. Neste caso, não foi diferente.

Ponto Baixo: a cena das garotas brigando na festa de George. Elas ficam seminuas durante a luta. Tragicômico! Jack Hill adora essas coisas, mas eu, particularmente, não compartilho deste fetiche.

13 de Fevereiro de 2007

O Pagamento Final


Martin Scorsese disse que, no cinema, os bandidos são mais interessantes que os mocinhos. Sua filmografia apenas corrobora essa teoria. Brian de Palma deve concordar com Scorsese, pois depois de um violentíssimo, radical, cafona e maravilhoso Scarface, enveredou novamente pelo universo da marginalidade. Estamos falando de O Pagamento Final, um dos filmes mais mal compreendidos do diretor. Recebi uma bronca por ter economizado nos elogios quando escrevi a crítica da horrenda continuação do original, mas aqui vem a minha redenção. O roteiro de David Koepp, baseado em personagem criado pelo magistrado Edwin Torres, realmente não traz grandes reviravoltas e o diferencial é mesmo o estilo inspirado. E quem não gosta de cinema pipoca com cara de produção de baixo orçamento? Não sei vocês, mas eu adoro!

Anos 70, o porto-riquenho Carlitos Brigante (Al Pacino) está saindo da prisão e vai tentar reconstruir sua vida longe do crime e negar seu passado como o traficante de heroína mais barra-pesada e respeitado de Nova York. Assim, Carlitos resolve pegar um “financiamento” e investir em um clube (o maravilhoso El Paraiso) a fim de juntar grana e depois fazer as malas para o Bahamas. Ele ainda contrata o fiel Pachanga (Luiz Guzman) para garantir proteção. Mas, toda cautela não é suficiente e logo ele arruma atrito com um novo traficante, Benny Blanco (John Leguizamo).

Carlitos ainda vai tentar reconquistar Gail (Penelope Ann Miller) - a mulher que namorava antes de ser preso - e ajudar o amigo David Kleinfeld (Sean Penn) a resolver um negócio com mafiosos italianos. Tudo isso regado a muita luz, disco, roupas extravagantes, mulheres lindas, caras estilosos, cenas externas verticalizadas e longas tomadas sem interrupções. Muito estilo, muito estilo. “Aqui estou eu imitando Humprey Bougart”, diz Carlito na primeira cena em que aparece como dono do bar. Outra cena antológica é a perseguição no Grand Central Station (lembra de Pacino abaixado em uma escada rolante mandando bala para todos os lados?). Mais uma vez a estória do bandido em busca de expiação e o resultado, novamente, é excelente. Ainda mais sob o comando caprichado de Brian de Palma e a ajuda de um inspirado Al Pacino.

Ponto Alto: O protagonista entra na boate em que a namorada faz strip-tease – longa tomada sem cortes.

Ponto Baixo: O desfecho da trama é revelado logo no início. Mas, neste caso, isso não passou de detalhe.

31 de Janeiro de 2007

Babel

Não tenho certeza se o filme é realmente bom, mas, um fato é certo, é de uma autenticidade genuína. A autenticidade não chega a ser um traço de originalidade, mas um exercício cinematográfico tão precioso e de escolhas tão fortes, que é impossível passar despercebido e não se envolver nos meandros e peculiaridades da trama. Babel é tão denso que pode ser cortado com uma faca. Sei de uma coisa – saí do cinema exausto depois das quase duas horas e meias de projeção, a cabeça estourando. Entretanto extasiado e novamente encantado com as possibilidades abertas por Iñárritu e seu roteirista de carteirinha Guillermo Arriaga. Vou ser sincero, sensação parecida apenas quando vi Apocalipse Now.

Pois bem, no novo filme de Alejandro Iñárritu acompanhamos o desdobramento de um fato na vida de várias pessoas comuns em diversas regiões do planeta. A mesma idéia de Amores Brutos e 21 Gramas. A americana Suzan (Cate Blanchett) em passeio ao Marrocos com o marido Richard (Brad Pitt), leva um tiro enquanto cochila no ônibus de passeio. O tiro foi disparado pelos garotos marroquinos Ahmed (Said Tarchani) e Youssef (Boubker At El Caid) enquanto testavam a arma comprada pelo pai para afugentar os chacais do deserto. Enquanto isso nos Estados Unidos, a aventura da mexicana Amelia (Adriana Barraza) para cuidar dos filhos do casal em viagem, e não se ausentar de um casamento no México. Solução: levar os garotos ao evento. No outro lado do mundo, as aflições da personagem mais hermética do filme – a japonesa surda-muda Cheiko (Rinku Kikushi) e sua insegurança constrangedora.

Babel – o título diz respeito aos contrastes do mundo vislumbrada nos detalhes de cada idioma. Um mundo bem diferente, feito por pessoas diferentes, mas com sentimentos comuns. Angústias, dores e paixões não distinguem traço étnico, cultural ou geográfico. A inseguranças, a inveja, o medo e principalmente o amor pelos entes queridos. Uma proposta pretensiosa, difícil, complexa, mas de fácil identificação. Ousadia que acertadamente massacra o telespectador. Sem falar na coqueluche de cores, imagens, sons e odores que o diretor nos satura. Uma experiência exaustiva. O filme é mesmo palpável e, apesar de alguns deslizes (exemplo maior disso é a forçada participação dos personagens japoneses no evento central), passa muito longe da obviedade plástica e fácil do cinema moderno. No resumo da obra, um pouco mais que simplesmente cinema. Vida pulsando

Ponto Alto: A seqüência de Cheiko na boate.

Ponto fraco: a pieguice surge sim em alguns momentos. Infelizmente.

21 de Janeiro de 2007

A Morte Pede Carona



Revi este clássico oitentista há pouco tempo. Tinha uma vaga lembrança... Na verdade, duas cenas ficaram na minha cabeça – o garoto comendo batatas e de repente surge um dedo no meio da gordurada, o outro momento era de uma garota presa a um tronco e prestes a ser partida ao meio. Nessa revisitada, pude conferir que as duas cenas estão lá mesmo – com diferenças sutis (o que o nosso herói come não é bem batata frita, talvez uma polenta ou algo do tipo e a menina está presa não a um tronco, mas entre dois caminhões, pelo que me pareceu). Mas pode acreditar, o filme é muito mais que isso. Diversão demais. Tem um roteiro ágil, meio absurdo, entretanto preserva uma generosa autenticidade, coisa rara nos dias de hoje. O elenco está afiadinho e o ritmo do filme está no tom correto, alternando acertadamente momentos de suspense, tensão, violência, ação e humor.

Dirigido por Robert Harmon (fez filme de Van Damme e hoje dirige vídeos musicais) em 1986, neste The Hitcher acompanhamos a saga do jovem Jim Halsey (C. Thomas Howell) na tentativa de se livrar das violentas armações feitas por John Ryder (Rugter Hauer, dando show), um psicopata a quem ele deu carona. Na verdade, Jim é um cara de Chicago e está levando o carro para a Califórnia, mas no meio do deserto texano oferece carona a um desconhecido, na tentativa de espantar o sono. Erro fatal, apesar de escapar do malucão na primeira vez, uma série de fatores e armadilhas levam sempre o garoto ao encontro do caroneiro.

O roteiro de Eric Red (também escreveu Near Dark), apesar de alguns deslizes, deixa a tensão lá em cima. E este filme que tem cara de filme de televisão nos deixa pasmados diante do suspense arrebatador (olha que adjetivo forte!). O simpático Howell (com aquela cara de galã desnutrido dos anos 1980) tem sérios problemas com a polícia do Texas, que o acusa dos crimes. Envolve-se com uma bela garçonete (Jennifer Jason Leight) e por aí vai. As risadas nervosas e as expressões de pânico protagonizadas por Howell são até bacanas, mas algumas pecam pelo excesso – tudo perdoável, afinal, estamos nos anos 1980. O legal da produção é que chega a um ponto em que parece não haver mais saída para o jovem. Porém, estamos falando do bom e velho cinema americano, no qual sempre há uma luz no fim do túnel. Apesar de algumas forçadas, escolhas fortes e o final arrebatador coroam todo o espetáculo. Diversão garantida ou seu dinheiro de volta.

Ponto Forte: a fotografia sempre retratando a imensidão e a aridez do deserto. Um posto de gasolina aqui, uma delegacia ali, mas a paisagem é só o deserto, sempre deserto.

Ponto Fraco: mais uma vez a forçada de barra em arrumar uma garota para o herói. Nash (Jason Leight) é uma gracinha, mas rapidamente simpatiza com o rapaz e está disposta a tudo para ajudá-lo. Verossimilhança passou longe.

13 de Janeiro de 2007

Quando Éramos Reis


Zaire, 1974. Depois de perder o título dos pesos pesados por se negar a participar da Guerra do Vietnã e ficar sem três anos sem lutar (e da derrota para Joe Frazier), Muhammad Ali tinha a chance de redenção diante do fenômeno George Foreman. No comando deste embate histórico, Don King – um ex-presidiário e malandro que citava Shakespeare. Muhammad estava com mais de 30 anos e ia enfrentar um monstro na concepção da palavra. Foreman, no auge da forma física, massacrava seus adversários no início das lutas. Tanto que Ali comentou que o adversário só deveria saber contar até dois e fez uso dessa brincadeira para derrotá-lo. Pois bem, toda a história desta saga está resumida no excelente documentário Quando éramos Reis, direção de Leon Gast. Ganhou vários prêmios, salvo engano papou até o Oscar em 1997.

Sou meio suspeito pra falar, pois, na minha opinião, Ali é o maior esportista que já pisou nesta terra. Não só por ter sido um assombro no ringue, mas principalmente pelo ativismo político. Fanfarrão, arrogante, dava entrevistas com rimas que o exaltavam (alguém aí atrás disse rap?) e um dos primeiros negros a ter representação e agir orgulhosamente como negro, praticamente personificou o black is beautiful.

Nascido pobre na segregada cidade sulista de Louisville em Kentucky sentiu o racismo desde cedo e é emblemática a história em que jogou fora a medalha de ouro conquistada nas olimpíadas de Roma, em 1960. Campeão mundial aos 22 anos ao derrotar Sonny Liston. No dia seguinte ao feito, abandonou o nome de Cassius Clay e exigiu ser chamado por Muhammad (merecedor de todos os elogios) Ali (o melhor). Na verdade, foi influenciado por Elijah Muhammad. Segundo o radical segmento do Islã representado por Elijah, os homens brancos foram criados pelo cientista maluco Yacub, na ilha de Patmos (é sério isso!). Mesmo com tanta extravagância, Ali tornou-se um símbolo na luta contra o racismo nos EUA do porte de Martin Luther King e Malcom X.

Entretanto, é melhor voltar ao documentário. Além de toda a agitação com a chegada de Ali e Foreman- este chegou com um cachorro e representou, digamos, o homem branco, apesar de também ser negro. As pessoas gritando Ali Bumaye, a euforia nas ruas da pobre cidade africana. Vemos um pouco dos preparativos, Foreman era realmente um colosso. Descobrimos a estratégia usada por Ali, como um golpe desestabilizador no início da luta que irritou Foreman e o fez usar muita força. A queda do monstro no oitavo assalto mostrada em vários (para a época) ângulos. Os comentários de negros famosos como James Brown e BB King. Um filme a altura de Muhammad Ali. Um marco do nosso tempo!

Ponto Alto: Nos treinamentos, Foreman testando sua direita assombrosa.

Ponto Baixo: Por que o filme era apenas sobre uma luta? Imagine um documentário sobre a luta de Ali com Frazier em Manila.

6 de Janeiro de 2007

9 Canções


A idéia de misturar uma estória de amor moderno com a energia do novo rock inglês parecia genial. Junte ao pacote, cenas de sexo explícito e reflexões filosóficas contemporâneas sobre as inquietudes da nossa geração. No comando da jornada, um diretor despojado e talentoso. Não poderia dar errado, mas deu. Os problemas estão na edição, digamos, inconveniente e, principalmente, na falta de magnetismo do casal principal. O espectador fica esperando passar as ceninhas de amor e angústia em um apartamento londrino para ir ao que realmente interessa: as apresentações ao vivo das revelações inglesas. Eu, particularmente, queria ver só as bandas tocando, ficaria bem melhor.

Na estória, enquanto Black Rebel Motorcicle Club se esgoela no palco, eis que um novo casal se forma. A americana mais ou menos Lisa (Margot Stilley), 21 aninhos descolada e chata, e o inglês Matt (Kieran O’Brien), que parece meio cansado das agitações e acha que encontrou a menina certa para envelhecer. Matt conta a estória em flashback durante uma expedição na Antártida, há ainda trechos de Michel Houllebecq meio perdidos no contexto. A evolução do relacionamento é até bacaninha, mas, quando começa a crise, não há Michael Winterbottom que dê jeito. A menina tem todas as paranóias dos moderninhos e faz beicinho a todo momento. Imaturidade que chega ao ápice quando o namorado a leva para um clube adulto. Não, faça-me o favor – clichê indie é de enojar.

O sexo é explícito sim, mas nem é de mexer com a libido; pode acreditar. Sexo relax feito entre um casal na intimidade do seu apartamento. Uma brincadeira erótica com os olhos vendados e não muito mais que isso; um pouco de sexo oral e apenas uma cena de penetração propriamente dita. E quanto às inquietações de um casal jovem e “inteligente”? Saudades da infinidade de citações nos filmes de Woody Allen. O que vale neste 9 Canções são as apresentações musicais. Muito pouco para algo que prometia tanto.

Ponto Alto: as apresentações do Von Bondies (C'mon, C'mon) e Elbow (Fallen Angels).

Ponto Baixo: O tal de Kieran O’Brien. Cara feio pra caramba, sem carisma e ainda por cima chato e arrogante.

27 de Dezembro de 2006

Madame Satã


Filme brasileiro de verdade não tem de ter uma constelação global no elenco. Filme brasileiro de verdade não precisa ser baseado em peça de teatro famosa ou em variações das crônicas de Luís Fernando Veríssimo. Filme brasileiro de verdade tem de retratar com seriedade e amor a vida dos excluídos da nossa terra. Filme brasileiro de verdade não deve ter vergonha de mostrar cenas de sexo e violência. Filme brasileiro de verdade deve causar reflexão e te deixar meia hora na cadeira depois que os créditos subiram. E por esses e outros motivos que Madame Satã é uma das melhores surpresas dos últimos tempos.

Dirigido e escrito com competência e muito bom gosto pelo novato e talentoso Karim Aïnouz e fotografado pelo sempre irretocável Walter Carvalho, o filme se crava como um clássico moderno da nossa filmografia. Difícil achar algo fora do lugar na história que conta o início da trajetória do mítico João Francisco dos Santos na boêmia carioca. Direção de arte e figurino perfeitos. Elenco talentoso e dedicado. Em suma, o filme é de emocionar; simplesmente imperdível. Que bom ver novamente o verdadeiro cinema brasileiro nas telas.

Ponto Alto: bom demais ver a nossa eterna Macabéa na tela. Marcélia Cartaxo dá um show como a meiga Laurita.

Ponto Baixo: fica o gostinho de quero mais. Queria um pouco da vida de madame satã depois do “sucesso”. Sei que a intenção era mesmo mostrar a história pré-mito, mas fica o registro.

17 de Dezembro de 2006

Barbarella



Lembra do clássico Cavalgada de Roberto Carlos? Pois reza a lenda que a música representa um ato sexual. Na hora do orgasmo, o rei toma fôlego e manda: “...as estrelas mudam de lugar... chegam mais perto só pra ver...”. Pois a erótica ficção-científica Barbarella também segue, em linhas gerais, a cadência de uma transa. Filmado em 1968 pelo excêntrico francês Roger Vadim, o filme baseado em uma HQ de Jean Claude Forest conta a aventura de uma heroína intergaláctica em busca de manter o status quo de paz e amor que impera no universo, isso lá pelos idos de um futuro muito distante.

Na verdade, o filme funciona como um libelo futurista da geração hippie, mas não deixa de lado um certo viés político. Mostra com preciosismo toda a pregação do amor livre e do pacifismo sem deixar de retratar a inquietação da época. Barbarella virou cult e criou uma série de referências pop com seu futurismo retrô. Verdade que o futuro idealizado por Vadim e cia é mesmo retrô demais, mesmo assim Barbarella continua um clássico.

A abertura com a moça se despindo das roupas espaciais ao som de Barbarella é um prazer visual. Feitas as apresentações, a agente espacial recebe a missão de ir atrás do cientista terráqueo Duran Duran que desapareceu na região de Tau Ceti. O jovem cientista é o criador do polêmico raio positrônico, que pode por fim ao tempo de paz que reina no universo. Pois bem, a espaçonave da garota cai no 16° planeta do sistema Tau Ceti e, a partir daí, ela se mete em várias aventuras com os tipos mais exóticos. Há as feiosas crianças gêmeas e suas perigosas bonecas, o estranho trenó movido a uma espécie de arraia com chifres e o caçador glacial Mark Hent vivido por Ugo Tognazzi (que propõe uma forma de amor mais física a heroína). Ela ainda encontra o anjo cego Pygar (John Phillip Law) e o Professor Ping (Marcel Marceau) no lugar dos excluídos, o labirinto da cidade da noite.
Barbarella chega, então, a Sogo - Cidade da Noite -, governada pelo grande tirano. Lá, acaba encontrando as forças revolucionárias comandadas por Dildano (David Heminngs), uma alusão ao movimento comunista. O orgasmo da trama fica para a Câmara dos Sonhos, com o Mathmos (energia viva em forma líquida) fazendo a alegoria mais óbvia possível.

Produzido por Dino de Laurentis, Barbarella é mesmo um filme folclórico que absorveu perfeitamente o espírito de inquietação do final dos anos 1960. Legal observar que a hippie intergaláctica passa por tudo sem nunca ter a real noção da situação. Ela tem uma missão, mas no trajeto vai colecionando e descartando amantes com a mesma cara de boba de sempre. Ao espectador cabe ter reverência, pois é de emocionar perceber um elenco de peso envolvido em uma brincadeira tão deliciosa.

Ponto Alto: Jane Fonda é mesmo linda. Faz jus a toda a badalação em torno de seu nome. Equilibra perfeitamente malícia e ingenuidade. Um assombro!

Ponto Baixo: Os efeitos especiais, em tom de brincadeira, faziam representações ousadas para a época. Hoje, a coisa fica mais para o lado do constrangimento, principalmente nas “tomadas” espaciais.

11 de Dezembro de 2006

Fome de Viver


Imagine uma lúdica cena de amor entre uma jovem Susan Sarandon e uma madura e charmosérrima Catherine Deneuve em um apartamento de Nova York com direito a cortinas esvoaçando. Agora, pense em David Bowie como um velho decrépito em um filme de vampiro com direito a musiquinha gótica tipo Bauhaus rolando a todo o momento. Tudo isso embalado pelo clima brega dos anos 1980 e dirigido com veia pop-chique por um novato Tony Scott. Pois é, estamos falando do estonteante Fome de Viver, realizando em 1983 e que contou com essa turma de peso.

O filme conta a trajetória de Miriam Blaylock (Deneuve), uma vampira que coleciona amantes ao longo do tempo. Por uma razão que não é pormenorizada (parece que é quando ela quer trocar de companhia) seus amantes-vampiros envelhecem rapidamente. Neste caso, estamos com John (David Bowie) que entrou em um processo irreversível e, por conta disso, acaba procurando a geriatra-cientista Sarah Roberts (Susan Saradon). O problema é que o processo é furioso e John praticamente fica sem escapatória. Resultado, impressionada com a vivacidade da médica, Miriam “isola” o parceiro, pois acaba de encontrar uma nova vítima.

Fome de Viver propõe uma indagação interessante ao retratar com respeito a questão do envelhecimento. As limitações mentais e, sobretudo, físicas da velhice são expostas e analisadas com seriedade. Impossível o espectador não fazer uma reflexão sobre as conseqüências deste processo irreversível. Indagações feitas com respeito e coerência.

Apesar de datado com toda aquela pompa brega oitentista que impregna cada frame, a produção tem um bom nível de sofisticação. Culpa dos vampiros charmosos e refinados, que tocam música clássica, têm figurino impecável e matam com muito estilo. Toda imagem tem estilo (até demais), como pombos voando pelo apartamento na contraluz. Legal ver um clichê ainda em fase de formação – que o digam Adrian Lyne e John Woo.

O ritmo da narrativa também tem uma cadência diferenciada, pois é mais lento e contemplativo que os filmes que Scott fez a posteriori. Na minha opinião, esse é um dos pontos fortes da produção. Em suma, é para ser visto e revisto com todo o carinho que se pede a uma produção que apesar do climão oitentista resistiu ao tempo. Isso que é envelhecer com dignidade.

Ponto Alto: a maquiagem é um show. Isso fica claro no envelhecimento acelerado do personagem de Bowie.

Ponto Baixo: a edição modernosa de algumas seqüências. Uma sério de cortes frenéticos e forçados.

18 de Novembro de 2006

Garganta Profunda


Engraçado, inovador, divertido e sensual... Para este divisor de águas da história do cinema todos esses adjetivos são poucos. Gerard Damiano dirigiu o clássico absoluto do pornô em 1972 com dinheiro da máfia e o filme se tornou tão famoso que chegou a passar em cinemas convencionais. Feito no verão de Miami em apenas seis dias, o filme lançou Linda Lovelace para o estrelato e foi precursor de todo um conceito de comportamento, além de ter gerado uma verdadeira fortuna. Segundo o documentário Inside Deep Throat, lançado recentemente, Garganta Profunda é o filme mais rentável da história do cinema (custou 25 mil dólares e rendeu cerca de 600 milhões). Dinheiro que pelo jeito só foi para a família mafiosa Peraino, pois, segundo o documentário, a galera do filme não anda muito bem de grana.

É pra tudo isso? É sim, pode acreditar. Claro que a garotada de hoje vai achar a proposta da produção ingênua, pois não mostra nada que já não se tenha visto em qualquer filme adulto por aí. Alguns momentos, como beber coca-cola de maneira pouco convencional, continuam ousados, sem falar que tem fetiche pra todos os gostos, desde sexo com enfermeira até depilação. Mesmo assim é inegável que o filme de Damiano envelheceu com dignidade. Apesar da nova geração fazer cara feia, é fato que nenhuma menina do leste europeu de hoje em dia alia charme ao conhecimento do ofício como a rainha Lovelace. Alguns diziam que ela era engolidora de espadas em circo e que fez uma famosa cena com um cachorro pastor alemão antes da fama – boatos nunca comprovados. Agora os fatos, Linda (na época com 23 anos) recebeu apenas 1.250 dólares para participar de Garganta Profunda e foi “encaminhada” pelo maridão linha-dura Chuck Traynor, que depois de se separar de Lovelace, fez e casou-se com outra diva do pornô, Marilyn Chambers. Várias lendas e histórias surgiram depois, mas isto é papo pra outra hora.

Deep Throat começa com Lovelace passeando de carro por Miami, enquanto vão surgindo os créditos ao som de uma musiquinha tipo “funky”. Ela é apresentada como herself (olha a onda). Linda divide a casa com sua amiga Helen (a louca balzaquiana Dolly Sharp), a quem confidencia que apesar de gostar de sexo não consegue ouvir sinos tocando e ver foguetes no céu. Depois de uma estonteante orgia, mas sem sinos, Helen sugere que Linda vá procurar o psiquiatra Dr. Young (Harry Reems). O cara é maluco, mas identifica que o clitóris da paciente está na garganta. Com a descoberta, ela parte para uma nova empreitada sexual, o primeiro “cobaia’ é o próprio Dr. Young. Sinos e foguetes!!! A garota fica tão empolgada que diz que quer se casar com o psiquiatra, mas ele sugere a ela que seja uma espécie de fisioterapeuta-enfermeira para tratamentos heterodoxos. Enquanto faz sexo com outra bela enfermeira (a angelical Carol Connors), o doutor vai gravando os relatórios dos pacientes tratados por Lovelace. E é só isso, até que com pouquinho mais de 60 minutos surge o “The End” na tela completado por um “and deep throat to you all”.

Mas o filme é bacana e tão anárquico em sua proposta que chega a ser, acima de tudo, divertido. Em uma época que o sexo oral era ainda uma espécie de tabu, inegável que uma produção saída do nicho pornô tenha criado um conceito e aberto o caminho para o hedonismo que marcou os EUA na década de 1970. Na época em que o pornô era realmente transgressor e tinha estilo não apenas uma formalidade financeira. Não é a imitação do conceito de uma época, mas um estilo em sua essência sendo exposto em sua própria época. Deep Throat é pornô pra ser visto com nostalgia e, o melhor, sem o uso do forward.

Ponto Alto: a trilha sonora é alucinante. Boa demais!

Ponto Baixo: observação boba, mas senti falta de uma maior exploração da nudez propriamente dita de Lovelace.

OBS: difícil encontrar a trilha sonora; quem tiver alguma coisa mande um e-mail!

16 de Novembro de 2006

A Casa do Cemitério

A definição de cineasta europeu barato se enquadra perfeitamente em Lucio Fulci. Mas o barato dele tem, e muita, qualidade, sem falar no estilo. Ele passeou pelos mais diversos gêneros e, apesar de ter feito boas coisas no Spaghetty Western, é pelos filmes de horror que é lembrado. Em A Casa do Cemitério, realizado em 1981, encontramos um bom exemplo do cinema de Fulci, apesar do resultado em questão ser um dos mais fracos do diretor.

Trama completamente absurda com situações que passam longe de qualquer traço de verossimilhança, mas compensadas por generosas doses de violência sem qualquer alívio e um clima de suspense magistral que impregna todo o filme. Na verdade, o fato da trama ser absurda não chega a ser um ponto negativo, ao contrário - nestas estórias sem pé nem cabeça em que tudo pode acontecer a imprevisibilidade acaba sendo um dos fatores que reforçam a situação de insegurança do espectador.

Neste A Casa do Cemitério a trama gira em torno do casal Boyle e seu filho Bob (Giovanni Frezza, que parece saído do set de A Guerra do Fogo, tal a grosseria dos traços do seu rosto) que por culpa de uma pesquisa acadêmica vão parar em uma casa em estilo vitoriano, nos arredores de Boston. A casa parece guardar um terrível segredo no porão, conforme comprova um incauto casal antes dos créditos iniciais. E guarda mesmo – vale lembrar que no passado, a mansão havia sido habitada pelo bizarro Dr. Freudstein, médico de métodos pouco convencionais. Há outros personagens como a babá Ann (Ania Pieroni), a fantasma-criança do bem e várias seqüências em que o sangue jorra aos montes. Mesmo com esse roteiro, o filme consegue se sustentar pelo estilo, sem falar naquele clima de suspense desconfortável construído com a precisão de um artesão.

Colaborador habitual do diretor, Giannetto de Rossi (famoso pela intensidade de sua obra, apesar de em alguns momentos deixar transparecer as limitações orçamentárias das produções) ficou com os efeitos especiais e maquiagem; a violência realmente é gráfica e intensa, sem cortes. Mas há cenas fracas como a morte da corretora de imóveis, no qual o furo feito no pescoço da vítima parece mudar de lugar na hora do sangramento. Tudo bem, em The Beyond há as indescritíveis aranhas de plástico. Quem gosta deste tipo de cinema não tem o direito de ficar reparando nestes detalhes; como é meu estilo favorito, então... Agora o decepcionante em A Casa do Cemitério é o monstro na resolução da trama. Figura tão ridícula que apesar do esforço de escatologia incessante não deixa de ser engraçado. Desapontou, pois comprometeu o suspense de toda a trama. Definitivamente não é um dos melhores filmes do mestre, mas garante a diversão. Afinal, é Lucio Fulci!

Ponto Alto: o destino de Bob é uma bela sacada.

Ponto Baixo: há o excelente uso de close nos olhos para mostrar o flerte entre o chefe da família e a babá. Entretanto, a situação nunca é desenvolvida!

4 de Novembro de 2006

Infernal Affairs


Isto sim é uma saga policial. Consegue aliar estilo impecável a um roteiro bacana, no qual se destacam não apenas as pirotecnias do gênero, mas o aspecto humano também tem papel fundamental. Os chineses já dominam a técnica de fazer filmes policiais há muito tempo (vide a importação em massa de idéias e cineastas orientais de ação para a terra do tio Sam). Entretanto quando a galera está no seu terreno e falando sua língua, o show de criatividade é inigualável. Feitas essas considerações iniciais, vamos ao que interessa.

Neste filmaço de 2002, feito pelos talentosos Andrew Lau Wai-keung e Alan Mak Siu-fai, a trama gira em torno de Lau (Andy Lau) e Yan (Tony Leung) que assumem uma relação promíscua entre o submundo do crime e a força policial. Enquanto Lau é mandado para ser um bandido de Sam (Eric Tsang) infiltrado na polícia de Hong Kong, Yan faz o caminho inverso, sob a supervisão do Inspetor Wong (Anthony Wong). O circo está armado e em dez anos eles se perdem no papel de infiltrados, não sabendo ao certo qual posição tomar. Lau é um policial brilhante e ganha espaço na carreira, além de uma estável vida particular. Yan, por sua vez, está acabado, e em todos os encontros com Wong reafirma o interesse em abandonar a vida dupla.

Os duelos da troca de informações são espetaculares. Enquanto Lau tem a disposição um vasto aparato tecnológico usando e abusando da confiança que seu papel na Polícia lhe dá, a posição de Yan é extremamente delicada e ele opta pelo código morse para se comunicar com seu protetor. O espectador se contorce a cada cena, pois a tensão chega perto do insuportável. Destaque para a interpretação magistral dos protagonistas. Outras cenas ainda merecem destaque, como a perseguição no cinema, a ligação de Lau para Yan e o desfecho primoroso.

Tecnicamente o filme também dá show. A música se encaixa perfeitamente e a composição da fotografia é perfeita. Neste último quesito, lembrei do estilo Michael Mann. Sei que este primeiro Infernal Affairs abre uma trilogia e não posso esconder a ansiedade em ver os outros dois capítulos. Sobre a versão americana que está chegando aos cinemas, conselho - beba logo na fonte original, afinal vai longe o tempo que Scorcese realizou Caminhos Violentos.

Ponto Alto: O show de Eric Tsang no papel do bandidão Sam. Baixinho com cabelos na oxigenada, o cara faz um vilão debochado e caricatural, sem nunca perder a crueldade que o papel lhe pede. Olha que Scorcese escalou Nicholson para esse papel em Infiltrados. Sentiu o drama?!

Ponto Baixo: a situação de Yan com sua bela psicóloga e sua ex-namorada não passam pelo desenvolvimento necessário.

2 de Novembro de 2006

Alerta: O Pagamento Final - Rumo ao Poder


Esse é bomba. Ninguém veja isso, pois o filme faz você ficar com raiva até de Brian De Palma e Al Pacino que realizaram o original em 1993. Não há muita coisa que se aproveite neste protótipo de filme de TV. Pensando bem, tirando o visual de alguns personagens, não há nada que se aproveite. A estória diz que é um prequel do bandido bacana Carlitos Brigante, idealizado pelo juiz Edwin Torres e que ganhou vida no bom O Pagamento Final. Este prequel é um emaranhado de clichês mal costurados de filmes de gângsteres. E o pior, sem estilo de tudo e com uma série de situações que parecem chupadas de sitcoms. Ruim de doer.

Jay Hernandez faz o papel de Brigante. Comparar com Pacino? Até acho o garoto esforçado e é inegável que tenha sua dose de carisma, mas aqui ele fica comedido, não se entrega. Parece que sentiu a responsabilidade de fazer um Pacino jovem e tentou levar no melhor estilo cool, mas não conseguiu. Ele aparece na cadeia e lá se junta a dois pilantras para dominar o comércio de heroína no Harlem. O negro Earl (Mario Van Peebles, na fase que vem depois da decadência) é bem articulado e mantém negócio mesmo dentro da prisão; o italiano Rocco (Michael Kelly) tem um fornecedor e só precisa do porto-riquenho pra distribuição, pois o submundo do Harlem está dividido entre as três “etnias”. Aí entra Brigante que parece ser um mero puxador de carros, mas tem moral na cadeia e, logicamente, é muito esperto.

No rol de personagens ridículos vamos aos prêmios. O quinto lugar vai para a namorada do protagonista, Letícia (Jaclyn de Santis). A menina é bonita, mas o envolvimento é tão forçado que os momentos entre os dois são constrangedores. Destaque para a cena em que Letícia chama Carlitos de mentiroso. A menina é ruim demais. Em quarto lugar não poderíamos deixar passar a presença imponente de nosso amigo Luis Guzmán em um papel de justiceiro sem maior importância. Parece que foi colocado no filme de última hora. Ele mesmo não leva a sério.

Quebrar o parágrafo para o terceiro lugar, que vai para o chefão italiano Artie Bottolota (Burt Young, pagando penitência). Ele faz um carcamano tão sem noção que acaba ficando engraçado/ridículo. A medalha de prata fica com Sean Combs, Puffy Daddy, no papel do chefão Hollywood Nicky. A entrada do cara com uma xícara de ouro e o comentário no bar depois de matar um desafeto são cenas que não possuem definição. Sem falar no visual bandido almofadinha.

Combs tinha tudo pra levar o ouro, mas não. O roteirista e diretor criou o insuperável Reggie (Mtume Gant), irmão de Earl. Ele é um negro ligado a movimentos sociais e que mantém distância dos negócios da “família”, mas com a saída do irmão dos negócios vai passar por um treinamento com Brigante no submundo do Harlem. Um dos personagens mais caricatos, ignorantes e insuportáveis da história do cinema. Desagradável é eufemismo. Detalhe para a cena em que faz um seqüestro meio tosco do filho de Bottolota. Sem falar que mal aparece e rapidamente toma lugar de destaque na trama. Demais isso!

O filme original não chega a ser uma obra-prima irretocável, mas é muito bacana e por isso merecia mais respeito!Quem cometeu tudo isso? Um tal de Michael Bregman, diretor e roteirista. Então quando ver este nome, fuja da armadilha.

Ponto Fraco: esqueça a relação com o anterior, pois ela simplesmente não existe. Qualquer referência ao filme original é feita de maneira errada!

21 de Outubro de 2006

Saló - 120 Dias em Sodoma


Um dos filmes mais chocantes de todos os tempos. Essa alcunha pode até parecer exagerada, mas essa crítica cinematográfica aos poderes dominantes da Itália (o fascismo e seus protetores seria mais claro) em uma catarse explícita e incômoda vai muito além do campo das idéias, o impacto também é sentido no estômago. Realizado em 1975, por um agressivo Pier Paolo Passolini, Saló faz alegoria com a estória de vários jovens italianos que na Itália fascista de 1944 sofrem o diabo nas mãos de quatro poderosos. O Duque representando a nobreza, o Bispo como a igreja, o Presidente e a personificação do poder político e o Magistrado como a corrupção e a parcialidade da justiça. Senti falta de um jornalista no controle do poder midiático.

Voltamos ao filme, os jovens são recrutados em várias vilas e lugares inóspitos e são submetidos a uma triagem ridícula. Uma garota é dispensada por faltar um dente, comparação óbvia com a escolha de um animal. Outro tenta fugir e é metralhado no caminho. O fato é que dezesseis jovens são isolados em uma mansão e passarão pelos três círculos: Círculo das Taras (ou manias), Círculo da Merda e Círculo do Sangue. Baseado na obra do caretinha Marquês de Sade, o que se ver a seguir é um show de horrores.

Submissão, sexo e muita violência. Humilhação como jamais o cinema mostrou. O círculo da merda é o mais repugnante. Em uma cena, um dos senhores solta sua merda no chão e obriga um dos confinados a comer o excremento com uma colher. O algoz grita mangiare e isso fica na cabeça. Impressionante.

Outro momento forte, já no início do círculo da dor, é uma armadilha que um dos senhores faz ao colocar pregos em um tipo de angu e oferecer a um incauto faminto. Impossível não ver essa cena entre os dedos! Como não podia ser diferente, algumas vítimas gostam da submissão. O banquete em que um jovem demonstra carinho e cumplicidade com o Bispo é de dar náuseas (não só pela escatologia, mas pela aceitação da condição).

Pasolini não se aventurou apenas como cineasta, mas também foi poeta e escritor. Contestador, revolucionário, comunista e homossexual - reza a lenda que foi morto por um garoto de programa (um dos atores de Saló), mas há uma versão de que seu assassinato teve motivação política. Um homem genial e cheio de contradições que entregou aqui sua obra mais contundente. O espectador pode até não gostar, mas não vai conseguir esquecer Saló. Isso, com certeza, não vai.

Ponto Alto: a ideologia pregada pelo filme soa muito em voga neste Brasil que, como alternativa às limitações da esquerda, opta por um conservadorismo assustador.

Ponto Baixo: o final aberto. Tudo bem, não haveria outra maneira de fechar o filme, mas de forma tão abrupta fica a impressão que não foi finalizado como deveria.

OBS: Post dedicado ao amigo, que, por acaso, é um dos melhores guitarristas de Brasília, Rodrigo Karashima.

17 de Outubro de 2006

Dead Man


Jim Jamursch. Os exagerados falam em papa do alternativo e outras besteiras, mas os rótulos são exagerados. Vi apenas uns três filmes do cara, mas digo que Jamursch é bom por conta tão somente do maravilhoso Dead Man. Um faroeste lisérgico estrelado por Johnny Depp que é cinema de primeira qualidade.

Depp, dando show, faz William Blake. Isso mesmo, homônimo do famoso poeta inglês. O cara é um tremendo desajeitado que acaba de chegar à cidade de Machin, no extremo oeste americano, com a promessa de trabalhar como contador. Mas é cortejado pela mulher errada e acaba sendo perseguido pelo todo-poderoso do local, John Dickson (Robert Mitchum). Tendo de fugir, ele encontra o índio Nobody (Gary Farmer), que acha que Blake é mesmo o poeta. O índio é uma espécie de Timothy Leary do velho oeste e propõe um, digamos, conceito de autodescoberta para o novo amigo. Os dois viram parceiros e partem numa jornada reflexiva, perigosa e divertida.

Muita gente propõe uma série de indagações filosóficas. O que eu fiz foi me preocupar com a diversão e me desliguei dessas reflexões. Apesar de ter deixado de lado todo o potencial “interpretativo” de Dead Man, fiquei maravilhado com a criatividade da produção que vai da fotografia em preto e branco à edição eficiente. O elenco é um primor e conta com gente do calibre do sempre bacana Crispin Glover e do malucão Iggy Pop. Pra finalizar, a música fica a cargo de um inspirado Neil Young. Insuperável!

Ponto Alto: Nobody é uma figura. A composição do subestimado Gare Farmer é muito boa!

Ponto Baixo: não gostei de algumas “viagens” com sobreposição de imagens. Lisérgico até demais.

7 de Outubro de 2006

Baise-Moi


A feminista francesa Simone de Beauvoir ficaria ruborizada com este libelo ao feminismo feito por suas conterrâneas em 2000. Produção independente européia, escrita, dirigida e estrelada por mulheres. Mulheres inteligentes e furiosas, diga-se de passagem. O filme foi até bem recebido em alguns festivais menos expressivos, mas a julgar pela agressividade da coisa, a recepção ficou aquém do esperado, o que jogou a produção no ostracismo. Injustiça, merecia melhor sorte. As interpretações são dignas de alunos do primário (todos os atores são péssimos), a fotografia em câmera digital não é nenhum primor e as cenas de violência são confusas. Mas Baise-Moi merece sim ser descoberto, uma vez que o saldo, apesar de tantos baixos, não é negativo.

Obra praticamente autoral de Virginie Despentes - escreveu o roteiro e dirigiu, em parceria com uma amiga - e, acredito eu, o cerne estava no conteúdo e não na forma, mas, se o projeto for lembrado algum dia, será pela agressividade das imagens, nunca pela mensagem. Manu (Raffaela Anderson) é uma imigrante (ou filha de imigrantes) que é estuprada, e se junta à belíssima prostitua Nadine (Karen Bach), para sair pela França fazendo valer uma justiça torta. Apesar de um roubo a uma mulher no início, as vítimas são mesmo os homens. E aí, é Deus nos acuda. Além da famosa seqüência em que um pervertido leva um tiro no ânus, uma cena chama a atenção: elas encontram dois rapazes e vão para o quarto de hotel, um é grosseiro e vai embora; as duas, então, dividem o mesmo garotão em uma inversão óbvia de papéis. Boa sacada, mas nada inovadora! No caso de Baise-Moi a inovação fica mesmo por conta do excesso de drogas, da violência desmedida e do sexo explícito.

As protagonistas, como já mencionado, são atrizes ruins. Mas é inegável que conferem autenticidade ao projeto. Raffaela Anderson e Karen Bach antes de se aventurarem aqui se dedicavam a filmes pornôs. Isto acaba sendo um ponto positivo, pois elas não passam da mais pura representação da submissão feminina. Ponto positivo para nossas queridas francesas. Detalhe – a charmosa Bach cometeu suicídio em 2005.

No final das contas, fica a sensação de que foi uma excelente idéia, mas conduzida de maneira um tanto equivocada. No Brasil, difícil encontrar quem tenha gostado do filme, já li e ouvi comentários que criticam desde detalhes (como o estupro com camisinha) à própria proposta do filme, mas é inegável que a coragem em abordar um tema tão complexo e de maneira tão ousada tenha causado alguma comoção. A propósito, Baise-Moi quer dizer foda-me. Nada mais apropriado!

Ponto Alto: como forma de alfinetar os homens, cenas do mais puro prazer fetichista. Confesso que cai como um patinho, pois ver a bela Nadine vestida apenas de lingerie, com discman preso na cinta-liga e brincando com sua pistola de mira laser é um prazer visual inegável.

Ponto Baixo: Despentes usou tantas vezes aquela retórica do homem ser movido pelos hormônios, não pensar nas conseqüências dos atos e blá-blá-blá, que realmente não soou convincente.

23 de Setembro de 2006

Emmanuelle


O filme, realizado em 1974, passou quase dois anos em cartaz na França, lançou Silvia Kristel como uma das musas eróticas dos anos 70 e foi baseado em romance homônimo (supostamente autobiográfico) de uma tal de Emmanuelle Arkan. Mas, acredite, a badalação passa dos limites, pois a produção é pra lá de convencional (pode ter servido de referência no passado, sei lá) e conta uma estória de ócio e luxúria das mais ridículas. Sem falar que tirando o comportamento dos personagens e uma seqüência no bar em especial, Emmanuelle não pode ser considerado nem ousado.

Vamos aos fatos. Bela modelo francesa, aparentemente sem nenhuma crise existencial, sai de Paris e vai acompanhar Jean (Daniel Sarky), o marido diplomata, na exótica Tailândia. Sem ter NADA a fazer da vida acaba influenciada pelas não menos fúteis ricaças européias instaladas no país e se entrega à libertação pelo sexo. O maridão - cuca aberta que só ele - dá força para que a esposa não se deixe reprimir pela culpa. Ela então se apaixona pela belíssima Bee (Marika Green), mas a amante a acaba dispensando. Jean sente dó da esposa amargurada com o fim do relacionamento lésbico e sugere uma didática com o pervertido Mario (Alain Cuny). E esse Mario é um velhote com tiradas baratas e uma canastrice de arder os olhos que simplesmente faz Emmanuelle perceber no sexo a motivação derradeira para a vida. E o filme acaba na sugestão de que ela teve o clique e vai mesmo se entregar ao hedonismo sem ressentimentos.

E isso que se arrasta por quase uma hora e meia de projeção. Vale mencionar ainda uma série de situações mal explicadas. Uma em especial chama a atenção – ao ser instigada pelas amigas, Emmanuelle afirma que nunca traiu o marido em Paris. Entretanto, em um péssimo flashback, confessa que no avião transou com dois incautos passageiros. Não entendi a lógica desta cena no contexto da trama. Ah, ia me esquecendo das cenas lúdicas regidas por música francesa. Brega demais, mas confesso que cai como uma luva neste mundo dos ricos inúteis e pervertidos. Por fim, fica o registro do belíssimo casting feminino. Muito pouco para um clássico!

Ponto Alto: a cena do pompoarismo em uma boate é realmente a mais marcante.

Ponto Baixo: Tailândia tem todo aquele exotismo asiático, mas o deslumbramento e a infantilidade dos “civilizados” europeus frente aos costumes locais trazem o velho ranço colonialista.

17 de Setembro de 2006

Matador


Este suspense divertido com jeito e cara de cinema barato europeu é um dos grandes achados de Almodóvar. Matador é filmaço; pesado, sujo e absurdamente ridículo. O cineasta nos brinda com aquele seu estilo que virou referência: personagens caricaturais, amores obsessivos, tragédias, tudo embalado em uma atmosfera colorida e bem acabada apesar da simplicidade da produção. O filme ajudou a perpetuar o estilo Almodóvar quando seus filmes ainda não eram cleans ou seguiam a cartilha do chocante convencional.

Aqui, a trama gira em torno do toureiro Diego (Nacho Martinez), que, aposentado devido a um grave acidente, vive de dar aulas de tauromaquia. Canastrão, metido a galante, Diego é sedutor e enlouquece as mulheres. As coisas se complicam quando um aluno, Angel (Antonio Banderas), reprimido pela mãe religiosa (membro da Opus Dei) decide provar ao mestre que também se dá bem com as garotas. Faz uma tentativa desengonçada de estupro a modelo Eva Soler (Eva Cobo, a mais fraca do filme), namorada do seu mestre. Amargurado, ele se entrega a polícia e atribui a si uma série de assassinatos. A sensual advogada Maria (Assumpta Serna) aparece para defender Angel. Uma certa obsessão pela arte de matar e de morrer e está armado o circo, o que se segue é Almodóvar, no auge e sem concessões.

Verdade que o filme perde um pouco do ritmo no desenrolar da trama. O final previsível e uma série de coincidências teatrais deixam a verossimilhança de lado. Entretanto, a composição precisa de imagens e a criação anárquica dos personagens compensam qualquer deslize. Não por acaso, o ESTILO marcante e a condução irregular lembram Jesus Franco (vale lembrar que na primeira cena do filme, Diego se masturba durante a exibição de um filme de titio Jess).

Não é fácil enquadrar Matador em um gênero, pois são tantos estilos misturados, que a definição de thriller realmente é simplória. Enfim, cinema europeu como a gente gosta. Destemido, visceral, repleto de referências e ainda com atores que ficariam famosos a posteriori suando a camisa em começo de carreira. Ainda inigualável.

Ponto Alto: A cena em que Almodóvar surge como um estilista. Na preparação para o desfile, as modelos se drogando, maior loucura. Em um dado momento, uma vomita no vestido da outra. O estilista manda a pérola: “Não se preocupe. Desfile assim. Está divina. Fantástica”.

Ponto Baixo: Em alguns momentos, Almodóvar se esquece do mundo e se entrega aos seus delírios. O que são aqueles closes nas partes íntimas dos jovens toureiros? Gratuito e fora de contexto.

9 de Setembro de 2006

Águia na Cabeça


Paulo Thiago - aquele que recentemente fez o fraco O Vestido – realizou no começo dos anos 1980 um filme policial brasileiro bem acima da média. A trajetória de César (Nuno Leal Maia), braço direito do senador Ramos Guimarães (Jofre Soares), expõe o que há de mais vil e baixo em uma ascensão movida pela ambição sem limites. A estória é clichê de primeira e poderia ser contada em qualquer lugar do mundo, mas o toque nacional vem da forte presença religiosa (candomblé e catolicismo naquela mistura tipicamente brasileira) e do jogo do bicho.

O charme da produção está mesmo neste diferencial brasileiro. Neste carioquismo quase palpável. César, antes de virar o jogo, em conversa com a amante (Torloni, em boa atuação) lança o chavão de Copacabana e sua representação de status. O fascínio de Águia na Cabeça está sobretudo na brasilidade do jogo do bicho e de seus representantes. Um desfile de carisma entre os chefões da contravenção, Jece Valadão (Canedo), Hugo Carvana (Turco) e Maurício do Valle (Capitão). Vale mencionar as presenças ainda de Chico Diaz, como um matador de princípios, o sempre figura Wilson Grey, na pele do malandrão Helinho, e a bela Zezé Motta como Gracinha, a amante sensível e decidida de Valadão.

Boa parte da imprensa torceu o nariz, mas é caso de injustiça, pois estamos diante de um filme, no mínimo, repleto de estilo. Tudo bem que o cerne da trama realmente é convencional, há erros de continuidade que fazem corar Jess Franco e a direção de arte parece obra de um garoto do ensino fundamental (MEU DEUS, o que é aquele camarote do carnaval carioca?). Mas, acredite, isso é pouco perto de tanto estilo - Jece Valadão usando o paletó por cima dos ombros e as tiradas de Carvana, em atuação simplesmente genial. Não há como esquecer o “Puta que o pariu. Tão pensando que Ballantines é cachaça Pitu, porra...” e o “Quem matar o dragão primeiro, come o c... da princesa”. Sem falar que o filme jamais perde o ritmo e neste caso o fator entretenimento também cumpriu seu papel. A música-tema, interpretada por Fafá de Belém, fica martelando na cabeça. Ah, ia me esquecendo da homenagem sem meio-termo ao Boca de Ouro do Nelson Pereira dos Santos. O saldo, sem sombras de dúvida, é positivo.

Ponto Alto: a relação complexa entre os personagens de Valadão e Motta. A coisa poderia descambar para a paródia, mas a briga entre os dois em momento crucial da trama revela uma relação densa e extremamente sofisticada.

Ponto Baixo: não consigo simpatizar com Xuxa Lopes, que aqui faz o papel da filha do senador.

1 de Setembro de 2006

Heavy Metal


Realizado em 1981, não foi por acaso que este desenho virou cult. Baseado no famoso gibi franco-americano, o longa-metragem contou com a participação de gente de talento como Ivan Reitman (produtor), John Candy (dublador) e Dan O’ Bannon (co-roteirista). A trama, na qual uma esfera malvada que veio do espaço repleta de más intenções assusta uma garotinha com estórias pervertidas, é o que menos importa, o que vale aqui é a mensagem pra lá de politicamente incorreta e o estilo ímpar dos desenhos. Uma delícia visual - pós-psicodélico na medida certa, meio louco, colorido, mas com um pé forte na razão. Com exceção de algumas passagens, o devaneio sempre serve ao enredo e não o contrário.

A premissa é maluca sim e as estórias são meio ilógicas, mas tudo se encaixa nesta viagem oitentista sobre um futuro retrô (como Nova Iorque ainda ostentando o WTC) e universos paralelos oníricos. Muito sexo, violência e imoralidades concebidas bem antes da obviedade dos desenhos da MTV. Programa de qualidade!

Ponto Alto: Os desenhos das mulheres nuas são fabulosos.

Ponto Baixo: Tudo bem que o roteiro não faça sentido, mas a intenção mal resolvida da esfera maligna passa dos limites. Ela conta histórias em que sai derrotada, além de dar a deixa para sua adversária.

25 de Agosto de 2006

Miami Vice


O roteiro é uma confusão só. Caso alguém tenha entendido todos os meandros da trama pode me mandar um e-mail. Entendi até um certo momento, mas foi tanto caco e situações ilógicas que acabei deixando no piloto automático. No pacote, ainda um romance forçado e piegas. Ah, mas quer saber a verdade – Miami Vice tem ESTILO demais. O segredo foi que apesar dos problemas caiu em mãos habilidosas; Michael Mann é o homem por trás do tiro certo que é Miami Vice. Policial violentíssimo feito em câmera digital e protagonizado por duas estrelas cheias de vaidades.

Verdade que o filme é feito para garotões ou nem tão garotões assim que ainda têm aquela reserva de testosterona. Mulher bonita, armas, aparatos tecnológicos, carrões e muita violência. Vou confessar que não achei nada ruim...Parênteses para o primor que são os tiroteios, a acústica é perfeita, a câmera granulada e respingada de vermelho. Essas seqüências vão virar referências, pode acreditar!

Vou parar por aqui, mas tenho a dizer que vale a pena uma ida ao shopping para ver as aventuras de Sonny Crockett e Ricardo Tubbs com traficantes latinos sinistros. Engraçado que nos filmes americanos tudo de ruim vem de fora dos EUA, mas essa discussão é chata demais e não é o objetivo aqui. Só atire a primeira pedra quem não sair do cinema tentando imitar o estilo de Farrell.

Ponto Alto: Closes, digamos, epiteliais e estilosos. Tony Scott ficou com inveja!

Ponto Baixo: A cena em que Sonny e sua namorada trocam um constrangedor Chica e Chico.

13 de Agosto de 2006

Bullitt


Dizia a lenda que Steve Mcqueen era o homem que toda mulher queria TER e todo homem queria SER. Exageros à parte, a assertiva tem fundamento. O cara não era exatamente bonito, mas tinha uma áurea que ia além daquilo que conhecemos como carisma. E um de seus personagens mais marcantes é o tenente Frank Bullitt, que destilou como ninguém seu estilo, meio retrô, pelas ruas de San Francisco. A postura de durão fez escola, mas nunca se repetiu com tanta personalidade.

Realizado em 1968, o filme até hoje impressiona pelas boas seqüências de ação e trama envolvente. No roteiro, baseado em livro de Robert L. Pike, Bullitt recebe a incumbência de dar proteção a um figurão que irá abrir o bico em um depoimento no Senado. No entanto, um atentado põe tudo a perde; ele, então, desconfia de algo e vai atrás da verdade.

Uma curiosidade é constatar como em plena San Francisco do final da década de 1960 as referências ao pulsante movimento hippie são mínimas. Uma banda psicodélica no happy hour, fusquinhas verdes que aparecem em meio às ladeiras californianas na famosa seqüência da perseguição e a decoração do escritório de Cathy, namorada do tenente. Melhor assim - Bullitt e seu mustang são um ataque conservador em meio a louca geração do Paz e Amor. Poucos obteriam êxito em uma proposta tão, digamos, reacionária. Mas estamos falando de Mcqueen e, no final das contas, o resultado foi tão bom que ninguém fez cara feia.

Bullitt é cinema de primeira realizado por um grupo de profissionais competentes. Na batuta, o excelente Peter Yates e no elenco gente do porte de Robert Vaughn, Don Gordon, Robert Duvall e Jaqueline Bisset. Não por acaso, foi um divisor de águas na história do cinema policial americano. A postura dos policiais virou referência e foi incorporada no modus operandi da corporação no lado de cá da tela. E quem se importa em imitar Mcqueen? Afinal ele é o homem que todos os outros queriam SER.

Ponto Alto: o uso de um negro como o melhor cirurgião do hospital. O ator em questão é Georg Sttanford Brown, amigo pessoal de Mcqueen.

Ponto Baixo: Bullitt tem de quebra uma namorada do porte de Jaqueline Bisset. Ela ainda faz o estilo descolada e é aquele deslumbre de beleza O problema é que o relacionamento é mal desenvolvido. A afinidade pareceu forçada.

OBS: estou torcendo para que o Bullitt de Wolfgang Petersen fique apenas na intenção.

6 de Agosto de 2006

Dia de Treinamento


Hoje é dia do mais puro e doce mainstream e o filme em questão é o bacana Dia de Treinamento. O diretor Antoine Fuqua (ele começou fazendo clipes da emblemática banda de rap Arrested Delevopment, mas infelizmente perdeu a linha e hoje se contenta com blockbusters do segundo escalão) sabe dar o ritmo adequado ao filme. Dizem também que o roteirista David Ayer, por ter sido morador dos guetos mais barra-pesada de L.A, sabia muito sobre o universo que escreveu.

Para quem não conhece a estória, a trama é a seguinte: Jake Hoyt (Ethan Hawke) é um policial exemplar que tem a chance de entrar para o Departamento de Narcóticos da Polícia de Los Angeles. Para isso terá de ser avaliado pelo experiente detetive Alonso Harris (Denzel Washington) por um período de 24 horas. O problema é que o detetive se mostra sarcástico e adepto de um estilo nada convencional de fazer valer a lei. Com algumas reviravoltas - bem previsíveis, por sinal – o espectador vai descobrindo que Alonso é muito mais que um tira com tendências à corrupção.

O elenco está, no mínimo, afiado. Denzel Washington está bem à vontade e esbanja carisma no papel de vilão. O ator realmente enche a tela com sua presença. Hawke também não faz feio. Vale a pena ainda creditar as participações do sempre bacana Scott Glenn como o traficante Roger, do decadente Tom Berenger - em um papel que depois descobrimos ser de menor importância - e do talentoso Cliff Curtis como um bandidão latino.

Em suma, Dia de Treinamento é uma diversão sem maiores pretensões. Propõe uma ou outra discussão que não resistem a dois minutos de reflexão, mas o seu forte é mesmo o entretenimento. Um passatempo rápido, ágil e muito bem realizado. Veja sem moderação, e não esqueça a pipoca.

Ponto Alto: a agilidade na edição nunca deixa o ritmo cair. Para a proposta do filme, isso é fundamental.

Ponto Baixo: a participação de Dr. Dre como um policial corrupto. Um desastre como ator.

30 de Julho de 2006

Rejeitados pelo Diabo


O filme, que Rob Zombie fez como continuação de A Casa dos 1000 Corpos, é uma das mais agradáveis surpresas da nova geração pra quem gosta daquele cinema setentista ensopado de estilo. A abertura já é um prazer visual, o ataque da polícia e a violenta fuga em meio ao poeirão seco do Texas com direito a paradinha nos letreiros iniciais. Numa comparação grosseira, um Tarantino menos inteligente e mais visceral e barato. E as referências passam ainda pelo uso de dois ícones do cinema de horror dos anos 70 – Ken Foree e Michael Berryman.

A estória trata da perseguição de uma família de assassinos pelo xerifão linha dura Wydell (William Forsythe). O cara, que foi alvo de pancadas de Steven Seagal no passado, brilha e muito na pele de um xerife casca-grossa que busca vingar a morte do irmão. A cena em que defende Elvis Presley frente a um fã de Groucho Marx já virou antologia. Pelo lado dos perseguidos, Sid Haig como o feioso Capitão Spaulding e a angelical Sheri Moon naquele contraponto simples e genial entre o bem e o mal. Fechando a família, a lenda Bill Moseley, irreconhecível e dando show no papel do malucaço Otis. No elenco, ainda há espaço para gente como Geoffrey Lewis (figurinha fácil em filme oitentistas) e o latino-mor Danny Trejo na pele de um matador de aluguel. Vou parar por aqui, pois estou emocionado.

O filme é uma viagem delirante e altamente nostálgica. Parece um revival hippie repleto de cenas antológicas e muita música boa. Impossível não associar o filme a bandas sulistas dos loucos anos 1970 como Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd. Tudo parece que deu certo nesta viagem violenta e desesperançada do talentoso Rob Zombie. Já elogiei demais, mas tanto entusiasmo não é bobeira não. Fiquei simplesmente deslumbrado, não esperava tanto. Uma obrigação para quem gosta de cinema de qualidade.

Ponto Alto: o encerramento do filme ao som da inesquecível Free Bird deixa qualquer um, mas qualquer um mesmo, arrepiado!

Ponto Baixo: a forçada para o final do nosso querido xerife Wydell foi um pouco além da conta.

24 de Julho de 2006

Clube dos Cafajestes


Realizado em 1978, por um novato John Landis (um dos grandes nomes do cinema americano nos anos 80) este Animal House foi um dos pioneiros em comédias sobre estripulias na vida estudantil. Muitas piadas grosseiras e humor físico no melhor estilo pastelão, mas muito charme e uma certa irreverência inocente, o que torna difícil não rir das bobagens aprontadas pelos cafajestes. Temos ainda a presença da lenda John Belushi, que alterna momentos engraçados com tiradas bem fraquinhas, mas que pelo carisma vale a conferida no filme.

Baseado nas experiências vividas pelo roteirista Chris Miller e publicadas na revista National Lampoon, a estória é um pretexto para o desfile de aprontações em uma fraternidade universitária na Pensilvânia de 1962. Liderada pelo bonitão Eric Stratton (Tim Matheson), a comunidade Delta tem como única regra a diversão, leia-se bebedeira e mulherada. Ainda vale ressaltar que no reino dos deltas não há qualquer tipo de discriminação. Nerds e desajustados em geral são bem-vindos - olha que altruísmo!

O espectador entra na comunidade pela porta da frente na companhia de Larry Krueger (Tom Hulce, ele mesmo!) e de Kent Dorfman (Stephen Furst). Logicamente as estripulias não agradam a todos. Entra em cena o diretor Wormen (John Vernon), que se une à comunidade careta e arrogante dos ômegas - liderada pelo panacão Greg (James Daughton) - para expulsar os bagunceiros da universidade. Logicamente, a turma acaba expulsa e têm de arrumar uma maneira de voltar. Não temos aquele clipe de superação que antecede o clímax (arghhh!), uma vez que os alunos não têm que tirar boas notas ou provar algum talento para serem aceitos de volta na universidade. Eles entram pela porta dos fundos, pois fazem uma grande algazarra em um desfile comemorativo na cidade.

Com certeza, você já viu antes, mas não com tamanha originalidade. Verdade que várias piadas são um fracasso completo e que algumas das brincadeiras são de puro mau gosto, mas como diversão este Clube dos Cafajestes continua impagável! Além disso, temos a presença de Donald Sutherland como um professor riponga e Kevin Bacon no papel de um mauricinho. O filme também não se importa em ser politicamente correto, e isso hoje é importante, diante da caretice da maioria das produções feitas para o grande público! Bobo, divertido e nostálgico como uma brincadeira juvenil.

Ponto Alto: a entrada dos amigos em um bar negro.

Ponto Baixo: a musiquinha Animal House que aparece nos créditos finais é bem fraquinha!

22 de Julho de 2006

O Império dos Sentidos


A lenda conta que Nagisa Oshima teve a idéia de fazer o filme depois que uma prostituta foi encontrada vagando pelas ruas de Tóquio com um pênis ensangüentado nas mãos. Dessa premissa, o cineasta realizou uma das mais conturbadas, agressivas e contundentes histórias de amor do cinema. Amor possessivo, obsessivo e hedonista, que tem na morte sua única forma de plenitude.

No filme, conhecemos, e bem, a intimidade do casal de amantes Sada (Elko Matsuda) e Kitisan (Tatsuya Fuji). Ela é apenas mais uma das criadas de Kitisan e sua esposa, mas em uma relação de servidão acaba se envolvendo com seu patrão. No decorrer do relacionamento, os papéis se invertem. No início a diversão é por conta de Kitisan e toda a submissão cabe a mulher. Entretanto, com o tempo Sada é quem passa a dar as cartas. E aí, a coisa fica séria - ela é uma espécie de ninfomaníaca com distúrbios compulsivos causados pela adoração ao amante. Um tipo bem difícil e o estilo easy go de Kitisan simplesmente oferece a inversão de valores.

Ela faz uns programas por fora para sustentar o amante, que não se percebe que aquilo também é uma forma de dominação. O cerne da trama é que Sada exige que Kitisan seja apenas seu e ele, simplesmente, aceita essa condição sem se dar conta da estranha evolução do relacionamento. O sexo é o combustível inesgotável. Várias perversões são permitidas, a constrangedora cena do ovo e o sexo com a senhora que lembra a mãe dele, entre outras. A relação evolui para o final trágico, a fotografia que encerra o filme é delirante!

O Império dos Sentidos recebeu o rótulo de pornô e outras definições vulgares, mas a verdade é que se trata de uma obra-prima do cinema japonês que lidou com conceitos até então pouco confrontados na tradicional sociedade nipônica. O homem como objeto de manipulação feminina é mesmo o maior deles, uma inversão praticamente inaceitável na cultura clássica oriental. O filme ainda trabalha com questões como o nacionalismo, a infância, a velhice, a fidelidade... Enfim, um clássico imprescindível que merece ser revisto sempre que possível.

Ponto Alto: A dama de quimono vermelho no final trágico. Inesquecível!

Ponto Baixo: Apesar de sugerir alegorias, o uso de crianças é desagradável em uma produção tão ousada!

2 de Julho de 2006

She Killed in Ecstasy


Um dos meus prediletos do mestre Franco. Adoro a ambientação setentista, a mistura inusitada de experiências genéticas, intriga de assassinato e sensualidade. Esse último quesito, aliás, é o forte desse pequeno clássico do nosso querido cineasta espanhol, realizado antes da fase mais bagaceira, após a parceria com Edwin C. Dietrich. E muito da sensualidade se deve a presença marcante de Soledad Miranda. A espanhola era um assombro - traços inacreditavelmente harmônicos, acentuados por olhos escuros, uma pele morena e um corpo absolutamente perfeito. A beleza dela jamais soa agressiva, ao contrário, é sempre suave, natural. Lembra uma jovem Yoná Magalhães. Uma pena Soledad ter nos deixado ainda muito jovem, por conta de um acidente automobilístico.

Voltemos ao filme. Aqui, ela é casada com o Dr. Johnson (Fred Williams) e vive muito bem, mas o maridão, altruísta que só ele, realiza experiências genéticas com embriões visando a cura de doenças. Experiências polêmicas, tanto que é obrigado a parar por ordem do conselho de medicina. Além disso, tem o registro cassado e é exposto na comunidade médica. Não segura a onda e enlouquece, apesar da mulher fazer de tudo para dar uma força. O cara é atormentado por vozes e acaba cometendo suicídio.

A viúva passa então a usar de toda sua sensualidade para se vingar. Seduz um a um os membros do conselho, e os mata com fúria e requintes de crueldade em uma combinação inusitada de sexo e violência. Destaque para o ataque contra a Dra. Crawford (Ewa Stroemberg, outra musa de Franco). Em vários momentos, a justiceira usa uma peruca loira, sem jamais perder um pingo do charme. O final é triste.

O que diferencia She Killed in Ecstasy dos outros trabalhos de Franco é o estilo. Apesar de algumas excentricidades - como a abertura com os embriões e o sufocamento com uma almofada inflável -, o filme é bem realizado e com passagens de muito bom gosto. Produção caprichada, sem nunca deixar de lado o estilo improvisado que marcou a carreira do mestre. Além, nunca é demais repetir, de contar com o trunfo de uma Soledad bem à vontade. Vale a pena conferir!

Ponto Alto – a trilha sonora é muito bacana. Pontuada por instrumentos como cítaras, etc. Vale lembrar que Ravi Shankar estava em alta no ano de 1971. Em outros momentos, quem dá o toque é a música disco. Essa combinação tinha tudo para dar errado, mas não sob a batuta do maestro Franco.

Ponto Baixo – a canastrice de Fred Williams nos momentos de sofrimento do Dr. Johnson passa dos limites.

29 de Junho de 2006

I Spit on Your Grave


Simplesmente um dos filmes mais aterradores (a palavra é essa) que tive a oportunidade de ver na vida. Repleto de cenas cruéis, um marco do cinema marginal americano. A estória da escritora modernosa de Nova Iorque que procura inspiração em um sossegado vilarejo e logo descobre o terror nas mãos de quatro rednecks vagabundos é um assombro em seu grafismo. A violência é muito explícita, não há qualquer tipo de reserva. O espectador só é poupado de closes genitais. O resto é válido.

Jennifer (Camile Keaton), nossa heroína, sofre o abuso do estupro, pois os caipiras acham que a menina se insinuava demais por andar de biquíni. Assim, quatro filhas da puta resolvem dar uma aula de machismo à garota da cidade. Ela é pega na floresta enquanto descansava no barco e é surrada, humilhada... Depois de muita sacanagem, ela pensa que ficou livre, mas a bagunça continua em sua casa. Tome pancada, corte no rosto. Enfim, o freak Mathhew (Richard Pace) recebe a incumbência de dar fim a agonia da menina com uma punhalada no peito. Apesar de ter feito tudo com os amigos, o cara, logicamente, não consegue matá-la. Ela se recupera e arma a vingança contra os pilantras. E a vingança tem toques de sadismo impressionantes.

Teria Jenniffer respaldo para matar? Essa discussão que perpassa uma série de filmecos policiais também ganha força aqui. Na minha opinião esse lance de justiça pelas próprias mãos apenas aproxima a vítima de seu algoz. E isso não é nada bom, um retrocesso! Debates políticos à parte, I Spit on Your Grave jogou no ostracismo toda sua equipe, ou você se lembra de outro filme de Meir Zachi? Isso inegavelmente ajudou a criar aquela áurea meio maldita, digamos assim, da produção. Filme excepcional, mas para públicos específicos.

Ponto Alto – a morte de Johnny (Eron Tabor), líder do grupo de pilantras, é a mais engenhosa e dolorosa que já vi em um filme. Dá arrepios só de pensar! Pra quem não sabe – ele é mutilado no pênis e sangra até morrer! A imagem pós-morte do cara fica na cabeça.

Ponto Baixo – parece besteira, mas na morte de um personagem no final da trama, conseguimos vislumbrar perfeitamente o truque no momento em que um machado entra nas costas. Isso tira o espectador do estado de torpor em que estava até aquele momento. Detalhe é verdade, mas que, definitivamente, não passa despercebido!

11 de Junho de 2006

O Pássaro das Plumas de Cristal


Em seu primeiro trabalho, Dario Argento já dava mostras da sua genialidade. Realizado em 1970, O Pássaro das Plumas de Cristal é considerado o precursor derradeiro do giallo - gênero que foi o berço dos slahers movies tão comuns na década de 1970 e 1980. Neste legítimo thriller, Argento usou e abusou das mais diversas referências hitchcockianas e ao estilo do mestre apresentou um filme extremamente simples em sua concepção, mas uma verdadeira pérola em sua realização.

Impossível não se identificar com o escritor boa-praça americano Sam Dalmas (Tony Musante), que está há dois anos na Itália em busca de inspiração. Ao presenciar uma tentativa de assassinato em uma galeria de arte, ele faz às vezes de detetive e, obviamente, acaba sendo perseguido pelo assassino. O cara expõe a namorada (Suzy Kendall), compromete sua viagem de volta aos EUA e passa por situações de arrepiar mesmo o mais durão dos detetives. Mesmo assim não desiste da empreitada, sem nunca perde o bom humor ou abandonar sua indefectível jaqueta de couro.

Aliás, o bom humor é tão bem empregado que simplesmente complementa o clima do filme. Olha que sinceramente não sou fã de toque de humor em obras violentas, mas neste caso simplesmente não soa forçado. Os assassinatos são encenados e editados magistralmente Há ainda a galeria de personagens fantásticos, como o gigolô que fica repetindo "so long" e o pintor maluco. Enfim, tudo parece uma deliciosa e imperdível brincadeira de muito bom gosto. O jogo de transparência (com espelhos, marca de Argento) também não poderia faltar. Ia me esquecendo do desfile de mulheres bonitas, como prega o bom cinema italiano. Precisa mais?

Ponto Alto: a referência explícita em tom de homenagem ao A Dama Escarlate.

Ponto Baixo: apesar de um dos charmes do filme estar na sua simplicidade, a reviravolta para revelação da identidade do assassino é óbvia demais. Talvez não seja culpa de Argento, mas das imitações que vieram depois... Mesmo assim, fica o registro.

3 de Junho de 2006

Supervixens


Russ Meyer não chega a ser unanimidade nem no nicho alternativo americano. Mas, se fosse brasileiro, haveria, no mínimo, uma dezena de funks cariocas em sua homenagem. Pois o que esse homem gostava de mulher boazuda não está no gibi. Os seus filmes são meros pretextos para exibir garotas bem dotadas (ou supers, como ele as apelidou) em poses picantes. A fotografia é aquela coisa amarela e chapada que denuncia a falta de recurso (vale ressaltar que nos filmes em preto e branco, como Faster, Pussycat! Kill! Kill!, a fotografia é usada com muita propriedade) e as tramas são bobas e repletas de personagens caricatos. Achou ruim?! Eu não. Os filmes são uma delícia. Muito bem estruturados e com situações tão absurdas que é impossível conter o sorriso em várias seqüências.

No caso de Supervixens, acompanhamos as trapalhadas de Clint Ramsey (Charles Pitts), frentista em fuga por estar sendo injustamente acusado do assassinato de sua ex-namorada, a bela Angel Turner (Shari Eubank). Mané por excelência, ele, inexplicavelmente, faz o limpa por onde passa. Acaba seduzido por todas, desde uma garota que lhe oferece carona na companhia do namorado nada ciumento, passando por uma Super, que mora com o marido idoso em uma fazenda até uma bela negra que gosta de velocidade. Meio por acaso, encontra a paz com Vixen (novamente Shari Eubank) - menina que vive solitária em um posto de gasolina no meio do nada. Então, o policial Harry Sledge (Charles Napier), verdadeiro assassino de Angel, encontra Clint. O duelo é no auge da montanha, com direito a várias aparições eróticas. A mistura de ingenuidade e sensualidade ficou na medida certa. Enfim, a comparação com a nossa pornochanchada nunca pareceu tão apropriada. Um conselho: abaixe a guarda e divirta-se com as popozudas de Meyer.

Ponto Alto: Charles Napier dá um show no papel do agente Harry Sledger. Legítimo genérico de Redford, ele destila canastrice no gestual e no inconfundível sotaque sulista do personagem. A turma vai lembrar dele como o chefe-vilão de Rambo 2.

Ponto Baixo: entendo a anarquia da proposta, mas a violência é forte em seus momentos. Chega a fugir do contexto da trama. Vide a morte de Super Angel.

28 de Maio de 2006

Henry – Portrait of a Serial Killer


Realizado em 1986 e com aquela cara de produção independente americana, Henry virou referência para os apreciadores do cinema pouco convencional. A suposta trajetória do serial killer Henry Lee Lucas ganha contornos dramáticos e aquele tom documental imprescindível à proposta do filme nas mãos habilidosas de um diretor quase estreante, John McNaughton, e de um talentoso protagonista, Michael Rooker. Grandalhão e com jeitão abobado, foi a escolha perfeita para um personagem tão polêmico.

No filme, uma licença poética para a introdução de dois personagens que dão caráter verossímil a errante história do serial killer. No caso em questão, o objeto do afeto, Becky (Tracy Arnold), dançarina de strip-tease que depois do fracasso do casamento vai a Chicago atrás do irmão Otis (Tom Towles), que divide um apartamento com Henry.
No começo da trama, somos informados que estes personagens são fictícios, mas eles transmitem uma veracidade e uma complexidade inédita a história de figuras que são retratadas de maneira sempre linear e superficial. Neste caso, o monstro fala, trabalha, até parece se apaixonar, sem nunca, logicamente, deixar de matar da forma mais cruel possível para aliviar traumas de infância e um evidente distúrbio mental. Otis, pilantra que está na condicional, vira parceiro e realiza barbaridades (registradas em VHS para posterior deleite) ao lado de Henry.
O filme é curto, mas tão impactante que ficamos boquiabertos até o final dos créditos. O espectador está horrorizado diante de tamanha brutalidade e da constatação de como monstros realmente não estão escondidos atrás da velha retórica maniqueísta.

Ponto Alto: um assalto cometido por Henry e Otis contra uma família é de provocar calafrios em qualquer um. Fica-se com ânsia de vômito, mas não se pode negar a realização irretocável.

Ponto Baixo: os efeitos especiais e a maquiagem deixam a desejar. O olho furado com pente, em momento crucial da trama, explícita bem essa limitação.

27 de Maio de 2006

Black Christmas


Bob Clark, aquele mesmo por trás de Porky’s, foi um dos precursores dos slashers que invadiram as telas americanas na década de 1980. O filme que abriu as portas para a matança de Halloween e Sexta-feira 13 é uma produção original e intrigante que data de 1974. No caso em questão, Clark nos brinda com o hoje quase cult Black Christmas com a estória de um assassino que resolve atacar uma irmandade feminina no natal. Como protagonista, a gata Olivia Hussey (a Julieta de Zefirelli), no elenco ainda gente como John Saxon e Margott Kidder.

Clima sombrio reforçado pela noite fria do natal, fotografia muito escura, mas sempre eficiente – ao contrário daquelas produções B nas quais não se consegue ver nada - e um roteiro que aposta em um clímax previsível, mas delicioso. Precisa mais? Então anote, câmera subjetiva usada com propriedade ímpar e uma idéia brilhante na identificação das ligações que aterrorizam as garotas. Genialidade retrô. Há, digamos, falta de nudez (afinal, o cara concebeu Porky’s a posteriori) e a maioria das mortes são offscreen, mas nada que comprometa. Uma verdadeira preciosidade.

Ponto Alto: a morte de Barbara (personagem de Kidder) é Argento puro. Ver pra crer!

Ponto Baixo: não gosto das seqüências engraçadinhas. Essa praga de alívio cômico estraga o clima.

1 de Maio de 2006

Audition


Takashi Miike é extraordinário! O diretor japonês consegue impregnar seus filmes de um exagero e uma vivacidade poucas vezes vista na história do cinema. Miike é um cineasta independente na concepção da palavra. Seus filmes fazem parte daquele rótulo barato de Asia Extreme, mas vão bem além disso. Miike nos fez mudar a idéia de disciplina do Japão; de um país que só existe para o trabalho. Ele nos fez abrir os olhos para um Japão assustado, o Japão recordista de suicídios, um Japão com valores morais comprometidos pela uma ocidentalização inevitável e que arrebata muito mais que traços étnicos ou culturais. Seus filmes são viscerais e pedem socorro para uma sociedade oprimida. Seja a saga gore de um justiceiro panaca em meios a membros da Yakuza com Ichi, The Killer, seja a saga policial violentíssima e inteligente de Dead or Alive (meu predileto) ou a degradação moral de uma típica família nipônica com Visitor Q. Entretanto, o filme que fez o mundo virar a cabeça para olhar mais de perto Miike foi o surpreendente Audition.

A produção de 1999, baseada em livro de Ryu Murakami, conta a história de um bem resolvido viúvo em busca de uma nova parceira. Logo no início, somos surpreendidos com a morte da mulher de Shigeharo Aoyama (Ryo Ishibashi). O filho pequeno, Shigehiko, levando um presente para a mãe doente; fotografia leve retratando a emotividade na cena. Com a morte da mulher e mãe, pai e filho pedem para todos saírem do caminho e partem com a suas dores em meios às ruas de uma grande cidade japonesa. Sete anos se passam, a família conseguiu superar a ausência do ente querido e vive muito bem. Mas o pai está envelhecendo sozinho e o filho sugere uma nova esposa. A oportunidade surge por meio de uma seleção para a escolha de uma atriz jovem para um filme. Antes, o senhor Aoyama confidencia ao amigo Yasuhisa Yoshikawa (Jun Kunimura) que não quer uma mulher jovem, mas uma garota que trabalhe e tenha alguns talentos como cantar, dançar e tocar piano. Detalhe, ele quer um pouco da falecida na nova mulher.

Antes mesmo dos testes, Shigeharo já se mostra encantado por uma das candidatas, a doce Asami Yamazaki (Eihi Shiina) que estudou balé por 12 anos e parece um pouco blasé demais. Uma frase da carta de apresentação da garota fica na cabeça do cinquentão: “ A grande esperança torna-se a grande frustração”. Sinistro. Para resumo de história a menina torna-se bem acessível e eles rapidamente estão saindo. Com o devido respeito nipônico, é claro! Um sumiço inesperado de Asami em um final de semana na praia e uma rápida investigação revela detalhes sórdidos. Tudo aos poucos, caminhando para o explosivo final. Essa conclusão, por sua vez, é feita sem qualquer concessão. Um clímax lento e doentio, com direito a mutilações e um teste de dor que vai fazer qualquer um cerrar os dentes. Miike ainda nos deixa angustiados com uma brincadeira de edição sobre a condição embriagada do protagonista e a veracidade ou não dos acontecimentos. Crianças em cenas violentas nos traumas de infância que inevitavelmente vêm à tona. Ficamos estarrecidos.

O filme é um primor e consegue nos envolver com as motivações dos personagens sem nunca parecer forçado. Os personagens são apresentados e construídos como em um bom romance. Adoro aquele plano em que Miike posiciona a câmera em um canto e deixa os atores agirem da forma mais natural possível, como se não houvesse qualquer interferência externa. Ficamos íntimos em muito pouco tempo e com a mesma estratégia compartilhamos, aflitos, a dor e a angústia. O envolvimento do casal principal também soa convincente, sem atropelos. Vamos sendo seduzidos até que no final a explosão de violência e sadismo por meio da inocência. Uma Lolita de Nabokov elevada à enésima potência. Audition é desde sempre um clássico moderno. Pra quem gosta de bom cinema!

Ponto Alto: a sensatez do amigo Yasuhisa Yoshikawa (Jun Kunimura). O cara é uma figura, sempre cínico e com uma frase afiada na ponta da língua. Acaba por premeditar o pior. O legítimo alter-ego de Miike!

Ponto Baixo: faltou uma nudez da nossa querida protagonista. Faz o que faz e não mostra nada... Faça-me o favor Eihi Shiina!

28 de Abril de 2006

Alerta – Brasília 18%


Vou interromper a manutençao habitual do blog para um alerta. Nunca vejam esse Brasília 18%! Os comentários a seguir não pretendem atingir ninguém, apenas zombar de um projeto artístico mal intecionado e pessimamente realizado. Vamos aos fatos.
Esse é o PIOR filme brasileiro que já tive o desprazer de ver na minha vida. Constrangedor de tão ruim. Para começo de conversa, como cidadão brasiliense me senti revoltado com tamanho despautério no retrato simplório da minha cidade. Fotografia marrom mostrando a seca no inverno e trama nos bastidores sujos da política. Nossa, que original! Nos letreiros de abertura aparece o nome de Bruna Lombardi com a seguinte destinação: Participação Afetiva. Realmente não é para ser levado a sério.
Quase saio no meio da sessão com aquela prostituta paulistana expressiva pra caramba em um debate na porta de um quarto de hotel com nosso amado protagonista Carlos Alberto Riccelli. O cara só atua com os olhos. É um gênio.....Acho que passei a ver o cinema de modo diferente depois de Brasília 18%. Passei a ver como uma grande farsa!
No menu, ainda uma infinidade de erros de continuidade que até um cego consegue vislumbrar e personagens com nomes representativos da nossa cultura. Verdade isso... O protagonista se chama Olavo Bilac e é um médico legista. Tem uma lenda urbana maldosa que diz que o poeta (o original, claro!) era necrófilo. Não sei se foi proposital, mas, junto com Sinfonia de Brasília, essa ironia foi a única razão que me fez agüentar a tortura até o fim.
Não consigo entender a participação de Carlos Vereza e Othon Bastos em um projeto deste. E Bete Mendes?! Como um ícone da nossa filmografia, como Nelson Pereira dos Santos, pôde cometer um atentado desses? Estou chocado, por trás de tanta sarcasmo há muita revolta em relação aos desdobramentos do cinema nacional.
Desculpe a revolta, mas quando Evandro Mesquita inventa um sotaque a lágrima quase caiu! E o roteiro disso? Piada, só pode ser! .
Quanto a vocês meus amigos: FUJAM! FUJAM!
Detalhe – a cena da CPI com a participação do parlamentar Machado de Assis faz qualquer ser humano corar de vergonha.

23 de Abril de 2006

Emanuelle in America


Quem nunca ouviu falar da musa erótica do cinema europeu, a querida Laura Gemser? Nascida na ilha de Java em 1950 e dona de traços delicados e de uma morenice perfeita, a moça foi um dos maiores expoentes do cinema feito na Europa nos anos 1970. Gemser não se fazia de rogada em exibir o corpo magérrimo em tórridas cenas eróticas, o quê até lhe rendeu o coração de um dos galãs mais cobiçados (e baratos) do cinema italiano na época, Gabriele Tinti. Neste período de ouro, a parceria mais sólida foi com o talentoso malucão Aristide Massaccesi, para os íntimos Joe D’Amato. Muita coisa ruim, como uma versão baraterríma da história de Calígula e outros filmecos, mas também coisa interessante como os exemplares da série Black Emanuelle.

A trajetória de Gemser com a personagem começou com Emanuelle Negra de Bitto Albertini em 1975. Porém, o que deu notoriedade a modelo javanesa foi sua participação em Emanuelle 2, continuação do original e protagonizado por Sylvia Kristel. Só para refrescar a memória, Emanuelle apareceu pela primeira vez no cinema sob a batuta do francês Justin Jaeckin. Baseado nos escritos (autobiográficos?) de Emmanuelle Arsan, o filme contava a estória de uma jovem modelo casada com um diplomata descobrindo o sexo na sugestiva Bangkok. Emanuelle foi um estouro na Europa; na França passou um ano e meio em cartaz. Daí, toda a celeuma em cima da personagem, que, logicamente, foi aproveitada pela turma do explotation. A galera underground chamou uma figurante de destaque na continuação do original para o papel principal e assim foi concebida Black Emanuelle. Joe D’Amato, por sua vez, pegou a série em 1976 com Emanuelle in Bangkok. A personagem andou em mão menos habilidosas, até encontrar a razão de ser com o polêmico e visceral Emanuelle in America, finalizado por D’Amato em 1977. O resto da história é triste, pois vieram aberrações como Emmannuelle e todos conhecemos aquela versão no espaço das sessões de sábado à noite da Band. Lamentável.

Mas voltemos aos anos 70 para falarmos de coisas boas. Estiloso até a última ponta do cabelo laqueado, com violência e sexo em doses cavalares, Emanuelle in America conta as aventuras de uma corajosa fotógrafa atrás de uma turma que andava exagerando na busca do prazer. A denúncia é que um grupo de ricaços formou uma rede para patrocinar snuffs movies. A repórter vai usar de todos os recursos para desvendar esta história. Logo no início da trama, um puritano tenta intimidar nossa heroína. Nada que um belo sexo oral não resolva. No começo das investigações, ela vai trabalhar na mansão do poderoso magnata Eric van Darren (Lars Bloch, idêntico ao Woody Harrelson). As armas da nossa jornalista na empreitada são a sensualidade e uma mini-câmera em um bracelete. Começa a brincadeira, banho com as meninas, sexo lésbico com espanhola carente e garota praticando zoofilia com cavalo.

Emanuelle então é convocada para dar uma força para um casal que anda tendo problemas na cama lá em Veneza. A bicha é tão ordinária que dá mole até para o gondoleiro. O casal a quem a repórter vai prestar solidariedade é formado pelo Duque Alfredo Elvize (Gabriele Tinti, o senhor Gemser) e sua bela esposa Laura (Paola Senatore). Ela instiga os dois, mas se retira no clímax da coisa. Ainda em Veneza, numa festa-orgia, as primeiras insinuações de sexo explícito. Ela volta à Nova Iorque, infiltra-se em um clube em que a mulherada comanda o espetáculo; neste lugar, os homens são tão submissos que usam coleiras. Chegou a hora da insinuação dá lugar ao explícito, com direito a transa em cabana na praia, ménage à trois e sexo com bigodudo fantasiado de zorro. Reza a lenda que a inserção de cenas de sexo explícito foi idéia de um produtor francês. Eu, particularmente, acharia melhor deixar a coisa apenas na sugestão. Gemser não participa de nenhuma dessas cenas.

Depois de ver uma fita ainda neste clube, Emanuelle chega a um senador em Washington por indicação do seu editor. Após um bom rala-e-rola, tem acesso a uma fita snuff. Ela, então, é drogada e levada a uma ilhota latina. Acaba presenciando, totalmente dopada, a tortura de mulheres por um bando de sádicos militares em roupas verde-oliva. Essas cenas são de uma brutalidade de fazer corar mesmo quem está acostumado a este tipo de produção. As seqüências foram filmadas em 35 mm e depois passadas para 8mm, dando aquele tom documental impressionante. Acusou-se D’Amato de fazer um suff de verdade, tal a precisão dessas imagens com direito a estocadas na vagina e seios sendo cortados com faca. Mas as dúvidas se diluem tão logo descobrimos que o maquiador preferido de Lucio Fulci, Gianetto de Rossi, estava por trás da empreitada. Mais uma curiosidade; por conta dessas cenas, nosso querido diretor teve o passaporte cassado e ficou cinco anos sem poder sair do território italiano. A atriz que teve o seio cortado disse que ficou traumatizada etc. Barra pesadíssima!

Enfim, Emanuelle in America escancara suas restrições orçamentárias, mas é um achado em sua realização. Obra de um verdadeiro mestre. A música disco NUNCA foi usada com tanta propriedade. Meio disco, meio brega, totalmente cool. No sentido de criar o clima da época, a obra é um caso singular. De resto, tudo é muito divertido e agrada em cheio ao público acostumado a este tipo de espetáculo. Tem gente que reclama do cast feminino. Besteira, as mulheres são bonitas e as críticas vem apenas de quem não está acostumado à nudez pré-silicone. Nesta linha, o filme é insaciável. O erotismo não pára e sempre há um corpo nu em cena. Joe D’Amato, atrevo-me a dizer, entregou a sua obra erótica definitiva, mesmo que depois tenha se enveredado para o pornô propriamente dito. Ele mesmo dizia que o hardcore é o fim do erotismo. Não perca Emanuelle in America por nada, pois este é definitivamente um clássico. Diga-me em que filme o namorado da protagonista tem na sala um quadro de uma melancia cortada em forma de vagina? E que tal uma mesa de centro da Marlboro. Detalhe, a mesa abre para dar acesso ao bom e velho Red Label. Bom demais!

Ponto Alto: uma cena em particular merece aplausos. Emanuelle e duas amigas se embrenham na piscina ao som de uma deliciosa música extremamente datada. A câmera submarina registra tudo. Retrato da geração do amor livre.

Ponto Baixo: o casamento em um paraíso tropical que encerra o filme.

14 de Abril de 2006

Thriller – a Cruel Picture


O sueco Bo Arne Vibenius tem uma biografia singular na história do cinema. Primeiramente, foi colaborador do homem máximo do cinema sueco, Ingmar Berman. Depois desse período de louros, em 1974 se entregou a uma obra explotation que mudou sua vida para ao bem e para o mal. Câmeras inovadoras, cenas de sexo explícito, violência grosseira, uma trama absurda e figurinos pra lá de estilosos. Assim é Thriller – a Cruel Picture, o filme que Tarantino denomina o maior sobre vingança (que coisa é essa?!) já realizado. A produção virou a cabeça do público underground, mas dizem que Bergman não aprovou o trabalho do pupilo e por isso nunca mais trabalhou com Vibenius. Pouco importa se a lenda é verídica, mas que valeu a pena o sacrifício isso valeu. Thriller virou referência obrigatória; da protagonista de tapa-olho e sobretudo preto às cenas de violência em câmera lenta, tudo virou cult.

Alguns aproveitamentos viraram verdadeiros símbolos do cinema contemporâneo. O estilo de women with guns (WWG), tão em alta hoje em dia, começou com o filme sueco. Violência filmada em câmera lenta, que fez a fama de John Woo, foi inovação proposta por Vibenius. Tudo bem, Sam Peckimpah também fez isso, se bem que usou mais a proposta da mesma cena por vários ângulos. Como o negócio aqui é Verbinus, vale dizer que ele utilizou câmeras emprestadas da Nasa, usadas para filmar lançamentos de foguete, no retrato da vingança sangrenta da heroína. Isso sem falar em um figurino que os irmãos Wachowski (eca!) copiaram em detalhes a posteriori, e por aí vai.

O roteiro escrito pelo próprio diretor, conta a trajetória de Madeline (a linda ninfeta Christina Lindberg), uma garota muda que vive tranqüilamente com os pais em uma vila rural. Ao perder o ônibus para a cidade aceita a carona de um malandro. O vilão Tony (o excelente Heinz Hopf), com sua barba bem feita e lábia afiada, parece saído de um filme brasileiro da boca do lixo . A primeira frase do canalha é um assombro: “Você pode me dar uma única razão para não ir à cidade comigo?”. Ele vai acabar com a vida da garota. Primeiro vai viciá-la em drogas pesadas e, depois, obrigá-la a se prostituir. No primeiro programa, uma revolta com o cliente e o cafetão rasga seu olho. A cena é famosa e foi realizada com o uso de um cadáver. Quem assistiu ao Un Chien Andalou vai fazer a óbvia ligação. Madeline agora será conhecida pela alcunha de One Eye.

Sozinha e sem qualquer alternativa, ela se vê obrigada a cair na vida. Desgraça pouca é bobagem, então os pais se suicidam com o desespero pelo sumiço da filha. Os velhinhos receberam uma carta dizendo que ela tinha ido embora por não agüentar mais morar na fazenda com as restrições impostas por eles. Tony e sua turma são escrotos mesmo. Dessa forma, Madeline parece aceitar a condição (ganha uma grana pelo trabalho), mas é armação. Madeline faz aulas de caratê, tiro e perseguição automobilística arquitetando a vingança contra seus algozes. Há até um clipe ao estilo sueco mostrando a evolução nas habilidades. Bacana demais.

Destaques para cenas de sexo explícito nas quais foram usadas dublês de corpo para Lindberg. A edição deixa isso claro. Outra lenda, Vibenius pegou garotas de programa de Estocolmo para realização dessas seqüências. Mas calma pessoal, não há motivo para desespero. A nossa querida protagonista é muito sensual e não hesita em exibir o belo corpo a todo instante.

Com o fim brutal da amiga Sally (Solveig Andersson), único consolo de Madeline naquele mundo, chega a hora da vingança. A turma malvada é eliminada com brutalidade. Tudo registrado em câmera lenta. Uma perseguição de carros e a morte engenhosa de Tony no melhor estilo western spaghetti. Destaque - a bronca pra cima de dois policiais que tentam impedir a justiceira foi plagiada (a palavra é essa) em Matrix.

A trama é particularmente absurda e parte de uma premissa que parece patente desses filmecos de ação realizados hoje em dia. O ritmo é lento e, nos experimentalismos, a realização ficou aquém do esperado. Entretanto, a julgar pela infinidade de imitações, todas as inovações são idéias, no mínimo, criativas. Ao apresentar uma protagonista inesquecível (ela não diz uma palavra durante toda a projeção) e por não se render a qualquer convenção, Thriller virou símbolo do cinema explotation. Impossível precisar se Vibenius é louco, oportunista ou gênio. Entretanto é inegável que representa a personificação ideal da expressão “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”.

Ponto Alto: o professor de caratê dá uma bronca na aluna que insiste em interromper as aulas para dar um pico. São momentos como esse que me fazem AMAR o cinema setentista.
Ponto Baixo: cômica perseguição automobilística com direito a explosão por toque no pára-choque.

31 de Março de 2006

Scanners


Todos sabem que David Cronenberg não é um cineasta fácil e muito menos acessível a todos os gostos. Seus filmes sãos esquisitos, vide Calafrios e Videodrome. Scanners não foge à regra e expõe a mente “doentia” deste fascinante cineasta canadense. Reza a lenda que Cronenberg passou nove meses socado dentro de uma ilha de edição para dar o tom certo a maluca história desses nada simpáticos telepatas. Exagero pouco é bobagem, pois o resultado final não é tão surpreendente assim. No entanto, se levarmos em conta que se trata de um filme feito em 1981, Scanners é original em sua abordagem e na criação de personagens.

Outro fator que chama a atenção são os inquestionáveis méritos técnicos. Estamos falando de maquiagem e efeitos em cenas que cabeças explodem. Tinha tudo para ser ridículo e/ou infantil, mas não é. Há vários momentos memoráveis que exemplificam o porquê de Scanners ter virado uma referência para os apreciadores de filme pouco convencionais. A aparição do vilão Darryl Revok (Michael Ironside), por exemplo, merece uma citação – entrada triunfal. Ironside é um ator de segundo escalão em Hollywood, mas com muito carisma está um passo a frente dos protagonistas. Ele é daquele tipo que você até lembra os filmes anteriores, mas não sabe o nome. Em Scanners, está em um dos seus melhores momentos com certeza!

O problema é que apesar da sofisticação técnica, o filme se conduz por um fio de trama que, em pleno século XXI e com uma cultura que não teme em se repetir, parece bem mais desinteressante. Telepata scanner boboca, Cameron Vale (Stephen Lack), é treinado por uma grande corporação para caçar scanner que prega a supremacia dessa “espécie” humana. Parece coisa de história em quadrinho manjada como X-men. De resto, as reviravoltas comuns do roteiro: ligações “inesperadas” entre os personagens e perrengas mal-resolvidas do passado. Você já viu isso antes, mas em 1981 isso era inovação. Pode acreditar!

Ainda na posição de advogado do diabo, outras seqüências merecem desagravo. Há, por exemplo, uma cena em que o herói se disfarça de funcionário de uma empresa farmacêutica para uma investigação. Isso é a cara do James Bond. Vaias para Cronenberg. Nove meses trabalhando e deixa passar isso. Outra cena de doer é a patética reviravolta que antecede o clímax. Este, por sua vez, é muito bem realizado. Só mais uma - o caso sem sal do fraco protagonista com a bela Kim Obrist (Jennifer O’Neill) é sofrível. Detalhe: a moça é brasileira, isso mesmo, carioca da gema. Sei lá se isso pode servir de orgulho pra alguém, mas, ao menos, ela é boa atriz, além de ser bonita e muito charmosa.

Apesar dos pontos fracos, Scanners vale pelos efeitos visuais deslumbrantes e cenas memoráveis. A perseguição ao furgão é um dos pontos altos, além do duelo final. Só consigo lembrar de supercine. Na minha época, a sessão de sábado à noite era dedicada a policiais violentos com Burt Reynolds e afins e bons suspenses. Não eram tramas bobocas de adultério feitas para a televisão, como acontece hoje em dia. Um pouco de saudosismo não faz mal a ninguém.

Além do mais, o filme é a cara do seu realizador. O clima frio, incômodo... Trilha sonora datada... O artista plástico scanner e suas bizarras instalações... Tudo remete ao tom desesperado e perturbador de um Cronenberg ainda não totalmente maduro. Lembra mais Enraivecida e Videodrome nos acertos e também nos erros. Ignore as continuações e até a promessa de um remake, pois o melhor é mesmo o original. O cineasta evoluiu e muito, mas é fato que Scanners virou referência. Apesar dos contras, ainda vale a pena saber o motivo de tanta badalação!

Ponto Alto: O confronto com um mestre de ioga, que controla os batimentos cardíacos, é deliciosamente kitsch.

Ponto Baixo: Stephen Lack não tem um pingo de carisma.

25 de Março de 2006

The Last House on The Left


Nos Estados Unidos, os anos 1970 foram representados por uma geração que parecia não possuir limites. Abuso era a palavra de ordem. Muita droga, muito sexo, muito rock n’roll. E foi neste contexto libertário que, em 1972, Wes Craven concebeu o violentíssimo The Last House on The Left. E parece distante a época em que um diretor que se transformou no ícone do terror adolescente caça-níqueis mostrou indiscutível talento ao retratar a violência com tanta veracidade.
Na produção, a perversidade segue sua trajetória torta. Os marginais não possuem nenhuma motivação para serem tão cruéis. Não são excluídos sociais, não sofreram traumas de infância, não têm, enfim, nenhuma explicação que sirva como jutificativa para seua atos. Eles, entretanto, não hesitam em expor a pior face do ser humano. E isso vale para todos. O troco das pessoas comuns é planejado de forma tão mirabolante que soa desequilibrado em seu excesso de violência.

O filme é extremamente meticuloso e corajoso em abordar a violência com propriedade e de maneira tão visceral. Entretanto, não é esse excesso gráfico o melhor da produção. O melhor está em compartilhar do abuso desmedido a duas belas garotas ao som de uma bem trabalhada música folk, que pontua magistralmente o impacto das imagens. A fotografia cuidadosamente amadora remetendo ao tom documental, imprescindível ao contexto da obra. O espectador fica maravilhado (e até certo ponto, culpado) diante dos excessos do espetáculo de crueldade. Um espetáculo inacreditavelmente sórdido, mas construído de forma absolutamente autêntica.

Inspirado em A Fonte da Donzela de Ingmar Bergman,o roteiro escrito por Craven centra-se na aniversariante Mari Coollingwood (Sandra Cassel) e sua amiga Phyllis Stone (Lucy Grantham). Duas belas garotas submetidas a todo tipo de barbáries nas mãos de bandidos hedonistas. Elas são cúmplices em confidências bobas e Craven chega a sugerir que Phyllis tenha um carinho mais que especial pela amiga. Affair consumado da pior maneira possível a posteriori. Mari está fazendo 17 anos e parece encantada com as possibilidades abertas pela amiga descolada.
As duas vão à cidade a fim de assistir a um show de uma banda de rock – a “famosa” Bloodlust. Depois de um inocente sorvete, a idéia de um pouco de maconha. Um sujeito diz que tem erva e as convence a subir ao seu apartamento para pegar a droga. Pronto, elas caem na armadilha e agora estão a mercê da gang barra pesada de Krug Stillo (David Hess). O resto da turma é formado pelo filho ilegítimo de Krug, Junior Stillo (Mark Sheffler), o escroto Fred “Weasel” Podowiski (Fred Lincoln) e a vamp imbecil Sadie (Jeramie Rain). Só gente boa!

Eles vão humilhar as garotas pelo simples prazer de vê-las sofrer. O abuso violento de Phyllis ainda no apartamento é o pontapé inicial no círculo de horrores. Na manhã seguinte, a turma parte com as duas no porta-malas do Caddilac conversível 1958. Quando o carro quebra, eles se embrenham com as meninas por uma floresta à beira da estrada. O clímax da barbárie. Krug obriga Phyllis a fazer xixi nas calças (“piss your pants”), faz elas baterem uma na outra, e força uma relação entre as duas. Com a ausência momentânea do chefe do bando, a tentativa desesperada de fuga. O erro fatal, a morte cruel de Phyllis a punhaladas e o estupro e execução de Marie. Sangue, muito sangue. Imagens que ficam impregnadas na retina.

Neste meio tempo, papai e mamãe Colingwood personificam a felicidade irritante nos preparativos para a festa de aniversário da filha. Com a demora de Mari, Dr. John (Gaylord St. James) e Estelle (Cynthia Carr) contatam a polícia. Enquanto os vilões são estereótipos de maldade, os policiais são da imbecilidade. O xerife (Marshall Anker) e o policial Harry (Martin Kove) fazem tudo errado chegando ao cúmulo com a negociação de uma carona. As pitadas de humor, definitivamente, não se enquadram no contexto da obra.

Por fim, os marginais vão buscar abrigo na última casa à esquerda. São bem recebidos pelos Collingwood. Por fim, a vingança dos pais ao descobrirem que estão dando abrigo aos algozes da filha. Famosa castração durante o sexo oral e um dos suicídios mais fortes do cinema setentista. O “blow your brains out” não sai da cabeça. Arrepiante! Armadilhas espalhadas pela casa também parecem coisa de menino travesso e não poderiam entrar em um dos mais sádicos rape e revenge da história. Mas se encaixam sim - tudo é violento demais, obedecendo à proposta deliciosamente absurda.

O filme foi produzido pelo idealizador da série Sexta-Feira 13, o espertalhão Sean S. Cunningham e tem outro adepto da “franquia” como assistente de produção, Steve Miner. Entretanto, Last House é parente mais próximo de outro marco da época: O Massacre da Serra Elétrica. Como no filme de Hopper, há uma mensagem que diz que os fatos apresentados pelo filme são verdadeiros. Entretanto, apesar das semelhanças ainda passarem pelo enquadramento sujo e pela imagem remetendo a uma velha Super 8, Last House é mais explícito e visceral que seu sucessor. O filme de Craven é a melhor representação de uma geração que parecia perdida em seus próprios excessos. Impossível não sair cantarolando The Road Leads to Nowhere (autoria de David Hess) cheio de culpa e ao mesmo tempo maravilhado por ter presenciado tanta brutalidade revestida em autenticidade.

Ponto Alto: David Hess está espetacular. Brutal, irônico e violento. A legítima personificação do mal. Destaque é a breve reflexão após o estupro de Mari.
Ponto Baixo: há uma série de coincidências e situações que são um atentado ao bom senso. Havia um objetivo a ser cumprido e, em vários momentos, a lógica acabou em segundo plano. Faltou um acabamento melhor no roteiro.

20 de Março de 2006

Super Fly


Estilo. Palavra chave para definir o traficante Priest de Ron O'Neal em Super Fly, o filme de definitivo do blaxplotation americano. Priest era o objeto de fascínio e cobiça de todo negro das grandes cidades americanas nos loucos anos 1970. O filme, dirigido por Gordon Parks Jr em 1972, simplesmente criou a identidade cultural de toda uma geração. Uma figura de veneração no momento em que os negros passaram a se aceitar e buscar, na própria comunidade, suas referências. Ultrapassando as barreiras do cinema, o filme traçou um modismo que extrapolou o figurino e cultivou uma forma de pensar e protestar.

Para entender melhor o contexto de Super Fly, uma noção básica da situação dos negros nos EUA. Depois da escravidão, veio a servidão. Foi apenas a partir da metade do século passado que as coisas começaram a mudar. A mensagem pacifista e contestadora de líderes como Martin Luther King e Malcom X começaram a incomodar. Esses viraram símbolos pelo discurso e também pela intolerância com que foram recebidos em um país de origens racistas. Assim, a alternativa foi gritar. Desta leva, veio grupos como os Black Panthers. Conseguiram virar, a seu modo, as costas para a elite branca que, preconceituosa como sempre, se refugiou nos subúrbios com medo dessa auto-afirmação. E essa auto-afirmação veio por meio de representantes que conseguiram extrapolar as barreiras do gueto e se fazerem importante no contexto do país mais rico do mundo. Esportistas, artistas e líderes religiosos conseguiram unir em volta de si a supremacia norte-americana com cabelo black e punhos cerrados em sinal de protesto. Infelizmente não conseguiram chegar aonde queriam, mas foram ouvidos.

Junto com Muhammad Ali e companhia, Priest foi um símbolo do orgulho negro. Um traficante que planeja a grande venda para se ver livre das ruas; tem medo de matar ou morrer. Um milhão de dólares dividido entre ele e o parceiro seria suficiente. Priest é cool por excelência; cabelos na chapinha, bigodão, roupas caras, o Cadillac Eldorado e mulheres à disposição. Ele tem bom relacionamento até fora dos limites do bairro. Bem que essa última condição é contestada por um personagem no final do filme.

Priest está sempre fungando blow, dirige com desenvoltura seu carrão pelo bairro e faz caratê como hobby. No seu mundo, ele é o rei. O símbolo de esperança, uma esperança agressiva, é verdade, mas ainda sim o fôlego em meio à miséria diante da fartura. Um legítimo precursor do movimento gangsta. Orgulhoso da condição de negro, Priest confere um soco na cara de um bandidinho que diz que o seu visual é de branco. O público enlouquece.

Super Fly, no entanto, merece ser contestado ao apresentar um protagonista carismático, mas cruel e amoral. Em um dado momento, Priest diz que caso seu subordinado não lhe pague vai colocar a mulher deste no meretrício, digamos assim. Um herói sacana personificando uma estratégia de imposição social perigosa demais. Os diálogos emblemáticos com Eddie (Carl Lee) simbolizam o toque politizado em uma produção que, por trás de tanto estilo, ensaia um grito de alerta. No debate sobre o último golpe, Eddie resume o sonho americano de sua geração. “Som estéreo, televisão colorida em cada quarto e um pouco de droga à disposição”. A ostentação infantil dos rappers de hoje começou aqui. Combinação explosiva.

Voltando ao aspecto cinematográfico. A premissa é mesmo batida, mas, acredite, isto pouco importa. O que vale é ver Ron O’Neal andando pelo Harlem ao som de Curtis Mayfield em uma das apresentações de créditos mais bacanas da história. Vale ainda perceber a indiferença do protagonista perante tudo e todos. O estilo despojado e arrogante impregna cada frame com uma originalidade ímpar. Originalidade? Parece incrível, mas a estória furada de um bandido no último golpe nunca foi retratada com tanto charme. A energia vem da fusão acertada da extravagância dos anos 1970 e da autenticidade do movimento negro.

Não podemos esquecer que a obra é uma produção explotation, e, dessa forma, não podia faltar os ingredientes básicos do gênero: sexo e violência. E eles funcionam como deveriam, apenas reforçam a mensagem, jamais têm muito destaque. Os elementos se completam de maneira suave, contrapondo-se a brutalidade do racismo. Só a criatividade dessa turma genial poderia fazer de um filme como Super Fly criador de um estilo que influenciaria tantas gerações.

Para dizer que não falei dos cravos, há problemas. Erros vergonhosos de continuidade e outros defeitos que escancaram os recursos escassos da produção. Limitação que fica evidente no momento em que a polícia interroga violentamente Fat Freddie (Charles MacGregor). Detalhes que não arranham a reputação deste marco representativo do movimento negro. Esqueça Shaft e até algumas continuações paralelas e divirta-se com o melhor. Ontem, hoje e sempre – Poder Para o Povo Preto.

Ponto Alto: a trilha sonora de Curtis Mayfield já seria suficiente, mas o próprio soulman cantando Pusherman em uma casa noturna na comunidade é demais. Deslumbrante.

Ponto Baixo: a maneira equivocada em que as mulheres são apresentadas. Esta abordagem deselegante e machista se perpetuou em boa parte da maravilhosa cultura do gueto. Uma pena!

16 de Março de 2006

Do Inferno


A história de Jack, o estripador, em uma versão diferente a partir de uma premissa de história em quadrinhos (o gibi de Alan Moore é ainda mais cruel). Londres do século XIX retratada magnificamente, um protagonista carismático e o controle na mão de dois talentosos gêmeos negros de Michigan. Trata-se de Do Inferno, filme protagonizado por Johnny Depp e dirigido pelos irmãos Hughes. Os gêmeos estavam com a moral em alta depois de filmes como Dead Presidents e o documentário American PIMP. Até curtiram de celebridades depois de uma briga com o rapper Tupac Shakur. Quer dizer, produtores do alto escalão resolveram entregar uma versão agressiva da história de Jack nas mãos de dois politizados diretores negros. Decisão acertada, ao menos para quem gosta de Cinema, com C maiúsculo!

Apesar da narrativa envolvente, da boa edição e das interpretações irretocáveis, o que mais chama a atenção em Do Inferno é a belíssima fotografia e a reconstituição de época. As cenas externas foram feitas em Praga, República Tcheca, lugar perfeito – em termos de luz, cor e sombras – para uma reconstituição fidedigna do bairro barra-pesada de Whitechapel, onde Jack fazia suas vítimas.

Outra escolha acertada dos diretores foi criar um clima incessante de pavor. Um perigo sempre presente e urgente, tudo em meio ao caos da vida miserável de personagens angustiados e assustados. As prostitutas, biscates, viciados, loucos, cirurgiões e demais figuras apresentadas na produção vivem literalmente no inferno. Perspectiva nenhuma, pra ninguém em nenhuma parte.Todos estão desesperados, inclusive os tranqüilos médicos que fazem de seres humanos cobaias em experimentos desagradáveis.É impossível não sentir compaixão diante da situação enfrentada pelos personagens.

Apesar de as concessões com o intuito de tornarem mais acessíveis algumas figuras - principalmente a turma de prostitutas de Mary Kelly (Heather Graham) - comprometerem o charme da proposta original. Johnny Depp brilha novamente e destila seu estilo cool na pele do inspetor Fred Abberline. O cara é amargurado e tenta afogar a dor da perda da mulher e da filha (tudo bem, esse é mesmo um baita clichê) por meio do vício em ópio. O lance é que o detetive é muito inteligente e, além disso, nas bad trips por causa dos efeitos alucinógenos da papoula, acaba tendo visões dos crimes.

A teoria cartunesca para os mórbidos assassinatos de Whitechapel é a de que o príncipe Phillipe ao se envolver com uma humilde doceira estava colocando em risco toda a respeitabilidade da coroa inglesa. O pior é que um rebento já havia surgido do inusitado romance. Solução? Matar quem sabia do romance do príncipe com a plebéia. O principal alvo, um grupo de prostitutas desordeiras do bairro. Como o trabalho deveria ser feito por um especialista, nada melhor que utilizar as vítimas para um detalhado estudo anatômico. Tudo, embrulhado em um exercício estilístico inovador e ousado. Só isso já bastava para colocar Do Inferno como uma produção hollywoodiana bem acima da mediocridade habitual. Mas tem mais.

Existe até mensagem política. Os irmãos Hughes disseram que apesar dos personagens serem todos brancos eles eram os excluídos da época e viviam a margem de uma sociedade ainda mais excludente que a atual. Isso, inevitavelmente, aproxima os personagens dos negros. Boa explicação conceitual que pode funcionar como um atrativo a mais. Entretanto, o quê mais impressiona em Do Inferno é mesmo o visual irretocável. É isso que faz a diferença na simbologia do vulto de um homem de cartola e casaca desaparecendo em meio às ruas molhadas e enevoadas da capital inglesa do século XIX. O maior charme está nesta cara de produção independente falseando um belo exemplar do cinemão. Vale a pena!


Ponto Alto: a sutileza que Depp emprega ao personagem na “leitura” das cenas do crime.

Ponto Baixo: O romance mal desenvolvido e forçado entre Graham e Depp. Simplesmente não existe química.

14 de Março de 2006

A Montanha do Deus Canibal


Uma idéia ingênua e maniqueísta, concebida de maneira divertida. Esse é o cerne de qualquer filme B que tenha dado certo. O ciclo explotation italiano, realizado entre os anos 1970 e meados da década de 80, usou este princípio como nenhum outro segmento cinematográfico. No diferencial, desfiles de imagens violentas, corpos nus e cenas de sexo com energia documental. Seguindo essa receita, A Montanha de Deus Canibal é uma obra singular. No caso específico de corpos nus, simplesmente inigualável: o espectador é brindado com a nudez discreta e madura de ninguém mais, ninguém menos que Ursula Andress.

Isso mesmo, a primeira bond-girl, figurinha fácil em eleições de mulheres mais belas do mundo, apresenta sua nudez madura em duas breves oportunidades. Primeiro, em uma momento voyeur na aldeia de nativos hospitaleiros e no clímax da trama, quando os incautos aventureiros caem nas mãos dos perigosos canibais (homens das cavernas, pra ser mais exato). Musa decadente no auge dos seus 42 anos tirando a roupa em produção B italiana. Isso sim é a magia do cinema.

Como todo filme canibal, a turminha da civilização vai arrumar uma desculpa qualquer para se embrenhar por uma floresta inóspita. E os motivos variam de acordo com a criatividade dos produtores; pode ser a realização de um documentário (Cannibal Holocaust), material para tese de pós-graduação (Cannibal Ferox) ou achar o marido desaparecido. O último caso é o mote deste A Montanha do Deus Canibal, que foi realizado pelo artesão Sergio Martino com competência ímpar em 1978. Neste, a bela Dr. Susan Stevenson (Andress) e seu irmão Arthur Weiss (Antonio Marsina) recrutam o recluso antropólogo Edward Foster (Stacy Keach) para encontrarem o marido dela, desaparecido durante uma expedição na Nova Guiné. A suspeita é que o sr. Stevenson esteja na ilha de Roka, mais precisamente na temida montanha Ra-Rami, suposto abrigo de uma tribo canibal.

A trupe desembarca com alguns nativos feiosos fazendo às vezes de guias em uma densa floresta. Primeiro, o desfile de maldades com animais. E neste campo, A Montanha do Deus Canibal foi bem contundente. Durante toda a projeção, vemos pequenos bichinhos sendo presas fáceis de perigosos predadores. Soou forçado. Voltando ao filme, segue-se à tradição, os pobres guias são as primeiras vítimas humanas. Os coitados caem em armadilhas sangrentas e o trio “branco” sobrevive da emboscada realizada por um nativo mascarado, pois são ajudados pelo aventureiro Manolo (Cláudio Cassinelli). Cassinelli foi aquele ator que morreu em 1985 devido à queda de um helicóptero durante as filmagens de um filme do mesmo Sérgio Martino. Uma pena.

Manolo vive em uma tribo hospitaleira que faz festa para receber os novos visitantes. Na festa, as mulheres fazem uma massa branca e a fermentam com cuspe. Explotation bom é assim, tudo pode ser usado para causar mal estar no espectador. Engraçado é constatar que Edward acaba encontrando seu pai em meios aos nativos. Isso mesmo, o pai do antropólogo largou tudo para poder viver junto às comunidades que aprendeu a valorizar. Lógica realmente não é o forte da produção. No meio tempo, um affair inusitado surge entre Susan e Manolo. Até o chatíssimo Arthur faz às vezes com uma bela nativa, mas a menina é assassinada na hora do bem-bom, em um atentado de um nativo mascarado. Na perseguição ao assassino, Edward é ferido na perna. Devido à confusão, os três forasteiros e Manolo têm de deixar a tribo e partir em uma jornada rumo a montanha Ra-Rami. Esta seqüência remete ao clássico Amargo Pesadelo, com direito a quebra de canoa em quedas d’água e parceiro ferido atrapalhando a travessia. Uma reviravolta por conta de ambição e, enfim, o ataque dos homens da caverna.

Um espectador afoito pode ser irritar pelo fato dos canibais só aparecerem mesmo no final da trama. No entanto, não há motivo para preocupação, o show de horrores a partir daí é um dos motivos, juntamente com Ursula Andress, que perpetuaram a fama da produção. Destaque para o visual interessante dos nativos e a perfeita ambientação em uma caverna gigantesca, escura e fúnebre. Neste ambiente irretocável, Suzan é adornada e posta como objeto de adoração da tribo. Pausa para a famosa cena da orgia com direito a uma estranha cena de zoofilia com um imenso porco selvagem. Reza a lenda que Martino não queria a inclusão destas cenas, mas elas entraram por ingerência dos produtores. Realmente soam forçadas, mesmo para um legítimo representante do explotation. Há ainda a engraçada morte do nativo-anão e cenas de castração e canibalismo (obviamente!) completando o menu. O final aberto encerra o espetáculo.

À primeira vista, parece que A Montanha do Deus Canibal é ruim; e realmente tinha tudo para ser uma bomba no melhor estilo Bruno Mattei. Mas não, Martino é esperto e entregou uma aventura divertidíssima. O segredo está na edição ágil em ritmo de aventura e na aposta acertada em personagens carismáticos. Apesar dos excessos, a produção acerta em quase todos os segmentos propostos. O filme é engraçado em alguns momentos, erótico em outros, violento em algumas passagens, causa apreensão e angústia em certas cenas etc. Esta aventura, que traz uma bond-girl de peito aberto (literalmente), é exemplo fundamental do bom cinema extremo europeu dos anos 70. Diversão sem meios termos.

Ponto Alto: a presença inabalável de Stacy Keach como Dr. Edward Fosters e seus traumas por experiências “antropológicas” anteriores. Carisma e canastrice em proporções exatas.

Ponto Baixo: Surge um galho artificial no fotograma e depois a cobra aparece atacando o macaquinho, que luta pra se ver livre do predador. A câmera cruel registra tudo. Seria mais um episódio rotineiro no mundo animal da Nova Guiné, caso aquele “galho artificial” no fotograma não fosse um recurso pra esconder a madeira que empurra o macaquinho para o fim extremamente cruel. Recurso horroroso e reprovável.

11 de Março de 2006

O Crime do Padre Amaro


Que filme superestimado é esse tal de O Crime do Padre Amaro? Levou milhares de mexicanos ao cinema e recebeu até indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro como filme estrangeiro. Alguém poderia explicar porque essa novela mexicana dirigida com mão frouxa por um tal de Carlos Carrera foi tão exaltada. A explicação óbvia para esse sucesso comercial deve-se a polêmica de cartas marcadas que levantou em um país tradicionalmente católico (a publicidade gratuita de grupos católicos mexicanos que eram contra a exibição do filme). Tal qual ocorreu - em menor proporção, obviamente - quando Dogma do Kevin Smith iria estrear nos cinemas de Brasília. Na ocasião, um deputado católico quis proibir a exibição. Não conseguiu e apenas trouxe publicidade a uma produção que, em condições normais, passaria despercebida. Mesmo caso deste O Crime do Padre Amaro.

Realmente, qualquer filmeco com interesse comercial que finja ir contra tradicionais setores da sociedade ou tenha um verniz artístico – neste caso, a obra de Eça de Queiroz - serve para ludibriar um público impressionável por natureza. As pessoas acham que viram um filme autoral; um legítimo representante da cultura latina. Pura balela, a produção caprichada só comprova o interesse comercial de uma obra ridícula, que desperdiça uma idéia interessante.

É certo que a boa premissa na qual padre Amaro (Gael García Bernal), recém-chegado a uma cidade interiorana e tradicional, tem um caso com a bela devota Amélia (Ana Cláudia Talacon) não é novidade pra ninguém. Assim, o roteirista Vicente Leñero resolveu focar nos podres clericais. Há padres ambiciosos, ardilosos, bêbedos, ligados a narcotraficantes e a guerrilheiros e, é claro, sacerdotes que são amantes insaciáveis. Afinal trata-se de um filme latino e o mundo sabe que nós, latinos, temos o sexo como prioridade máxima das nossas vidas. A corrupção na igreja e a agressão descontextualizada a símbolos religiosos fazem a denúncia do filme algo simplesmente banal e, por isso mesmo, pouco crível.

A originalidade e o atrevimento do romance original foram simplesmente desperdiçados em uma trama pouco envolvente. O filme não desperta real interesse em nenhum momento. Sem falar que a direção de Carlos Carrera é insegura, isso para dizer o mínimo. O melhor exemplo dessa falta de traquejo está no cerne da estória: o envolvimento do casal principal. O romance é tão mal estruturado que acaba soando falso. Acompanhamos as subtramas envolvendo as tramóias sacerdotais e sem mais nem menos o casal está apaixonado e choramingando juras de amor eterno.

A culpa, o remorso do sacerdote diante de uma situação tão delicada, não são explorados com a devida intensidade. O padre não acredita na castidade e diz que só fez o voto porque foi obrigado e pronto, não se fala mais nisso. No livro, o mote é justamente esse. E o pior é que a proposta de expor as mazelas da igreja jamais parece realmente satisfatória. São falsetes pouco atrevidos, como se a igreja tivesse motivos nobres por trás de tudo. O superior de Amaro, por exemplo, padre Benito (Sancho Gracia) mantém relações com narcotraficantes para financiar a construção de um hospital para os necessitados. Nossa, que banho de realidade!

Nessa linha, o pior é ver o roteirista e o diretor enterrarem as possibilidades de um personagem com tanto potencial como o padre Natalio (Damián Alcazar). Socialista por convicção, este é acusado pelas autoridades clericais de fazer uso da Teologia da Libertação e lutar ao lado de guerrilheiros. Bacana, né? O problema é que a única função relevante de Natálio no filme é aconselhar Amaro em um momento crucial da trama. Desperdício, que simplesmente ridiculariza toda a forte tradição esquerdista dos latinos americanos. Só a título de comparação, vale lembrar que em E Sua Mãe Também, um dos personagens tem uma irmã ligada a movimentos sociais e a sátira de Cuarón (feita em não mais que dois minutos) aos socialistas latinos é bem mais eficaz.

Existem ainda outras situações mal desenvolvidas, como a de um pobre homem que padre Amaro ajuda quando o ônibus em que viajam é assaltado, logo no início do filme. O senhor aparece no final da trama, mas ninguém sabe como e por quê. Vamos dizer que ele fecha um ciclo na vida de padre Amaro, pois este entrou na cidade dizendo que sua intenção era servir a Deus, mas se corrompe de tal maneira, que logo se questiona sobre a veracidade de sua fé. Legal até aí. O problema é que a última cena do filme reafirma essa perdição ao concluir que a igreja continua com toda a pompa, mantida pela hipocrisia e aparência. O ciclo não se fecha naquele momento e, por isso, o personagem do camponês não tem razão de existir. Fraco como cinema e ingenuamente maniqueísta como denúncia, O Crime do Padre Amaro é totalmente dispensável.

Ponto Alto: a direção de arte. Destaque para a composição de Los Reyes, cidade onde se desenvolve a trama.

Ponto Baixo: a interpretação de Ana Cláudia Talacon é discreta demais.

7 de Março de 2006

Cannibal Holocaust


Qualquer pessoa que tenha o mínimo de intimidade com o universo explotation conhece a obra máxima do italiano Ruggero Deodato. O filme causou controvérsia e polêmica em um mundo famoso pelos excessos. O diferencial de Cannibal Holocaust foi apresentá-lo como uma obra real. Um documentário que acabou mal para os realizadores. A câmera tremida, a conclusão incerta e os abusos e punições dos incautos documentaristas reforçam essa concepção de realidade. A idéia é mesmo genial, por isso comparações inevitáveis que continuam até hoje. O exemplo mais fácil é mesmo Bruxa de Blair. Os produtores negam veementemente, mas que a coisa parece plágio, isso parece.

Cannibal Holocaust nos remete a origem desses deliciosos filmes feitos na década de 1970 e 80 apenas para agredir, mexer com o estômago dos espectadores. Pareciam não ter limite na tentativa de chocar os incautos. O interesse de quem produz explotations (os italianos ainda são insuperáveis, se bem que os orientais não fazem feio) é apenas um: dinheiro. Não tem mensagem política, conscientização, dever social, nada disso. Dizem que Holocaust lança aquela velha máxima de quem são os verdadeiros canibais. E quem levou a sério uma mensagem tão “profunda”? O objetivo, na verdade, é chocar o público para trazê-los ao cinema e, dessa forma, lucrar para produzir mais filmes. Motivo pouco nobre? Ao contrário, na verdade apenas um pouco de autenticidade. Assumir sexo e violência como a fórmula do sucesso. Bem mais honesto que os lobos em pele de cordeiro da indústria cinematográfica americana.

Sabe o que mais chama a atenção em quem aprecia o gênero maldito? A criatividade e a inteligência para driblar os recursos escassos. É neste sentido de improvisação que está a grande paixão. Às vezes a coisa fica somente apelativa e sem um viés satisfatório de interesse, mas quando as peças se encaixam, a impressão é que estamos diante de uma obra única. Concebida tão como o idealizador a imaginou. Isso é uma satisfação não só para os realizadores, mas também para quem aprecia o gênero. Por mais incrível que possa parecer, o acabamento técnico das produções é, na maioria das vezes, bem realizado. Música, fotografia e efeitos nos fazem esquecer que estamos diante de uma produção modesta. E os italianos são insuperáveis neste quesito.

Juntando todos esses elementos, Cannibal Holocaust é mesmo um marco do explotation. Realizado em 1979, sob a batuta de Deodatto, acompanhamos um desfile de excessos que nunca parecem “desagradáveis”. Logo na abertura, os acordes maravilhosos de Riz Ortolani e uma visão aérea da imensidão amazônica. Coisa fina! Depois, somos apresentados ao conceituado professor Harold Monroe (Robert Kerman, fez vários filmes pornôs). Famoso antropólogo de uma universidade nova-iorquina, Monroe tem a missão de ir atrás de quatro jovens que desapareceram ao se embrenharem pela floresta amazônica (Inferno Verde) a procura de personagens pitorescos para realização de um documentário. Depois de alguns contratempos, como ser recepcionado por militares nada hospitaleiros, presenciar um estupro violento e tomar banho com uma porção de nativas ousadas, o herói se depara com um monumento ornado por rolos de fita. Parece que o material pertencia ao grupo. Monroe, então, volta à civilização pra desvendar o mistério. Não sem antes desfrutar uma refeição de procedência duvidosa.

Em Nova Iorque, ao desbaratar os rolos, o professor tem contato com o material que revela o paradeiro do grupo. No suposto documentário feito pelos quatro desaparecidos está o fascínio de Holocaust. Ficamos sabendo que Allan Yates (Gabriel York), Jack Anders (Perry Pirkanen), Mark Tomasso (Luca Barbareschi) e a bela Faye Daniels (Francesca Ciardi, que para alegria da galera não economiza na nudez) são na verdade um grupinho de sádicos. Ao entrar na floresta, eles protagonizam barbáries diversas, como desmembrar uma tartaruga, matar o guia ao improvisar uma amputação e humilhar de todas as maneiras os nativos. Tudo sempre com o registro trêmulo da câmara na mão. Eles chegam ao cúmulo da filha-da-putice quando estupram uma garota e depois ficam zombam da mesma, agora empalada em uma estrutura de madeira que atravessa o ânus e passa pela boca. Ao que tudo indica, ela foi punida por ter perdido a virgindade, mesmo sendo um ato forçado. Para reforçar o tom documental, as imagens têm perspectiva subjetiva e trechos com falhas de edição.

Por fim, uma certa expectativa para a exibição da chocante reviravolta. Os forasteiros são encurralados e a tribo canibal parte para a aguardada vingança. E esta é imbatível. A cena não dura mais que dez minutos e foi realizada de maneira tão realista que faz o espectador questionar a veracidade do material. Maravilhosamente chocante. Entretenimento de primeira qualidade é isso: independente, barato e ousado! A obra continua inigualável como os próprios italianos mostraram em uma série de imitações a posteriori. Ah, os americanos também tentaram, mas sem um pingo do charme do original.

Ponto Alto: nas barbaridades dos documentaristas com os canibais, a queima das cabanas é um momento inesquecível. Cruel, a cena ganha o tom exato na música melancólica de Ortolani que invade todos os espaços. Muito bom!

Ponto Baixo: Faye Daniels mereceria melhor sorte no desfecho da trama. Sentia-se desconfortável com os abusos dos colegas, mas, mesmo assim, recebeu punição severa. Coitada, tão linda!

OBS: alguém sabe dizer se entre as imagens de brutalidades em guerras civis há trechos do clássico AFRICA ADDIO.

5 de Março de 2006

Pixote - A Lei do Mais Fraco


A história de Fernando Ramos da Silva é realmente uma expressão inconfundível da intolerância e hipocrisia da sociedade brasileira. Depois de protagonizar a obra definitiva sobre a delinqüência juvenil no Brasil, o garoto foi morto em 1987 em São Paulo. Ele tinha 18 anos de idade e apesar da fama repentina não conseguu se desvencilhar da deliqüência. Assassinato até hoje mal esclarecido; as maiores suspeitas recaem sobre policiais, desafetos do garoto. A simbiose perfeita entre ficção e realidade. O neo-realismo levado às últimas conseqüências. Tornou-se caso pitoresco, nota em caderno policial. Talvez uma página inteira de segundo caderno em algum grande jornal paulistano e, com sorte, alguns trabalhos acadêmicos. País ingrato sempre enaltecendo os medíocres e ridicularizando quem realmente importa. A interpretação ingênua lhe rendeu um lugar na eternidade. Ele tem o papel mais intenso de toda a cinematografia nacional. Esqueça as alegorias personificadas do cinema novo e pagadores de promessa, Fernando Ramos é absoluto! O número um.

Dizem que o filme é comparado a Os Esquecidos, que se eu não me engano foi um que Luis Buñel realizou com crianças mexicanas. Vamos dizer que Pixote apenas seguiu uma trilha aberta pelo cineasta espanhol. O uso de garotos de rua como atores foi apenas um dos fatores que trouxeram reconhecimento ao filme brasileiro. Pixote é contundente como alarme social e irretocável como construção cinematográfica. Hector Babenco nunca se repetiu e dificilmente se repetirá com tanta veemência.

Inspirado no livro a Infância dos Mortos de José Loureiro, o roteiro escrito por Babenco e Jorge Duran mostra sem falsetes a trajetória maldita de um garoto de 10 anos, apenas um dos muitos filhos de uma ninguém na periferia de São Paulo. Pixote é lançado à própria sorte em um reformatório junto com outros amigos de rua depois da morte de um desembargador em um assalto mal sucedido. A faxina nas ruas ressalta que a vida de alguns tem mesmo mais valor.

Sob a turma de Pixote recai a suspeita. Nas mãos de Sapatos Brancos (Jardel Filho, sensacional), os pequenos delinqüentes enfrentam as ingerências de um sistema feito para destruir. Apesar da pouca idade, Pixote mostra habilidade e ousadia para sobreviver em um universo com tantas hostilidades. A lei do mais fraco (ironia sobre a proteção legal aos menores de 18 anos) nunca se mostrou tão ridícula. Os parceiros são cruéis. Em um primeiro momento, o estupro de um garoto causa indignação. São monstros de verdade, bestas sociais! Visão maniqueísta que exorciza as mazelas de uma sociedade desesperada para apontar culpados.

Com o passar do tempo laços de amizade se formam na “prisão” juvenil. Pixote recebe atenção de Fumaça (Zenildo Oliveira Santos), garoto boa-praça que ao dividir um baseado com o pequeno parceiro expõe a carência infantil em sua face mais agredida. Entretanto, Fumaça vira o bode expiatório. Executado, a mãe desesperada lança a polêmica na imprensa. Rebeliões nos reformatórios e a fuga de Pixote e seus parceiros pontuam a trágica epopéia. Distantes de qualquer tipo de amparo, Pixote, Chico (Edilson Lino), Dito (Gilberto Moura) e Lilica (Jorge Julião) vão lutar pela sobrevivência em um lugar que não lhes oferece nada a não ser a palmatória.

Parênteses para uma reflexão sobre Lilica. No início, a porta para o preconceito óbvio fica escancarada diante do dublê de travesti de 17 anos. Mas se fecha com contundência ao mostrar a maturidade precoce de uma criança que ao assumir a homossexualidade nas ruas a faz com autenticidade. Esperta, dissimulada, protetora e acolhedora, Lilica se torna a peça fundamental do grupo de jovens errantes. Dito, seu homem, é quem faz às vezes de chefe, mas é Lilica quem arma todos os esquemas. Emocionante é acompanhar a interpretação improvisada de Força Estranha do Caetano em uma praia carioca “Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo...”. Forçada em princípio, a cena não resiste ao encantamento de uma segunda oportunidade.

Em 1980, a coisa não era fácil nas ruas da imensa metrópole e o grupo se envolve com gente, como o traficante blackcool Cristal (Tony Tornado). Na passagem pelo Rio de Janeiro, Dito faz o grupo cair em um golpe da picareta Glória (Elke Maravilha). A fuga da cidade maravilhosa deixa para trás Chico e seu anseio de comprar uma arma pra poder se vingar do policial que o torturou no reformatório. Sonhos comprometidos pela realidade. Por fim, os três sobreviventes armam golpes nos incautos clientes da prostitua Sueli (Marília Pêra). A mulher desinibida e amargurada tem nas crianças soluções para suprir todas as ausências – amante (Dito), desafeto (Lilica) e, obviamente, filho (Pixote). Depois de vomitar a condição de marginal, Pixote encontra no seio da prostituta uma oportunidade de desfrutar da fragilidade da infância. Pietá miserável e fundamental. Antes disso, uma pista ainda no reformatório quando Pixote fica deslumbrado diante da imagem de Nossa Senhora entrega o desespero pela ausência do amor materno.

Pixote alcançou o reconhecimento. Marília Pêra foi eleita melhor atriz do ano pela associação dos críticos de Nova York. Prêmio merecido pra um entrega tão expositiva e sem jamais soar enganosa. Festivais de cinema mundo afora também trouxeram fama para as auguras da infância perdida. Uma revista francesa chegou a colocar a produção como a terceira melhor da década de 1980, perdeu para Fanny e Alexandre (Bergman) e Ran (Kurosawa). Hector Babenco não é mais o mesmo, os garotos continuam anônimos e o resto do elenco ainda vivo luta pra sobreviver em trabalhos fáceis. No entanto, Fernando Ramos da Silva passou incólume por todo o processo de pasteurização do filme. Para esse garoto genial, apenas nossa reverência.

Ponto Alto: o personagem Roberto Pé-de-lata. No reformatório, o garoto enaltece o ídolo em uma apresentação no dia de visitas.”Eu sou o Roberto Carlos dos pobres...”, vocifera com os olhos fechados. A perna mecânica é, com certeza, uma das ironias mais inteligentes da história do cinema brasileiro.

Ponto Baixo: difícil acreditar em uma imprensa responsável e denunciativa. Hoje é um enfadonho jogo de interesses, imagine no início dos anos 80, com o Brasil sob a batuta de um general.

2 de Março de 2006

Antes do Amanhecer/ Pôr-do-Sol



Quem nunca conheceu alguém atraente com o papo fluindo de forma tão sutil, que as frases eram entendidas antes do fim. A sensação de descoberta e intimidade no mesmo momento. As pessoas precisam ter uma grande afinidade para a coisa fluir de maneira tão fácil. Encontros assim são raros, mas acontecem. Quem já passou por isso sabe que é uma sensação fantástica. Pois é sobre um papo gostoso que trata a pequena saga idealizada por Richard Linklater. Como protagonistas, os bacanas Ethan Hawke e Julie Delpy.

Antes do Amanhecer/Antes do Pôr-do-sol são produções hollywoodianas, mas fogem da sacarose ao optar por um viés inteligente. Ao invés de trampolim pra alguma atriz-cantora emergente, a saga de pouco mais de três horas é recheada de diálogos fluentes e merece destaque por fugir do lugar comum. A situação pode parecer inusitada, mas, acredite, soa verossímil. A estória de amor jamais deixa de ser convencional, mas com uma abordagem tão interessante torna-se, simplesmente, bonita. Fórmula simples e eficiente.

O casal se conhece no verão europeu em um trem, que vai de Budapeste a Viena, e decidem descer na capital austríaca. Na verdade, o americano boa-praça Jess (Hawke) convence a bela francesa Celine (Delpy) a lhe fazer companhia na cidade, pois o avião para os EUA só sai no dia seguinte. Eles passeiam, namoram, bebem, comem, se divertem, sorriem e conversam muito. Falam como pessoas comuns, lançam idéias sobre religião, cultura, problemas sociais, anseios, perspectivas profissionais e, obviamente, amor.

Eles estão com pouco mais de 20 anos e idealizam relacionamentos, contam sobre experiências mal sucedidas, apresentam frustrações amorosas etc. E o espectador torna-se cúmplice deste envolvimento. Tem de ser muito resistente pra não se identificar com personagens tão carismáticos. O quê mais aproxima o espectador é a maneira despojada em que o diretor (e também roteirista) Linklater conduz a trama. Apesar do filme ser centrado no casal (em tela o tempo inteiro), em raros momentos soa exagerado ou teatral. Neste caso, acho que a decisão acertada foi usar atores, digamos, do segundo escalão hollywoodiano. Apesar de protagonizar um filme ou outro, Hawke e Delpy são coadjuvantes de luxo na engrenagem mainstream. Apesar do respaldo comercial, eles não têm (não podem) ter a vaidade dos grandes astros. Neste caso, um fator imprescindível para a empatia com o público.

Voltando à trama, apesar de terem dito várias vezes que o momento era só aquele e que não teriam uma segunda oportunidade, ambos se entregam no fim. O casal se despede na porta do trem com a promessa de se encontrarem na mesma cidade em seis meses. Neste momento, a angústia da despedida esboça uma pieguice. No entanto, Linklater logo se redime ao nos apresentar os lugares em que o casal passou o dia, agora vazios. Aqueles espaços são importantes e têm algo especial, pois os dois o tornaram especial. O clima é saudoso.

Nove anos depois, sabemos que Jess escreveu um livro sobre o encontro e o está divulgando em Paris. Celine aparece. Um passeio é inevitável. Eles estão mais maduros, as rugas já deixando marcas. Jess agora está casado, no estilo mais estabilidade que paixão, e Celine se formou em ciências políticas e trabalha pra uma ONG de causas ecológicas. Apesar do segundo filme continuar com o foco no casal, o destaque desta vez é a personagem de Delpy. Jess passou a ser um sujeito comum e estável sem ser dado a grandes rompantes. Não tem mais o vigor da juventude. Celine, por sua vez, é descolada e inteligente, mas extremamente insegura. Ainda está na luta e gosta de viver. Ela se sente desconfortável com a estabilidade do amigo. Uma personagem maravilhosa, com sua força abalada pelas incertezas. Nenhum ranço machista, como se a mulher precisasse de homem pra ser feliz. Longe disso, a idéia é compartilhamento e, acima de tudo, autodescoberta.

O roteiro escrito por Linkaler, agora em companhia do casal de atores, sugere que Celine se tornou difícil, pois não soube encarar a importância da experiência que viveu em Viena. Ela tentou acreditar que aquilo foi só um momento, tanto que enquanto Jess apareceu em Viena seis meses depois, Celine não pôde ir. Ele escreveu um livro sobre o assunto, ela fez uma canção sobre o encontro, mas insiste em dizer que a valsa são para todos os seus encontros furtivos. Lógico que isso é exagerado, pois o romance de um dia não poderia deixar tantas cicatrizes assim, ainda mais se tratando de pessoas tão espertas. Mas é esse o nosso ponto em comum com os personagens.

Celine, em minimizar a importância daquele momento, se anula. Jess encarou os fantasmas e agora está mais seguro. Ele mesmo diz em um momento que era inseguro quando jovem. Celine, por sua vez, jogou a situação pra debaixo do tapete e agora tem de enfrentar uma pessoa que mexeu tanto com seus sentimentos. A garota insiste em incomodar o parceiro com tiradas que procuram desmentir o óbvio. Ela procurou Jess (ou ao menos um pouco dele) em cada parceiro que abria a possibilidade de um novo relacionamento. Ela sabe disso, apenas não pode admitir.

E assim, entre belas paisagens parisienses ao cair da tarde, o filme se desenrola neste jogo em que ela tenta ludibriar e maltratar o companheiro pelo fato deste aparentar ter superado a história. No entanto, tudo parece fazer sentido no desfecho no apartamento. Celine faz uma caracterização inesperada de Nina Simone e, neste instante, percebemos que eles não são mesmo tão parecidos assim. Depois de tanto em tão pouco tempo realmente não poderia dar certo. A antítese de toda a obra.

Uma trajetória que merece ser conhecida por simplesmente tentar fugir do óbvio. Os dois filmes são cheios de detalhes, cacos de diálogos que fazem sentido em um contexto puramente cotidiano. A mensagem é desfrutar o momento e não pensar na efemeridade daquele instante. Recomendado para quem ainda não muda de calçada quando aparece uma flor!

Ponto Alto: A fotografia reforça a beleza das cidades, que por si só são personagens da estória.

Ponto Baixo: Os personagens falam muito e é essa a idéia do filme. Há muita troca de olhares e gestos delicados e expressivos, entretanto, um pouco de silêncio fez falta. Sutilezas sugeridas, e não cumpridas.

28 de Fevereiro de 2006

Barra Pesada


O dramaturgo paulista Plínio Marcos alcançou merecido destaque ao passear com desenvoltura pelo universo sombrio dos miseráveis brasileiros. Sua obra mais famosa – Dois Perdidos Numa Noite Suja retrata bem a dificuldade enfrentada pelos que estão à margem da sociedade em um país pobre como o Brasil. Personagens perfeitos escondido em tocas imundas dão o colorido ideal à imunda sarjeta. Nessa linha, há um trabalho do escritor intitulado Quebradas da Vida, que serviu de base para Reginaldo Faria trazer a tona uma pequena obra-prima marginal da nossa cinematografia – Barra Pesada. As aventuras de Queró - filho de prostituta, nascido e criado em zona boêmia do Rio de Janeiro - é um símbolo do melhor que o cinema nacional tem a oferecer. Personagens fortes e cruéis, amores desamparados, desesperança, amargura, violência, amizade e, é claro, muito bom humor. Enfim, uma ciranda de valores, sentimentos e obsessões que expõe o pior (e o melhor) do Brasil.

O roteiro, escrito por Reginaldo Farias, gira em torno de Queró (Stepan Nercessian), pivete inexpressivo no concorrido mundo marginal carioca. Ele vive de pequenos roubos e golpes em turistas na companhia do inseparável amigo Negritim (Cosme dos Santos). Ao desafiar um malandrão numa partida de sinuca, complica-se de vez ao ter que levantar um bom dinheiro até o dia seguinte. Os pequenos assaltos não rendem muita coisa e o pior é que a dupla é extorquida por dois informantes da polícia. Tudo vai mal e ele jura que se tivesse uma arma, conseguiria sair daquela mediocridade que não lhe garante respeito no próprio ambiente. O momento de destaque nesta apresentação do protagonista é o roubo cruel a Naná, empregado-faz-tudo na casa do meretrício. Queró espanca a vítima como se quisesse se vingar de todos os que o subjulgam. O homossexual carente a sua frente é, por incrível que pareça, pior que ele. É um dos raros momentos na vida em que se sente superior a alguém. Extrapola a condição de humilhado e vira algoz. Não sabe lidar com a situação e o reflexo é uma explosão desnecessária de violência.

A vida de Queró começa a mudar, quando o objeto do desejo, “a draga”, aparece reluzindo nas mãos do traficante meia-boca Xupinha. Oportunidade única. O assassinato e a série de reviravoltas que se seguem o encorajam a mudar de vida. Apesar do esforço da fuga constante, Queró sente pela primeira vez o prazer de ser importante, de valer alguma coisa. Mesmo assim, o conflito com o novo estilo se resume na pergunta macabra da nova companheira, a prostituta Ana (Kátia D’Angelo): “Você sabe que é trouxa, né?! O rei dos trouxas!”. O padrão de vida mais sofisticado não faz Queró perder a essência de desamparado. Continua mané, mas agora é o alvo principal dos dois principais traficantes do submundo carioca e também da polícia. A situação fica difícil. Acuado, se refugia em um terreiro de macumba. O desfecho é um espetáculo.

O filme não é realmente agressivo e não chega a ser incomodo. Tem uma narrativa até certo ponto confortável, sempre pontuada por um humor legítimo. Essa leveza na construção alivia em parte o impacto desta obra singular da filmografia policial brasileira. Isso é detalhe menor perto de Milton Moraes, Wilson Grey e Lutero Luiz como legítimos representantes da vida cafajeste brasileira. Barra Pesada é pra ser visto e revisto com a despreocupação de uma época em que o cinema brasileiro não soava hipócrita ao retratar a realidade.

Ponto Alto: o leal Negritim (Cosme dos Santos). Ele personifica a ponta de bondade e cumplicidade em um universo sem perspectiva. Engraçado constatar como Cosme dos Santos não envelheceu nada de 1977 pra cá.

Ponto Baixo: a fotografia é cuidada demais. Em alguns momentos, sente-se falta daquela estética escura e suja.

26 de Fevereiro de 2006

O Seqüestro


Em 1973, o seqüestro do garoto Carlinhos chocou o Rio de Janeiro. O despreparo da polícia e a participação lamentável da imprensa no caso o deixaram sem solução. Até hoje ninguém tem notícias do menino. Foi uma história policial atípica e de muita repercussão. Para início de conversa, a maior suspeita é a mãe do garoto. Segundo uma das versões, ela teria forjado o seqüestro da criança juntamente com um pai-de-santo, seu amante, pois pretendia fugir e queria a companhia do filho. Dizem que ela tinha verdadeira adoração por Carlinhos. Entre os fatos pitorescos, reza a lenda que era extremamente exibicionista e quando o circo de jornalistas e curiosos se formava em frente a sua casa, gostava de se exibir na janela com roupas sensuais. Julgaram-na como louca.

Outro fato que chamou a atenção foi a participação infame da imprensa no caso. O seqüestrador deixou uma carta pormenorizando os procedimentos do rasgaste. Depois de uma negociação até hoje mal explicada, a carta acabou sendo publicada ainda no mesmo dia em um grande jornal. Resultado: no dia combinado para a entrega do resgate, havia uma multidão a espera da negociação. Pipoqueiros e carrinhos de cachorro-quente completavam o circo. A participação da polícia (Delegacia do Catete) também tem destaque. Negativo, é claro!

Enfim, a história virou livro e dava um filme. E foi isso que aconteceu. A sempre oportunista produtora Vydia aproveitou o mote e entregou um dos trabalhos mais irônicos da cinematografia nacional. Trata-se de O Seqüestro, realizado em 1980 sob a batuta de um dos sócios da produtora, Victor di Mello, e com a presença inevitável de Carlo Mossy. Antes dos créditos vem a mensagem ocupando toda a tela “Os personagens e episódios desta história são fictícios. Qualquer semelhança, se houvesse, seria lamentável coincidência”. Depois a bela música tema de autoria de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. Começa o show. Somos apresentados a uma delegacia em uma noite comum de trabalho. A fauna é formada pelo delegado-chefe Marcondes (Jorge Dória), subdelegado Marcola (Milton Moraes) e o agente Vilarinho (Mossy). Eles ficam sabendo que um garoto foi seqüestrado em Santa Tereza. Detalhe, a polícia fica sabendo por meio da ligação de uma pessoa que viu pelo noticiário da televisão.

Aí tem início a série de desencontros e desinformações sobre o paradeiro de Zezinho. Cada personagem ligado ao garoto parece esconder algo. Pedro, o pai, comerciante (diz-se industrial) de uma empresa de couros na Baixada, não vai bem nos negócios, mas tem uma Brasília novinha. E as contradições não param por aí. A mãe de Zezinho, Dona Fátima, uma pacata dona de casa, não vive bem com o marido e revela que este, apesar de não dar assistência financeira à família, possui três carros. Como se percebe, além do alívio financeiro, o caso pode ser uma situação única para armar contra antigos desafetos. Fátima é, na verdade, ninfomaníaca e, por esses e outros motivos, o casamento não vai lá muito bem. Até os empregados da empresa de couro e, logicamente, a polícia têm a ganhar com a repercussão causada pelo desaparecimento de Zezinho.

Como bons estereótipos dos brasileiros, todos enxergam no seqüestro uma oportunidade de levar vantagem. Entre contradições e ironias, o filme vai se levando com algumas cenas fortes e que fogem do contexto sacana da produção. A sessão de tortura a que o delegado Marcondes submete a mulher de um suspeito é desnecessária. A sutileza da sugestão agride mais e se encaixa melhor na proposta de O Seqüestro. Duas passagens confirmam essa tendência. O acerto para entrega do resgate no Maracanã e a oportunidade oferecida por um banqueiro interessado em explorar a imagem de Zezinho. No desfecho da trama, o golpe fatal aparece em um escrito que novamente ocupa toda a tela: “Este filme é dedicado a Serpico e a todos que tentam fazer da polícia uma instituição digna; capaz de oferecer realmente segurança a todo e qualquer cidadão”. Realmente uma tragédia à brasileira. Vale a pena conferir.

Desta vez, o ponto alto e o ponto baixo foram escritos obedecendo à lógica canalha brasileira.

Ponto Alto: Dona Fátima é linda. A nudez desinibida da musa Helena Ramos é um colírio. Desnecessariamente imprescindível.

Ponto Baixo: O chapéu de cowboy foi uma boa sacada. Mas porra, Mossy, traveco não! Aí você acaba com sua reputação, meu querido.

23 de Fevereiro de 2006

Amargo Pesadelo


O talentoso diretor franco-argentino Gaspar Noé diz que buscou inspiração em Amargo Pesadelo pra realizar a cena do estupro de Monica Bellucci em Irreversível. É por essas e outras recordações, que o filme, dirigido por John Boorman em 1972, é um marco para toda uma geração. Mainstream por excelência, Amargo Pesadelo arrancou suspiros na época do lançamento pela originalidade em optar por uma temática que antes era restrita a produções independentes. Hollywood poucas vezes foi tão ousada.

Com elenco afiado e direção competente, Amargo Pesadelo é um dos filmes mais bacanas dos anos 70. Logicamente a áurea transgressora é a principal responsável pelo legado da produção. Apesar disso, o resultado visto somente pelo canal do entretenimento é bem satisfatório. A produção é extremamente bem cuidada. Uma aventura simples, contando com um belíssimo cenário, atuações na medida certa e uma edição ágil e eficiente. Tinha tudo para dar certo. E deu!

Baseado no livro de James Dickey, a trama gira em torno de quatro amigos da cidade que aproveitam para descer o rio Cahulawassee, no estado americano da Geórgia. É uma oportunidade única para entrar em contato com a natureza, uma vez que a área se transformará em uma represa para a construção de uma hidrelétrica.

O grupo, comandado pelo durão Lewis Medlock (Burt Reynolds), vai enfrentar não só os perigos de um rio raivoso, mas a fúria da natureza em sua essência mais brutal. É no momento em que Ed Gentry (Jon Voight) e Bob Trippe (Ned Beatty) se separam dos outros dois que a força da natureza vem à tona. A revolta maldosa é personificada por dois rednecks feiosos. Eles subjugam os amigos e acabam estuprando Trippe, em cena marcante. A solução para o caso sai do controle. As coisas se complicam; os amigos terão que continuar a descer o rio, agora por uma questão de sobrevivência.

A dialética da produção é a ecologia mesmo. A ambição urbana invadindo o espaço da natureza e a vingança desta. É lógico que os protagonistas terão de usar da força bruta e de instrumentos rústicos como o arco e flecha (se bem que a arma é bem modernosa) para fazer valer a lei do mais forte. O clima, ironicamente, é de claustrofobia. Eles estão sufocados pela paisagem exuberante, mas opressora e desconfortável. A fotografia realça a dimensão ridícula do homem perto da força do espetáculo natural.

O ser humano pode dominar os meios, mas é impotente diante da natureza em sua forma primitiva. Uma proposta assim soa vencida nos dias de hoje, mas no começo de 1970, poucos segmentos da sociedade tinham consciência ecológica. A lei era sugar ao máximo sem se preocupar com nada. O filme precisou ser transgressor e explícito pra alertar sobre os perigos indiscriminados do abuso dos recursos naturais.

Mesmo com a diversão e a mensagem politicamente correta, não são as belas paisagens naturais que levaram o filme pra posteridade. O diferencial de Amargo Pesadelo vai mesmo em sua brutalidade e a agressividade. A cena do estupro foi cortada nos cinemas ao redor do mundo, inclusive no Brasil. O baixinho Beatty, muito bem em sua estréia no cinema, sofre a humilhação com a angústia e a incerteza de quem não sabe se aquela situação é real. Um sadismo assustador e que até hoje serve de referência. Seja pelo convencional ou alternativo, Amargo Pesadelo é cinema de primeira. Indispensável.

Ponto Alto: o duelo de banjos (violão e banjo, na verdade) entre o menino deficiente e Drew (Ronny Cox). Antológico.

Ponto Baixo: o desfecho não é lá muito previsível, mas compromete a proposta ideológica levantada pela produção.

22 de Fevereiro de 2006

Ódio


Muitos torcem o nariz, mas é fato que Carlo Mossy é uma referência viva pra quem gosta de cinema brasileiro. Fez filme para todos os gostos, sempre com inovações técnicas (as fotografias de filme são maravilhosas) e esteve sempre à frente do seu tempo com muito sarcasmo. À frente da produtora Vydia, na direção ou como galã, ele fez, a seu modo, a diferença no cenário nacional. Arrisco a dizer que seja um dos nomes mais queridos do cinema “maldito” brasileiro. Não fica apenas nas pornochanchadas que atacavam o fetiche correto do brasileiro. Que garoto brasileiro não pensou em uma empregada ou manicure em noites mal dormidas na adolescência? Entretanto, filmes taciturnos e amargurados como Ódio também são marcos na filmografia de Mossy.

E é essa faceta cruel que estampa todos os frames do realmente “maldito” Ódio, realizado em 1977. A violência sem meio termo explicitada em um roteiro que de tão pessimista provoca angústia. Um filme de vingança que se Tarantino tivesse visto colocaria em par de igualdades com Thriller – A Cruel Picture. Assim como no filme sueco, o clima perverso é capturado por uma inspirada fotografia. No caso brasileiro, a pobreza produz retratos palpáveis.

A estória gira em torno do advogado e professor de direito penal Roberto (Mossy). No auge da carreira profissional, ele presencia e se torna o único sobrevivente da chacina de sua família. Quem lembra de Sob o Domínio do Medo do Peckinpah? Referência imediata. Faça assim, traga isso para um Brasil sujo e depravado. Os sinais de reconhecimento são vários. Algo tão realista que causa uma estranha identificação.

Roberto então abandona o emprego e a esposa e se isola em uma pensão pé-de-chinelo no subúrbio do Rio. Ele não sabe o quê fazer! Rememora o crime, fala pouco, mas a sugestão inevitável da vingança sorri para nosso herói. O sorriso vem de um malandro tipicamente carioca: Toninho (Sérgio Guterrez). Ele personifica o que Roberto mais detestava, um afronte a sua estável vida pré-chacinha. Muito mais parecido com os bandidos, Toninho é o reflexo torto do protagonista.

Dessa forma, Roberto parte para a vingança, mas é uma vingança pouco usual. Quer dizer, o justiceiro extirpa o que há de pior em cada bandido e eles acabam morrendo por conta disso. Um é covarde, outro oportunista, outro hedonista e outro, logicamente, ambicioso. Apesar do confronto com o bandidão Nestor (Celso Faria) ser o clímax do filme e pedir uma ação mais “intensa” do héroi, a morte mais incômoda cabe ao viciado Geraldão (Átila Iorio). O troco no canalha que molestou uma criança vai além das expectativas de Roberto. O justiceiro sente isso com o corpo, a vingança não o conforta. Ao contrário, o advogado se transformou em um dos assassinos de sua família.

Ódio tem problemas sim, com várias situações mal resolvidas e algumas atuações sofríveis. Com certeza não agrada a todos os paladares. Mesmo assim, se trata de uma obra indispensável ao apreciador do cinema nacional, justamente por ir na contramão das produções globais ou do esquemão cinema novo. Um filme que merece ser descoberto e que provocará sensações intensas em qualquer pessoa. Cinema contestador é isso, a menos que o espectador ache que o alerta antidrogas nas novelas é mera benevolência social.

Ponto Alto: a música que pontua todo o filme (Concerto Pour Une Voix).

Ponto Baixo: certas presenças como a de Diva (Marilisi) e do travesti Vanusa (Fernando Reski) são deixadas de lado em detrimentos de outras. Exemplo é a mulher do herói, Clarrise (Fátima Freire), que tem uma participação maior do que deveria.

PS: Esse post é dedicado a minha querida amiga Andréa Ormond. Só tive acesso ao filme por conta dessa menina fantástica! Aliás, peguei praticamente todas as referências da crítica que ela havia escrito no Estranho Encontro. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

12 de Fevereiro de 2006

Beautiful Girl Hunter


Quase todos já ouviram falar de Buio Omega, um dos filmes mais famosos do “maldito” Joe D’Amato. Na obra em questão, realizada em 1979, um jovem bonitão atraía garotas para sua mansão e as submetia a todo tipo de barbaridades. Na verdade, depois de matar as meninas com requintes de crueldade, a forma de se livrar dos corpos que acabava sendo realmente chocante. No filme de D’Amato, o personagem fazia isso como forma de se vingar do mundo pelo precoce fim de sua amada. Buio Omega é um marco incontestável na filmografia de D’Amato. Ainda em 1979, traga isso para um Japão misógino e ainda amargurado pelos traumas da 2ª guerra. Esse verdadeiro murro na cara se chama Beautiful Girl Hunter e foi dirigido por Norifumi Suzuki, famoso por nunexplotations nipônicos, como School of the Holy Beast.

Pra usar um eufemismo, Beautiful Girl Hunter é amoral. Uma obra ímpar de crueldade e machismo como poucas vezes o cinema teve capacidade de produzir. Trata-se de um filme essencialmente perturbador e com fins discutíveis, mas que como cinema é muito bem acabado. A trama idealizada por Massaki Sato e roteirizada por Jiku Yamatoya se passa na cidade de Akita, onde um jovem rico e órfão Tatsuya Jinno é simplesmente a personificação do mal. Charmoso, ele monta emboscadas a fim de prender jovens garotas no sótão de sua confortável mansão. No calabouço medieval de torturas, ele as submete a um doloroso e extremamente cruel método de “reeducação”. Motivação? Bem, ele descobre que na verdade é filho de um assaltante escroto, que estuprou sua mãe durante um roubo. Conclui, então, que o mal está no sangue e vai punindo suas vítimas pelos motivos mais fúteis possíveis.

A primeira vítima é Saeko – uma gueixa sem vergonha usada pelo pai adotivo para humilhar sua mãe. Vamos dizer que para uma mente doente, a motivação é plausível. Ele perde a virgindade com ela e depois de mantê-la amarrada no calabouço a mata de maneira plástica durante uma festa. Norifumi ainda oferece uma angustiante cena de necrofilia. A segunda vítima é a estudante Kiyomi que faz um discurso pacifista na TV. O problema é que ela cede aos encantos do rapaz e acaba “desfrutando” da submissão imposta por seu algoz. Ele a deixa sobreviver e ainda ensina matemática a menina. E a julgar por uma cena posterior, ela está muito grata ao homem que a seqüestrou.

Na mente doente de Suzuki as mulheres precisam descobrir o prazer da submissão, condição inegável da existência feminina. Isso, segundo um monstro, é lógico. O protagonista Tatsuya, no auge do machismo refere-se às vítimas como passarinhos que mantém em uma gaiola. No passado, a mãe dele aprecia o estupro e isso leva o senhor Jinno (pai) a humilhar constantemente a esposa e o filho bastardo. Quer dizer que a mulher é a verdadeira culpada no final das contas? Até acho Suzuki um cineasta de talento, mas que ele é um verdadeiro canalha, não resta a menor dúvida.

Entre as vítimas, ainda há a cantora arrogante Jun Yashioji e sua assistente Sugimuru Machiko. Neste caso, a idéia do jovem assassino é aumentar o ego de Sugimuru ao afirmar que esta é mais importante (e bonita) que a outra. Isto é, instigar a ponta de ressentimento e inveja que obviamente existe em uma relação como a das duas. Ele ainda usa o papai Hirukawa, que continua na ativa, para maltratar as garotas. O fim das duas é ingrato.

Entre um sadismo e outro, o espectador é levado ao confronto final. Tatsuya é emblemático: “Quem vai ganhar; o demônio em mim ou Deus em você?”, pergunta para sua namorada, a cristã Yumiko. No entanto, até a cândida namorada - que chama Tatsuya de “irmão” - tem pecados. Bem infames, por sinal.

Além de misógina, a produção tem uma visão distorcida da guerra. Tatsuya usa como bíblia o Night and Fog, que narra a abominável experiência nazista na Polônia durante a segunda guerra. A estrela de Davi também é uma referência constante no filme. O protagonista tem a estrela no início, mas luta para passar esta condição às vítimas. O judeu que vira nazista. Uma lógica, que mesmo revestida de denúncia, soa preocupante, ainda mais no Japão. O slogan da operação que comandou os nazistas na Polônia era “Massacrar corpos, espíritos e corações”. E isso Beautiful Girl Hunter consegue fazer com o espectador, pois é simplesmente impossível ficar indiferente diante de tanta polêmica.

Ponto Alto: esteticamente muito bem realizado. Destaque para fotografia e música.

Ponto Baixo: a discussão do filme segue uma proposta de tendências absolutamente reprováveis.

Tentação



Mark Ruffalo é uma espécie de galã desajustado e desleixado, um cara como qualquer outro. A identificação é quase imediata. Ele tem talento, mas centralizar um filme intimista nas mãos dele foi um dos fatores que matou Tentação, baseado em dois contos de André Dubus. Ruffalo não segura o filme no papel do confuso Jack Linden, sorte da querida cult Laura Dern que dá show como a esposa traíd