21 de outubro de 2014

O Lobo de Wall Street

Em uma época que o Brasil vive uma onda pra lá de reacionária assistir a O Lobo de Wall Street foi uma experiência única. O final do filme, no qual o protagonista solicita a um dos espectadores de sua palestra motivacional pra lhe vender uma caneta é sublime. O foco sobe  para o público da plateia (dentro do filme) embasbacado e impassiva. Completamente idiota e sugestionável!  Quem chama o personagem é o próprio Belfort. Final, na minha humilde opinião, apoteótico. Sem exageros pessoais, mas só tive sensação parecida quando terminei de ler O Som e a Fúria de Faulkner.

Belfort, um cara que enriqueceu fodendo a vida dos outros, mas virou "mito" por ter ficado muitoooo rico. Passou a maior parte da vida chapado e apesar de inteligente demais (principalmente na arte de persuadir, enganar, trapacear...), foi alvo dos próprios excessos. Bem que seu pai lhe avisou, ao menos pelo que vemos no filme. Sempre achei Scorsese superestimado, mas, como diria Nelson Rodrigues, envelhecer é fundamental. Filme espetacular, pena que muitos coxinhas brasileiros vão achar ou que Jordan Belfort é um exemplo de prosperidade ou que o filme pegou pesado demais no sexo e nas drogas. Azar e burrice deles.

Ponto alto1: DiCaprio é genial demais, parece não ter limites.
Ponto Alto2: O filme tem cenas engraçadas demais e não é só por causa dos tiros certeiros do sempre afiado e divertidíssimo Johan Hill.

Ponto Baixo: Rob Reiner nos faz rir por trás das câmeras. Entretanto, aqui, como pai do personagem de DiCaprio, seu esforço bonachão foi um ponto fora da curva.

16 de agosto de 2014

Psicopata Americano


Depois de tanto tempo longe do blog, vou reabrir com mais um episódio confessional, certa feita, há uns três anos, depois de algumas cervejas em uma mesa de boteco discuti com um colega fã de Dexter. Ele insistia na originalidade do seriado e eu batendo o pé que não passava de uma mistura cafona de Law & Order com Psicopata Americano. Um bom tempo se passou e minha opinião não mudou. Não que Dexter seja uma bomba, mas definitivamente não é essa Coca-Cola e está há anos luz de ser original. Recentemente, revi Psicopata Americano e caramba, a abertura do filme é homenageada (ou seria plagiada) na abertura de Dexter. Com a arrogância de um nerd que chega ao fim do game no nível mais difícil abri um sorriso cheio de orgulho. Besteira, o mesmo amigo com quem discuti disse que o personagem de Dexter já citou Patrick Baterman, protagonista de Psicopata Americano.

Mas vamos falar aqui do filme da cult Mary Harron baseado em livro de Breat Easton Ellis. Do autor li apenas o Abaixo de Zero e achei muito bem escrita a estória da juventude hedonista, bronzeada e endinheirada de Los Angeles na década de 1980. Mas aqui o assunto é Psicopata Americano e confesso que nunca li o romance, mas dizem que é uma espécie de bíblia yuppie. A julgar pelas inferências do protagonista no filme, interpretado, quase na medida certa, por Christian Bale, deve ser mesmo. O cara é formado em Harvad e ocupa o cargo de vice-presidente da empresa do pai. Freqüenta boates da moda em Nova York, tem um nariz nervoso que não é brincadeira e mora, sozinho, em um apartamento deslumbrante. Acompanhante: uma loira igualmente fútil e desprezível, Reese Whiterspoon, mais uma vez insistindo que é bonita. Além de outras amiguinhas.

O que mais me chamou a atenção foi mesmo a construção do protagonista. Baterman tem uma vaidade sem precedentes, vaidade que se dá literalmente de todas as formas e que explode por meio da violência. Sua catarse é matar, pois ele se acha acima do bem e do mal. Ele se acha perfeito e explode quando algo macula esta certeza. Conflito bem norte-americano e oitentista, mas que ainda se sustenta nos dias de hoje. Vale ressaltar que as citações a Phil Collins e Whitney Houston são ótimas. Psicopata Americano é muito violento - violência propositalmente exagerada para sustentar o absurdo das situações. O filme ainda tem um humor peculiar e inteligente, além de uma boa dose de erotismo. E no elenco nomes como Willem Dafoe, Jared Leto e Chloë Sevigny. Fica a indicação.

Ponto Alto: o investigador feito por Williem Dafoe. Alguns atores podem sempre interpretar a si mesmos. Dafoe é um deles.

Ponto Baixo: o desfecho se arrasta por mais tempo que deveria e quebra o ritmo do filme.


19 de abril de 2011

Teorema


Os filmes de Pasolini são cheios de alegorias que, mesmo cheios de voltas e piruetas, sempre remetem sempre a insatisfação com a ordem vigente e a exploração da classe trabalhadora por uma burguesia sem princípios. O cara era comunista de carteirinha e manifestava de forma muito direta sua ideologia, mas sempre de forma surpreendente e reveladora, afinal era um cineasta, no mínimo, inventivo pra ficar em um adjetivo comum. Foi assim em Saló de forma explícita e escatológica, já em Teorema a crítica é mais sutil em sua apresentação, nem tão pouco menos agressiva.


Um visitante, que pode ser interpretado com um anjo ou redentor (Terence Stamp), hospeda-se na casa de um rico industrial de Milão, vivido por Massimo Girotti. Esse elemento estranho e sublime destrói a suposta harmonia familiar ao se envolver sexualmente com todos os membros da família expondo uma realidade cheia de segredos e moldada apenas pela aparência e individualidade. Stamp usa todo o charme de tempos idos pra jogar merda em uma elite que adora apontar o dedo na cara de todos apenas por ter dinheiro e, consequentemente, poder. Entretanto, na realidade, são bem mais frágeis e miseráveis que aqueles que exploram. Tenho algumas reservas quanto a determinadas escolhas artísticas de Pasolini, mas ninguém pode chamá-lo de incoerente quando o assunto é sua postura política.


Destaque para o envolvimento do hóspede com a empregada da família, vivida por Laura Betti. E aí, Pasolini que era ateu, mas, reza a lenda, amigo do Papa João XXIII, trata de outro de seus temas recorrentes – a religiosidade, mas precisamente o catolicismo. Quando o tal hóspede vai embora, a empregada acaba por voltar para sua humilde Vila e, em profundo abalo emocional, passa a se alimentar apenas de ervas daninhas e vira uma espécie de Santa no local ao fazer milagres e levitar. Alegorias mil, mas além do questionamento sobre uma suposta frivolidade dos santos católicos, o cineasta exalta a importância da pureza da religiosidade na construção de uma identidade e de um sentido de comunidade. Algo que o personagem de Stamp fez aflorar de forma autêntica, mas absolutamente desconcertante e egoísta na família de Paolo. A família rica não soube lidar com uma algo tão sublime e acabou por enlouquecer, cada um a seu jeito.


Ponto Alto: Esteticamente o filme é belíssimo, culpa de Giuseppe Ruzzolini na fotografia e do mestre Ernio Morricone na música.


Ponto Baixo: O filho da família, graças principalmente a interpretação fraquíssima do desconhecido Andrés José Cruz Soublette, não está, decididamente, no nível do filme.

17 de março de 2011

Cães de Guerra


Quando garoto, adorava ler os livros de espionagem de Irwing Wallace e Frederick Forsyth. Eram livros baratos e charmosos com espiões brilhantes desfilando charme por cenários europeus em tramas cheias de reviravoltas, que geralmente tinham a guerra fria como pano de fundo. Achava divertido demais, mas meu tesão por este tipo de literatura caiu por terra quando comecei a ler gente como John Le Carré e Ken Follett, que eram igualmente cafonas, mas se levavam a sério. Aí ficou chato! Feita esta apresentação, vamos falar de Cães de Guerra, baseado em livro de Forsyth.


Trata-se de uma produção dirigida pelo competente (e pau pra toda obra) John Irvin e estrelada por Christopher Walken. A idéia dos realizadores foi deixar a violência pirotécnica das “batalhas” para o final e se concentrar nos bastidores da preparação de uma guerra, digamos assim. E a coisa deu certo. Cães de Guerra é bem divertido e a boa sequência de ação no clímax da trama serve pra coroar a boa narrativa. Na trama, acompanhamos as aventuras de Jamie Shannon (Walken), um mercenário norte-americano bem sucedido, em tentar derrubar um sanguinário ditador africano a fim de atender aos desejos comerciais de uma grande empresa de exploração mineral.


Primeiro, Shannon, disfarçado de fotógrafo de pássaros, vai espionar o pequeno país, chamado Zangora, e sente a fúria do cruel ditador Kimba (Ilario Bisi Pedro). Mas, ajudado por um jornalista britânico, consegue sair do país. De volta aos Estados Unidos, pega sua grana, sem não antes receber um convite mais audacioso, reluta em aceitar, mas, devido a falta de perspectiva de sua vida pessoal, aceitar destronar Kimba. Reúne, então, seu grupo de mercenários veteranos, destaque para o cinismo de Tom Berenger como Drew, seu braço direito. Em Londres, a turma articula o violento golpe negociando armas, licenças etc. Nas subtramas, Jamie reencontra o jornalista inglês e ainda descobre que o golpe não vai ajudar em nada o combalido povo de Zangora. Depois de uma viagem partindo de um porto de Málaga, a esperada cena da guerra. O final é o que podemos chamar de inesperado previsível. Mas não deixa de ser um desfecho acertado e, até certo ponto, corajoso.


Cães de Guerra está longe de ser um filme excepcional. Sequências foram nitidamente cortadas a fim de dar mais agilidade e cadência ao filme, o que resulta em várias situações mal resolvidas. O pequeno exército de mercenários, por exemplo, é muito mal explorado, nem o personagem de Berenger mereceu tratamento especial. Não sabemos nada de ninguém. O único tratado com um pouco mais de respeito é o protagonista Shannon. Não acho que chega a ser culpa do roteiro, mas o problema de edição é nítido. Tudo é muito corrido. Apesar da óbvia falta de profundidade e de não ter lido o livro que originou o roteiro, dá pra sentir a atmosfera cafona e simplista de Forsyth em toda a narrativa.


Ponto Alto: (spoiler) A morte do personagem de Berenger é uma boa sacada. Violenta e inesperada. Entretanto, como foi dito, o personagem pouco importa, o que tira um pouco o impacto da sequência.


Ponto Baixo: numa tentativa de humanizar o personagem de Walker, optou-se por mostrar a relação de proteção que mantém com um garoto negro da vizinhança. Tudo é vago e impreciso e acaba por ser completamente dispensável.

2 de novembro de 2010

Feliz Aniversário Para Mim

Esse é um guilty pleasure daqueles realmente afetivos. Gosto de quase tudo, desde a traminha convencional até o desfecho forçadamente imprevisível. O problema é que se o espectador for mais esperto um pouco e se ligar no título do filme e na confusa história da protagonista, mostrada em flashbacks, não vai cair nos truques do roteiro em apontar suspeitos. Falar na protagonista, a Ginny (a aguada Melissa Sue Anderson) apesar de alguns rompantes de puritanismo é uma protagonista, digamos, mais ousada que a de outros slashers da época. Ela chega a fumar maconha, trocar beijos e insinuar carícias em vários momentos. Olha que danada!

Entretanto, apesar de bobinho Feliz Aniversário Para Mim é simplesmente divertido. As mortes on-screen e a sequência da cirurgia no cérebro - olha que um dos Jogos Mortais copiou essa última- são sangrentas e bem realizadas. O curioso é que o diretor aqui é o responsável pelo clássico de guerra Canhões de Navarone. Experiência o tal J. Lee Thompson tinha; isso é inegável e fica nítido no ritmo adequado e em alguns bons enquadramentos nos momentos de suspense. Ideal para uma chuvosa tarde de sábado.

Ponto Alto: a morte com os halteres guarda, ainda hoje, uma originalidade sacana pela maldade do desfecho.

Ponto Baixo: tem um jogo fake de futebol que é ridículo demais. O craque é o personagem mais insuportável do filme: Rudi, interpretado pelo ator de TV, David Eisner.

30 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2


Wagner Moura volta ao BOPE da PM carioca, agora como tenente-coronel Nascimento. O roteiro é bem tranqüilo - depois de uma ação, no mínimo contundente para conter uma rebelião presidiária, Nascimento assume um posto estratégico na Secretária de Segurança no Rio e usa seu cargo para transformar o BOPE em uma máquina de guerra. O BOPE vence a guerra contra os traficantes, mas apenas “limpa” as favelas e baixadas para a entrada das milícias, comandadas por oficiais da PM e que também serve de curral eleitoral. Personagens secundários em traminhas envolvendo a família do protagonista cuidam da empatia do policial casca grossa com o público. Uma boa diversão: com roteiro enxuto, bom ritmo e eficiente direção de atores.

O problema é que o filme tem um público grande e isso se deve realmente à qualidade da produção, ao carisma do protagonista etc. Só que como qualquer produto que dá certo, acabou por ditar moda, gerar conceitos e causar reflexões. Acho que todos os realizadores estavam cientes de estar fazendo apenas um filme de ação e não um oráculo da sociedade brasileira atual.

Capitão Nascimento é apenas um fortão ingênuo, que sempre cuidou mais do corpo que da mente, digamos assim. Ele não deve ser um exemplo a ser seguido apesar de ter alguns bons valores. Mas o público, encantado com o protagonista e sua lógica torta tem a lição de moral capenga do personagem como verdade absoluta e se diz horrorizado pelas traquinagens do submundo político brasileiro e cansado da violência... Não perceberam que a frase do oportunista apresentador de televisão que vira deputado: “vai mandar bombom pra vagabundo agora”, poderia muito bem ter saído da boca de Nascimento.

O público encarou a produção como uma redentora de todos os anseios da classe média cansada da violência e, por aí, vai. Entretanto, o roteiro tenta fugir dessa armadilha por meio de boas sacadas, como a maturidade no retrato do deputado Fraga (Irandhir Santos) e, principalmente, a “diminuição” do personagem de Wagner Moura. Ele aparece menos e com bem menos energia que no primeiro. Está mais maduro e sofre com a ausência da família e a descoberta de algumas verdades inconvenientes. Há algumas situações forçadas como o final moralista estilo novela das oito, mas como diversão é mesmo um espetáculo.


Ponto Alto: o personagem molenga e corrupto de Milhem Cortez ganhou um parceiro/desafeto à altura na pele do Major Rocha (Sandro Rocha). Impagável na cena do almoço na favela.

Ponto Baixo: A traminha envolvendo a jornalista xereta (e muito burra) foi uma forçada do roteiro para fechar uma situação maior. Entretanto fugiu, e muito, do bom senso.

3 de abril de 2010

O Clube do Filme


Não esperava muita coisa como literatura do livro do canadense David Gilmour, mas ao menos informações sobre cinema e algumas dicas interessantes. Não foi isso que encontrei. Do ponto de vista narrativo, o óbvio: deixa muito a desejar – e olha que não são problemas de tradução e nada deste tipo. A prosa é ruim mesmo. Até aí, tudo conforme o esperado, mas em relação ao cinema é que as frustrações tomaram conta. Nada de relevante ou inventivo é apresentado; uma dica aqui e ali, mas algo muito superficial. O tal David Gilmour por ter entrevistado o conterrâneo David Cronenberg uma pá de vezes (e outras afetividades óbvias) tem o cineasta como “o cara”. Até gosto dos filmes dele, mas dica profunda sobre relação pai/filhos dada em entrevista é demais. Detalhe – Cronenberg é citado várias vezes, mas seus filmes não são comentados em nenhuma oportunidade.

Entretanto, o pior de tudo é o tal personagem-filho Jesse, mimado de marca maior que não sabe lidar com qualquer tipo de rejeição. Inacreditável a antipatia gerada pelo garoto e ainda é pintado como a redenção do rap. Um rapper branco canadense que tomou leito tipo A durante a vida inteira e escreve sobre suas frustrações amorosas pra lá de convencionais. Perdoe-os Mano Brown. Em uma entrevista para a divulgação do livro, no entanto, Jesse disse que parou de fazer hip-hop, pois o estilo vai desaparecer em breve e agora se dedica a projetos cinematográficos, pois os filmes são eternos. Prevejo um futuro sombrio. Mais uma alfinetada: a forma como as mulheres são retratadas no livro também não é lá um exemplo de cavalheirismo. Ao menos, ler O Clube do Filme me serviu para rever um guilty pleasure adorável, O Padrasto, que é citado em certo momento. Aos Gilmour, recomendo Içami Tiba ou algo do gênero.

18 de fevereiro de 2010

Conspiração Tequila


Genial traficante e talentoso policial dividindo o amor de uma sofisticada hostess na Califórnia dos anos 80, recheada por aquela fauna de cabelo amarelo, olhos claros e pele bronzeada. Um filme policial inteligente, no qual valem mais os diálogos e intrigas que os disparos das pistolas. A trama é bem cuidada, afinal o diretor Robert Towne é mais conhecido como roteirista. Um clichê aqui e outro ali fazem parte do menu e um filme com Mel Gibson, Michelle Pfeiffer e Kurt Russell não deve ter saído barato e precisava de retorno. Mas relaxe, pois são clichês simpáticos e aceitáveis como os amigos de infância em lados opostos, o policial superior que é pra lá de burro e o cavalheirismo irretocável do bandido etc.


Mel Gibson não está nada mal no papel de um traficante em “regeneração” que tem um último negócio para depois quietar o facho. Já nosso mestre Kurt Russell destila aquela canastrice cool na pele de um policial esperto e sacana. Longe do brilho de Viver e Morrer em Los Angeles (adoro a "surpresa" desse filme), mesmo assim Conspiração Tequila representa bem os policiais oitentistas hollywoodianos e merece uma reprise.


Ponto Alto: Michelle Pfeiffer desfila seu inegável charme de mulher miúda pelas rodas sofisticadas de Los Angeles e até nos brinda com umas ceninhas mais ousadas.


Ponto Baixo: o personagem de Raul Julia é importante, mas não é explorado como deveria.

15 de fevereiro de 2010

Avatar


O visual é inovador e uma estrutura narrativa que deixa muito a desejar. Fato, mas o lance não é que o visual seja simplesmente inovador, é algo simplesmente extraordinário. Foge do padrão de qualquer coisa já realizada no cinema. Diante de algo tão genial, o que é um roteirinho clichê, cheio de falhas e mal amarrado? Besteira. Relevamos isso em prol do espetáculo que é ver Avatar. E sabe o lance do roteiro? Quem nasceu entre o final de década de 1970 e começo da década de 1980 vai sentir nostalgia com tantas referências a um projeto anterior do cineasta, Aliens, o Resgate. O executivo ambicioso, a militar masculinizada e destemida, os robôs, Sigourney Weaver. E, o principal – todas as possibilidades em se explorar um “planeta” novo.

Cameron usa um complexo megalomaníaco e infatilóide para levar à frente seus projetos “ridículos”. Quem em sã consciência imaginaria um futuro com uma guerra entre máquinas e humanos e no qual uma viagem no tempo selaria o destino da humanidade. Cameron teve essa idéia imbecil e genial e fez Exterminador do Futuro lá em 1984. Agora, em 2009, concebe um mundo místico no qual os valentes habitantes são gigantes humanóides de cor azul com características felinas. Porra, um moleque de dez anos que pensasse em algo do tipo seria ridicularizado na sala de aula. O cara leva a frente uma tosqueira assim e faz a maior bilheteria da história do cinema. Fazer o quê? Sentar e aplaudir.

Concordo que apesar dos louros, do ponto de vista narrativo e cinematográfico, Avatar teria de ser esnobado em prêmios como o Globo de Ouro e o Oscar, por exemplo. Mas falo de um universo no qual Gwyneth Paltrow venceu Fernanda Montenegro; e, sinceramente, o quê é Hollywood se não uma indústria que visa ao lucro? E, por isso, Cameron manda e desmanda. Nem um cara talentoso e paparicado como Spielberg teve o sucesso comercial do cara.

Li várias críticas sobre o filme e, em uma delas, alguém escreveu que o roteiro de Avatar está longe da genialidade de um Star Wars, por exemplo. Isso é sacanagem e má vontade com Cameron. A trama do Star Wars uma coisa tão singela que chega a ser constrangedora. Entretanto, concordo que tenha criado um conceito de fazer cinema que, até então, não tinha sido imaginado. E, dessa forma, abriu as portas para novas experiências. Avatar fez no início do século XXI, o mesmo que o filme de George Lucas, em 1970. Numa época em que quase tudo já tinha sido imaginado, Cameron abriu novamente o leque de possibilidades. Falei tudo isso, mas odeio essa coisa de filmes 3D, ficção-científica, mensagem maniqueísta, romance sem noção. No caso de Avatar, entendo, compreendo e, em parte, compartilho do fenômeno.

Ponto Alto: como sou um cara old school, vou fazer referência ao Coronel linha dura Miles Quaritch, interpretado por Stephen Lang. Dizer que a primeira rodada é por minha conta depois de liderar um ataque bem sucedido é o tipo de cinema que eu gosto.

Ponto Baixo: fico no clichê e digo que odeio obviedades narrativas como o guerreiro ultra-excepcional em um mundo que não conhece, luta do bem contra o mal, sexo entre ETs...

16 de janeiro de 2010

Globo de Ouro

A idéia do pessoal da CineDica é maneira e vale a conferida. Fazer comentários em um chat durante o Globo de Ouro que será realizado neste domingo, dia 17 de janeiro, às 22 horas. Pra quem gosta de cinema um prato cheio. A transmissão aqui no Brasil será pela TNT. Galera... olhe o link abaixo:

http://www.cinedica.com.br/filmes/cinefest.php

E, sem demagogia nenhuma, a idéia do site é diferente; feito de uma maneira bem pessoal pelo próprio "usuário". Indicadíssimo!

18 de setembro de 2009

Watchmen


O tema não é verossímil e abordá-lo como canhestro e violento, poderia gerar desconforto e acabar não agradando nem a quem gosta de temas mais adultos, nem a quem é mais chegado na fantasia propriamente dita. Tudo bem que gente adulta de máscara e uniforme combatendo o crime não é lá uma grande prova de maturidade artística, mas o legal de Watchmen (méritos totais ao escritor britânico Allan Moore) é brincar com o próprio ridículo da situação. O espirituoso Zack Snyder comprou a briga e realizou um filme violento, melancólico e irônico; o cineasta não desprezou a veia pop, afinal a despeito de toda a inovação proposta na obra, estamos falando de um bom e velho gibi.

Os tais heróis e vilões mascarados estão no meio da década de 1980 em um ambiente no qual a guerra nuclear torna-se cada vez mais iminente. O problema é que os mascarados que surgiram pra combater gangues de bandidos mascarados apenas em nível local, acabaram recrutados pelo governo e exercem papel crucial na história moderna (aí leia-se história norte-americana , com guerra fria, caso Watergate, guerra do Vietnã...). E o ápice dessa influência surge com um literal super-homem com poderes capazes de influenciar a questão da “diplomacia” das armas atômicas. Dr. Manhattan é um gentleman a altura do seu amigo de capa, mas muito mais conturbado e egoísta que aquele. A influência dos tais “vigilantes” mascarados foi demais e eles acabaram obrigados a abandonar a profissão ou então viver na clandestinidade depois da publicação de uma lei linha dura no final da década de 1970.

Além da já citada auto ironia, um dos maiores diferenciais de Watchmen, está na excelente composição de seus personagens com todas as fraquezas e inseguranças de uma pessoa comum. O negócio é pancada e envolve sérios desvios comportamentais e atitudes nem sempre heróicas. Informa-se ainda que a condução da trama é extremamente envolvente, mas a conclusão é de certa forma decepcionante. A resolução, apesar de inovadora, apresenta-se frustrante, justamente pela expectativa criada até então.

Apesar de alguma inconsistência, o filme vale pela violência gráfica e pelo tom melancólico e desesperançado. As cenas do Comediante comemorando a vitória americana no Vietnã e a de Roorschach nas ruas de Nova Iorque fazendo valer a lei a um seqüestrador sem escrúpulos são, no mínimo, sensacionais Agora, é impossível não reconhecer que certas passagens são enfadonhas, a exemplo dos conflitos existenciais do Dr. Manhattan e do clímax meia boca (no gibi, a coisa é mais forte). Apesar disso, Watchmen tem estilo e vale por passagens como o sarcasmo de uma heroína aposentada se divertindo com a descoberta de um livrinho pornô em sua homenagem.

Ponto Alto: apesar de achar O Comediante o grande personagem da saga Watchmen, no filme tenho de dar o braço a torcer e aplaudir Rorschach. Muito desse mérito cabe ao ator Jackie Earle Haley.

Ponto Baixo: Nunca fui muito fã do tal Ozymandias, mas no filme exageraram. Que ator é Matthew Goode? O precursor do metrossexualismo yuppie, lá na década de 1980, virou uma aberração mal definida sem carisma ou qualquer lastro de energia.

1 de agosto de 2009

Inimigos Públicos


Quando soube que Johnny Depp faria o papel de John Dillinger no novo filme de Michael Mann fiquei eufórico. Inimigos Públicos é mesmo sensacional. Um filme de gângster como a muito não se via, ou melhor, como nunca se viu; correção: talvez, muito antigamente, tenha-se visto. Um bandido e seu bando extremante gentis e sedutores, mas sempre perigosos recuperam o sonho americano em um país devastado pela crise financeira. Os comparsas de Dillinger são amorais, mas éticos, tanto é que a parceria com a turma de Baby Face Nelson (Stephen Graham) não rendeu como deveria justamente pelo fato de o mesmo não ser exatamente um cavalheiro. Há um romance deliciosamente exagerado e inverossímil de Dillinger com Billie Frechette, filha de franceses com indígenas, interpretada com uma discrição na medida certa pela oscarizada Marion Cottiliard.

Do outro lado da linha, um FBI incipiente comandado com mão de ferro por um vaidoso J. Edgar Hoover (Billy Crudup) lança nas mãos do bruto gentleman Melvin Purvis (Christian Bale) a missão de capturar o exibicionista fora-da-lei. O duelo torna-se pessoal e o agente deixa de lado qualquer indício de civilidade para que o arrogante bandido pare de zombar das instituições americanas. Tortura e chantagens entram no cardápio e Melvin - que é apresentado ao público estourando pelas costas outro famoso bandido, Pretty Floyd Boy (Channing Tatum) - deixa-se consumir no processo; tanto que a mensagem no final do filme sobre o destino do personagem é totalmente plausível.

Inimigos Públicos é clássico e pop; tem um estilo moderno, mas a própria reconstituição de época nos faz lembrar os filmes urbanos de Howard Hanks. O filme tem uma condução de certa forma carregada e uma atmosfera tensa, mas assisti-lo é totalmente prazeroso e até certo ponto nostálgico. Só mesmo o estilo elegante e popular de Mann aliado ao carisma cool de Depp para reinventar os filmes de bandido em Hollywood.

Ponto Alto: a imagem de Baby Face Nelson de Stephen Graham praticamente morto usando sua metralhadora Thompson contra os policiais é assombrosa e genial.

Ponto Baixo: muitos não gostam de draminhas pessoais em filmes policiais, mas eu, particularmente, gosto. Assim achei que faltou explorar melhor o lado humano dos policiais; mostrar como a caçada a Dillinger destruiu a vida pessoal de Melvin.

6 de julho de 2009

Festival de Micrometragens continua... "de arrepiar”


Começou a 3° etapa do 1º Festival de Micrometragens Brasileiro Cel.U.Cine, para produções de até 3 minutos em formatos alternativos usando novas mídias como celulares, câmeras digitais e mini-dvds. O tema desta vez é “De Arrepiar”. Para os fãs de filmes de terror – não poderia haver tema mais sugestivo.

De acordo com os organizadores do festival, a proposta é estimular a produção e ampliação da difusão de conteúdos no Brasil e no exterior por meio das novas mídias, principalmente, os celulares.

Para atingir esse objetivo, a Cel.U.Cine firmou parcerias com o Canal Brasil, que exibirá com exclusividade os trabalhos selecionados no 1º Festival de Micrometragens, e com a RIO Filmes, que lançará as produções em DVD.

Os interessados em participar devem enviar os filmes e realizar a sua inscrição até o dia 27 de julho de 2009 no portal www.celucine.com.br. O resultado será divulgado no dia 9 de agosto de 2009, durante o Festival Brasileiro de Cinema Universitário.

25 de junho de 2009

O Matador


Ao acompanharmos as aventuras de Jeff (ChowYun-Fat), entendemos em detalhes o porquê de John Woo ter se tornado um objeto tão cult entre cineastas moderninhos do mainstream americano. As construções das várias seqüências de ação são realmente de tirar o fôlego. Tiros, sangue, tiros, pombos, tiros, roupas brancas, tiros, acordes histriônicos, tiros... O estilo do cineasta que foi consagrado a posteriori com obras mais “limpas” como A Outra Face e Missão Impossível II transborda por aqui. Estamos falando do auge de Woo no cinema chinês – violência, estilo exagerado, cafonice e uma pieguice de fazer corar roteirista de novela mexicana.


A trama gira em torno da amizade entre um ético matador profissional (Fat) e o policial (Danny Lee) que o persegue. Jeff mata bandidos e é um cara cheio de honra e em um tiroteio acaba ferindo a cantora Jenny (Sally Yeh) e a deixa praticamente cega. Sente-se culpado e topa um último serviço para conseguir um transplante de córnea para a garota. Cumpre o serviço, mas acaba vítima de uma emboscada e tem início a sua perseguição pelo policial vivido por Danny Lee. O sucesso de O Matador não vem de sua trama, mas da maneira com a qual o diretor constrói as belas cenas de ação; os movimentos dos heróis são belíssimos, cheios de estilo. Em contraponto, há vilões caricatos que deixam nítido a contradição entre o belo e o feio. Palavras de honras pra lá de afetadas, muitos (mas muitos) tiroteios e um melodrama de arder os olhos em um filme que fez de Woo um mito. Aqui o diretor contou com o apoio do produtor Tsui Hark (aquele mesmo, o diretor de Era Uma vez na China) e do super astro Chow Yun-Fat. Simplesmente irresistível.


Ponto Alto: o humor estilo pastelão me incomoda.


Ponto Baixo: a plasticidade das sequências de ação continua insuperável, mesmo depois de tantas imitações.

9 de junho de 2009

E Continuam os Festivais...

Só que este Festival é atrevido, no bom sentido, e sugere novas linguagens. Trata-se da Cel.U.Cine com o 1° Festival de micrometragens brasileiro. Focado em produções de até 3 minutos, o festival possibilita ainda que os filmes sejam gravados em celulares, câmeras digitais e mini-dvds.

O Festival Cel.U.Cine de micrometragens, adotando novas mídias, principalmente o celular, tem tudo para se tornar um pólo difusor de cultura no Brasil. Sempre oferecendo novas possibilidades, como a utilização da mídia celular para a produção e ampla difusão de conteúdos brasileiros criativos.

A Cel.U.Cine conta também com grandes parcerias, como o canal Brasil e a RIO Filmes, onde os micrometragens serão exibidos com exclusividade pelo canal e lançados em DVDs pela produtora.

A segunda etapa do Festival está em andamento com tema “Sonhando acordado”, os filmes estão sendo enviados diretamente ao portal www.celucine.com.br, agora prorrogado até dia 10 de junho. O resultado da 2° etapa sairá entre os dias 16 e 22 de Junho.

Liberte seu lado cultural e criativo produzindo seu micrometragem. Participe do Festival Cel.U.Cine

8 de junho de 2009

SP TERROR

Entre os dias 22 de junho e 02 de julho, os paulistanos poderão desfrutar do SP TERROR - Festival Internacional de Cinema Fantástico. Os filmes serão exibidos nas salas da Reserva Cultural na Avenida Paulista. São mais de 30 títulos com destaque para o sueco Deixe Ela Entrar de Tomas Alfredson (eu nunca vi, mas já li que a coisa é boa) e o brasileiro Mangue Negro, filme de zumbis dirigido por Rodrigo Aragão. Outro produções que não posso deixar de citar são o britânico Lesbian Vampires Killers de Phil Claydon e Solos do chileno Jorge Olguín. Mas a lista é grande e não pára nisso; têm filmes argentinos, japoneses e também independentes americanos.


O SP TERROR terá ainda duas mostras competitivas: a internacional e a iberoamericana. Os jurados são do quilate de José Mojica Marins (dispensa apresentação), Dennison Ramalho (cineasta de curtas como Amor Só de Mãe), Erico Borgo (crítico de cinema – site Omelete – lembra?!) e Leopoldo Tauffenbach (artista plástico e “dono” do recém-lançado blog Cine Demência). Oportunidade imperdível para a galera de Sampa. Aqui em Brasília, resta ficar morrendo de inveja ou programar uma viagem de última hora. Quem sabe?


Serviço – www.spterror.com

5 de maio de 2009

O Homem que Amava as Mulheres


Como diz uma das “suas mulheres”, Bertrand Morane (Charles Denner) parece ter cara de passarinho. E é com um jeitão de garoto carente, sem qualquer traço do convencional carisma sexual, o nosso cara de passarinho, que vive para e pelas mulheres, arranca suspiros e se envolve em paixões avassaladoras. Apenas as mais espertas conseguem sair com menos arranhões das garras de um conquistador tão sensível. Na verdade, a trajetória do amante insaciável de Truffaut, uma espécie de vampiro da alma feminina, começa com o funeral deste, no qual apenas mulheres acompanham o cortejo. Depois, somos levados a acompanhar, por meio de uma autobiografia de qualidade duvidosa – escrita pelo próprio personagem, a eterna busca de expiação de um homem que corrompe e se deixar iludir pela complexidade do universo feminino. E Truffaut realmente faz as coisas fluírem na elegância do idioma francês com enquadramentos versáteis e uma construção narrativa louvável.

Diferente de outros conquistadores, como o sarcástico Alfie de Michael Caine, que tem como combustível de suas conquistas o narcisismo masculino, Bertrand Morane traz uma bagagem muito mais complexa. E neste “enquadramento” da narrativa, o ator Charles Denner parece nunca se entregar por completo. Sempre meio ausente, o protagonista deixa as garotas direcionarem a relação e depois, a frustração. Extremamente simples em sua condução, o filme segue a trajetória da obsessão pela complexidade de alma feminina, em um viés mais convencional que o proposto por cineastas como Bergman e Khouri, mas não menos rico e interessante. Um estudo do comportamento humano e uma aula de cinema.

Ponto Alto: As mulheres, se não belas, têm um estilo blasé irresistível.

Ponto Baixo: toda a energia do personagem ter uma justificativa convencional, como sugerido em certa parte da trama, incomoda mesmo aos menos sensíveis. Preferi encarar como uma brincadeira.

The Wizard of Gore


Herschell Gordon Lewis, com toda a sua tosquice, é realmente um visionário do cinema extremo. Como uma espécie de Jess Franco do novo continente, o cineasta norte-americano compensava os recursos paupérrimos com uma criatividade emocionante. E neste The Wizard of Gore temos um exemplo palpável desta invencionice. O clima nostálgico e a violência gráfica ainda são capazes de angustiar os “escaldados” espectadores modernos. A canastrice do mágico Montag (Ray Sager), a trama cartunesca, as insinuações sexuais e a violência explícita formam uma sugestiva mistura de filmes ao estilo da produtora inglesa Hammer com produções explotations.

Na trama, um mágico consegue fazer truques sangrentos com voluntárias da platéia que depois acabam morrendo com as mesmas seqüelas dos truques apresentados no palco, o que levanta a curiosidade de um casal de jornalistas. Na verdade, Sherry (Judy Cler) quer levar o mágico ao seu programa de televisão, enquanto Jack (Wayne Ratay) é um repórter esportivo que desconfia da violência do mágico desde o início. No caso de The Wizard of Gore, Herschell Gordon parece um hippie (em tons pastéis, é claro) fazendo aquele cinema maniqueísta, bem ao gosto da máquina republicana americana. E o melhor é que, com exceção da inegável ação do tempo em certas passagens, o resultado é pra lá de satisfatório.

Ponto Alto: a resolução da trama justifica um pouco os truques de vai-e-vem nos momentos dos sangrentos truques. Sem falar que é uma solução, no mínimo, interessante.

Ponto Baixo: a improvável cena final é uma das coisas mais ridículas que já tive a oportunidade de acompanhar.

28 de março de 2009

Vanishing Point


Filme cool setentista sobre Kowalski (Barry Newman), um ex-piloto de corridas que tem de transportar um carro de Denver para San Francisco e acaba perseguido pela polícia, mas, ajudado por um radialista cego, segue viagem, modificado a paisagem dos desertos ao seu redor. O carro queridinho dos americanos, o Dodge Challenger, e o estilo despojado do protagonista movido a anfetaminas fazem de Vanishing Point um pequeno clássico da contracultura.

A chave do filme está em seu protagonista. Kowaslski foi policial (mas foi expulso por tentar ajudar uma garota a fugir do assédio de um colega) e mantém o respeito por ser veterano da guerra do Vietnã. Entretanto, surge como uma espécie de ex-hippie em busca de expiação. Ele mantém o olhar distante e não se apega a nada, nem a ninguém - ainda parece incorformado com a morte trágica da mulher que gostava - e na sua trajetória rumo a lugar nenhum descontrói "símbolos" como a polícia, a religião e o próprio estilo de vida dos hippies. Um reflexo do incorformismo e dos conflitos vividos pela juventude americana na época, ainda perdida com as possibilidades abertas nos anos 1960.

Como não poderia ser diferente, um filme politicamente incorreto como esse não poderia passar sem um remake. E este foi realizado em 1997 e traz Viggo Mortensen no elenco. Não vi e nem me interessa, pois tenho medo deles terem transformado a macheza inconseqüente de Kowaslki em sensibilidade. Prefiro ficar com o original e lembrar que uma dose extra de testosterona não faz mal a ninguém.

Ponto Alto: fico na dúvida entre a cena dos ladrões gays ou a sequência onírica com os fanáticos religiosos no deserto.

Ponto Baixo: os flashbacks com as cenas de romance, incluindo a estúpida morte da companheira do protagonista, são muito ruins.

PS: atenção para a música do Globo Repórter logo no início das perseguições.

A Espiã


No retorno ao país laranja depois de um “estágio” cheio de altos e baixos no mainstream norte-americano, Paul Verhoeven nos traz ao mundo da espionagem na resistência holandesa em plena segunda-guerra. Amontoado de clichês e forçadas situações pra mostrar que alguns nazistas não são tão maus assim; enquanto, por outro lado, há heróis movidos por interesses nada éticos. Na verdade, um punhado de soluções fáceis recheadas com pitadas de erotismo e violência. Achou ruim?! Eu não!

Ponto Alto: a protagonista, Carice van Houten, tem um corpo perfeito e é um sopro de esperança nestes tempos em que a beleza natural faz falta no cinema. O “tingimento ariano” é um daqueles momentos gratuitos que nos fazem sorrir de orelha a orelha.

Ponto Baixo: a canastrice suja do tal médico Hans (Thom Hoffman) incomoda até os mais tolerantes.

25 de fevereiro de 2009

O Lutador

Os chatos criticaram a brincadeira com a rivalidade entre EUA e Irã no final de O Lutador. Meu Deus, não é possível que não tenham percebido a ironia. A grande piada sobre o estilo esbanjador dos americanos nos anos 1980 e a decadência dessa pujança econômica personificada no próprio protagonista. Quem gosta de wrestling senão o americano padrão, aquele redneck de carteirinha? E qual seria a reação desse público diante de um confronto-piada entre um “radical” iraniano e um herói yankee da velha-guarda? Nada além de uma deliciosa ironia deste Darren Aronofsky, que dá provas de realmente pairar acima da mesmice do cinema americano.

Na figura exagerada de Mickey Rourke o ícone perfeito de uma geração decadente. A fusão entre ator e personagem é mesmo impressionante. O estilo maduro e gente boa de Randy “The Ram”, um lutador de telecath ainda se equilibrando em ringues amadores em busca de uma glória sem volta, não poderia caber a outro ator. Rourke representou a decadência de um estilo de vida exagerado e fluorescente que deixou marcas profundas em quem o aproveitou sem meios termos.

Randy foi personagem de um videogame e agora dorme no carro, pois não tem dinheiro para pagar o aluguel do trailer que chama de casa - isso ultrapassa o conceito que temos do white trash lutando pelo seu espaço. Uma vez que a redenção não vai vir – o sonho americano do talento brotando na lama ficou no passado – o futuro é ainda mais sombrio. E o melhor é que tudo vem recheado por uma deliciosa farofa kitsch que está na música, no figurino, na direção de arte, nos personagens (Marisa Tomei também dá show em todos os sentidos) e respinga na cara do telespectador em cada frame de O Lutador.

Para ficar nos aspetos técnicos, as lutas são primorosas (a do grampeador faz qualquer um ranger os dentes) e se encaixam perfeitamente à narrativa – até que ponto é teatro, até que ponto está passando dos limites... E, tirado alguns exageros pirotécnicos do nosso cineasta (a entrada no açougue poderia ter ficado sem os gritos na platéia, como bem lembrou um amigo), O Lutador merece ser descoberto justamente por cuspir na cara do americano comum que o mundo mudou e ele não paira mais acima do bem e do mal. E olha que a mensagem é polêmica, pois a atuação irretocável de Rourke não lhe rendeu todos os prêmios que merecia. Agora vale mais ser chapa branca apoiando a causa homossexual utilizando-se de Sean Penn que escancarar a decadência de uma era com um galã deformado. Todos fomos enganados.

Ponto Alto: o diálogo exaltando a diversão desmedida dos anos 1980 em contraste com a deprê sugerida por Kurt Cobain na década seguinte. Coisa de gênio.

Ponto Baixo: entendemos a proposta de lugar comum no encontro com a filha (interpretada pela bela Evan Rachel Wood), mas faltou uma mão mais leve nestes momentos. A idéia podia ser outra, mas a mensagem que ficou foi de pieguice.

PS: reparem na cena externa em que Tomei e Rourke conversam em frente a um brechó; uma filial da Igreja Universal com letreiros em espanhol aparece atrás do ator. Como não acredito em “situações casuais” no cinema, fica a impressão de mais uma prova que os EUA dos anos 1980 realmente mudou.

18 de fevereiro de 2009

Rocky Balboa


Reza a lenda que o personagem Rocky Balboa foi inspirado em Chuck Wepner, um coadjuvante no mundo dos pesos pesados, que, por um golpe do destino, enfrentou Muhammad Ali. Chuck chegou a derrubar “o maior de todos os tempos” durante a luta. O problema foi que a batalha durou os quinze rounds previstos e Ali não derrubou o cara, apenas judiou. O negócio foi feio. Pego este mote, criou-se em época de moral em baixa nos EUA (todos citam a Guerra do Vietnã e o caso Watergate) o “freak” mais querido do mundo do boxe. O cenário: as ruas lavadas da Filadélfia, sinônimo de liberdade para o povo americano. O filme mostrava que qualquer um, inclusive um retardado que trabalhava como cobrador para os mafiosos, pode ser um vencedor.

O primeiro filme foi em 1976 e chegou a papar alguns Oscars (o detalhe é que Rocky perde a luta para Apollo Creed, apesar de ter uma versão dublada em que dizem que deu empate... nada a ver). O filme foi o golpe certo na carreira de Stallone; definitivamente, catapultou a carreira do astro. Pois depois de uma temporada tenebrosa (a série só caiu de qualidade ao longo do tempo), Rocky - agora um velho viúvo em conflito com o filho - volta às ruas molhadas da cidade natal e, na tentativa de promover um jovem e impetuoso lutador, encara uma improvável luta promocional. É a chance de redenção e a oportunidade de passar bons valores ao filho etc. O cara é um herói, mas tem de provar isso mais uma vez – dizem que as pessoas têm até três oportunidades de darem certo na vida, mas essa regra não se aplica ao nosso boxeador favorito. Rocky Balboa, apesar de puxar na sacarose em vários momentos, tem seu charme; afinal a despedida do Ganharão Italiano dos ringues não poderia passar despercebida.

Ponto Alto: as sequências de treinamento ao som clássico de Bill Conti e as cenas de luta são muito bem realizadas.

Ponto Baixo: Rocky continua aquele cara lento na vida social. Meio perdidão, sem tato nenhum com a mulherada. Naquela época era até legal ver isso; hoje, ninguém mais tem paciência.

P.S: dedicado ao amigo Dieguito.

12 de fevereiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamim Button

Quem viu o novo filme de David Fincher com certeza vai o comparar a Forrest Gump. E a semelhança com a obra de Zemeckis não é à toa – os roteiros foram concebidos pelas mesmas mãos. No caso, as mãos de Eric Roth. Não sei se isso é bom ou ruim – pois apesar do inegável talento em dar vida a personagens fascinantes - Roth enfraquece o foco deste Benjamim Button, que é a ação implacável do tempo. E há outras peculiaridades que detonam com a pretensão épica idealizada por Fincher: a estrutura narrativa não é nada inventiva (e, como diz um amigo, lembra Titanic), a maquiagem e os efeitos comprometem qualquer verossimilhança (tudo bem que o tom era de fábula, mas fica o registro) e certas “liberdades poéticas” são, no mínimo, inadequadas (aceito sugestões para seqüências mais piegas que a do beija-flor).

Mesmo assim, justiça seja feita – as quase três horas de projeção jamais se tornam enfadonhas e a premissa é interessante demais. Também é preciso ressaltar que um pouco de altruísmo não faz mal a ninguém. O Curioso Caso de Benjamim Button prega virtudes e a mensagem de “viva o presente” é extremamente adequada para os dias atuais. Sem falar que, a despeito da inconsistência do roteiro, saímos realmente intrigados com a ação irremediável do tempo em nossas vidas. Isso eu comprovei em ver o rosto enrugado da personagem mais gratuita da trama, a leitora-de-diários vivida por uma das minhas paixões de adolescência, Julia Ormond.

No elenco, destaque para o charme e elegância de Cate Blanchett. Brad Pitt está bem e acho legal a idéia de criar expectativa para ver o ator de “cara limpa”. A seqüência do ataque suicida ao submarino é magnífica e as cenas de dança são extremamente bem realizadas, com exceção daquele encontro lúdico e brega à meia luz. Enfim, um filme bom e do bem, mas enfraquecido pela pretensão napoleônica de seu principal realizador.

Ponto Alto: Benjamim Button, agora quase um garoto, vislumbra o corpo desgastado da sua amada Daisy. Cena realmente deslumbrante.

Ponto Baixo: a invencionice narrativa da seqüencia do atropelamento em Paris não leva a lugar nenhum.

21 de dezembro de 2008

Halloween


Tudo bem que a irregularidade é uma característica dos filmes de Rob Zombie, pois ele não tem lá muita mão pra criar roteiros ou gerar momentos de tensão; entretanto, em termos de estilo e ousadia, suas produções são ímpares. Neste Halloween, a cena iniciada por Love Hurts do Nazareth é uma das coisas mais ousadas e estilosas que vi no cinema mainstream nos últimos tempos. Para mostrar uma criança iniciando uma carnificina violentíssima no renascimento de um ícone pop tem de ser, no mínimo, atrevido. O problema é que, após um momento tão marcante, há a infeliz seqüência do garoto no internato, com uma tentativa confusa de tentar ilustrar o mal – edição remontando a um dos trabalhos anteriores do cineasta: A Casa dos 1000 Corpos. Entretanto, depois do tédio pretensioso, o menino ataca uma enfermeira e aí todo o talento do cineasta ressurge. E é com esses momentos díspares que Zombie reconta a estória de Michael Myers, personagem criado por John Carpenter nos saudosos anos 1970.

O filme de Zombie cai bastante depois que Myers cresce (e muito, vira um gigante), foge do internato e volta para a pequena Haddonfield a fim de terminar um serviço que começou quando criança. O tema batido e a falta de tato em gerar aflição no espectador não ajudam muito. Em compensação, as cenas violentas seguem visualmente impecáveis. No elenco, destaque para a musa Sheri Moon e William Forsythe, como um padrasto nada afetivo, sem falar nas pontas de Ken Foree, Bill Moseley e Danny Trejo.

Parênteses para Malcolm Mcdowell como o Dr. Loomis. Mcdowell mais uma vez insiste em dar provas de que não soube envelhecer. O ator genial de Calígula e Laranja Mecânica foi a personificação do rolling-stone-way-of-life no cinema – olhos esbugalhados, gesticulação frenética e uma marcante áurea junkie; além, é claro, do inegável talento. Sei lá por que cargas d’água, mas o cara nunca mais repetiu aquelas atuações e foi escolhendo papéis com dedo podre – chegando ao cúmulo de participar daquelas produções softcores ridículas que a Band não cansa de reprisar nas sextas sexies da vida. Neste Halloween, o ator dá mais uma prova de que seu estilo não resistiu ao tempo. No universo dark e cabeludo de Zombie, o personagem do psiquiatra, deslocado e ofegante, virou uma mera caricatura.

É fato que, feitas as contas, o Halloween de Zombie paira acima do lugar comum do cinema americano. Entretanto, a fragilidade do argumento e outra série de defeitos (o que é aquele calabouço edwoodiano no qual Myers aprisiona sua irmã?) trouxeram muitas críticas negativas e o filme ficou marcado como um caça-níquel sem atrativos. Não concordo com esta opinião; pois, a despeito de tudo, se não pelo conjunto da obra, gostei de Halloween pelas sangrentas seqüências do massacre inicial e do desfecho.

Ponto Alto: Zombie selecionou bem o casting feminino e foi extremamente generoso nas cenas de nudez. Ponto pra ele.

Ponto Baixo: a protagonista Scout Taylor-Compton dá uma melhorada no duelo final, mas levou o filme todo no piloto automático com aquela carinha de atriz dos seriados de Aaron Spelling.

7 de dezembro de 2008

Ebola Syndrome


Filme realizado para um público que não se incomode em entrar na tosqueira exagerada proposta pelo cineasta. A estória recheada de situações de mau gosto conta a torta trajetória de um chinês que após realizar um triplo homicídio em Hong Kong vai tentar a sorte em restaurante na África do Sul e acaba por contrair o vírus Ebola. O detalhe é que o cara é tão escroto que tem imunidade ao Ebola, mas se transforma em um hospedeiro dos mais indesejados. O filme é um festival de extravagâncias, o que justamente torna a obra, se não divertida, ao menos curiosa. Vamos a alguns momentos que desde sempre fazem parte da antologia asiática do cinema extremo: o vilão se masturba com um pedaço de carne de porco e depois os serve aos clientes do restaurante, as crises com as pessoas se debatendo e babando por conta do Ebola merecem aplausos de tão ruins, o vilão adquiri o ebola ao estuprar uma moribunda (ela tem espasmos durante a penetração e o cara fica com dificuldade de, digamos, desfazer o ato sexual), os hambúrgueres feitos com carne de gente morta e por aí vai.

Em contraposição, vale citar algumas tomadas diferentes do corpo humano - mais especificamente, a boca, repleta de saliva e vírus. Idéia legal e bem apresentada. Mesmo assim, o filme quis e decididamente faz jus ao rótulo de trash. Para quem quiser rir ou ficar de estômago embrulhado com o show de escatologias este Ebola Syndrome é imperdível. O chauvinismo do protagonista e o preconceito fanfarrão contra negros, brancos e os próprios asiáticos podem mexer com os brios dos críticos mais sensíveis, mas decididamente este tipo de cinema não foi produzido para os mais sensíveis.

Ponto Alto: o protagonista sempre agitado é um achado. O diretor Herman Yau e Anthony Wong trabalharam no famigerado The Untold Story um pouco antes e aqui dão mais uma prova da afinidade da dupla.

Ponto Baixo: a cena da garotinha dividindo um doce com seu cachorrinho provoca náuseas, mas apresenta um gancho que definitivamente não tem nada de diferente do convencional.

28 de novembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona

Fui todo empolgado ver o novo de Woody Allen e saí decepcionado. O tema do pragmatismo dos americanos versus o espírito libertários dos europeus é batido e o cineasta não apresentou nada de novo, na verdade se afundou em um sem fim de situações comuns. Minha memória só conseguiu buscar Só Você – farofa com Marisa Tomei e Robert Downey Jr. que enriqueceu nosso capenga vocabulário romântico há uns bons 10 anos atrás. A ciranda de paixões propostas por Allen em Vicky Cristina Barcelona é falsa e mal estruturada e, assim, somos levados a crer que não é obra de um artista genialmente cínico que tem o poder de interpretar situações cotidianas como nenhum outro.

Vamos aos fatos - as personagens que dão nome ao filme são duas americanas que vão passar o verão (verão longo, viu!) em Barcelona e lá irão experimentar o estilo de vida espanhol. Enquanto Vicky (Rebecca Hall) está prestes a se casar e apenas quer concluir os estudos em cultura catalã, Cristina (Scarlett Johansson) não sabe bem o que quer da vida, apenas quer viver de maneira intensa. Elas conhecem o pintor Juan Antonio (Javier Bardem), o tipo sedutor mais óbvio dos últimos tempos, que com um papinho de boteco leva as meninas para um final de semana na bela Oviedo. Lá tem início um triângulo amoroso que se tornará um quadrado com a chegada de Maria Elena (Penélope Cruz) – ex-mulher do pintor.

Vamos destacar o personagem central da trama; o Juan Antonio de Bardem parece zombar do publico com uma caricatura tão óbvia do sedutor latino; isso sem mencionar o poder de persuasão previsível - na verdade, ele apenas usa os argumentos desconsertados das mulheres a seu favor. A conturbada relação de Juan com a ex-mulher rende alguns momentos divertidos, mas que logo se tornam repetitivos e inverossímeis, mesmo em um lugar em que as pessoas se expressam de forma expansiva. Nesta linha, a Maria Elena de Penélope Cruz deixou o histrionismo se sobrepor à sensualidade.

Com tantas críticas, fica a impressão que odiei o filme, mas não é bem assim. Vicky Cristina Barcelona é leve e fácil de assistir e, apesar de tudo, vemos o bom e velho Allen em alguns momentos. Os melhores exemplos são a ironia de um personagem ao tema de mestrado de Vicky e a seqüência em que Cristina é questionada sobre o motivo que a levou a estudar o idioma chinês. Outro ponto forte é que a cidade de Barcelona foi muito bem fotografada, entretanto tudo leva a crer que o roteiro foi elaborado para se encaixar aos pontos turísticos e não o contrário. Para um cineasta comum, Vicky Cristina Barcelona seria uma obra satisfatória, mas para alguém com o talento de Allen fica abaixo da linha do medíocre.

Ponto Alto: a música e o som pontuam a trama de maneira bem eficiente.

Ponto Baixo: o esperado beijo entre Johansson e Cruz é uma desapontadora bitoquinha acompanhada de um carinho no rosto. Muito barulho por nada.

24 de novembro de 2008

O Massacre da Serra Elétrica

Este clássico do horror é presença obrigatória na lista de quem se aventure a entender o cinema americano. O filme tem um tom documental genuíno que empresta uma urgência desesperada ao espectador – uma sensação que vai além do medo. A grande obra de um cineasta, tanto que, a despeito do relativo sucesso comercial que alcançou depois, Tobe Hooper sempre será lembrado pela originalidade de O Massacre da Serra Elétrica. O filme foi realizado com uma liberdade artística evidente e não temeu em ser ousado. Nos anos 1970, o hype era ser politicamente incorreto e os excessos de toda esta geração foram escancarados com a crueza necessária em câmeras de 16 mm neste exemplar singular do cinema independente.

A suposta lenda urbana de um grupo de jovens vítimas de uma família redneck do Texas é uma coletânea de lendas, fatos e preconceitos que ajudam a construir e/ou consolidar um arquétipo do medo. O tema por si é indigesto e, para piorar, a construção dos personagens e situações passam a impressão de que estamos diante de um vídeo amador - o pesadelo parece mesmo real. Sem falar no insaciável combustível hedonista quer perpassa não só o que vemos na tela, mas a produção como um todo. Ao contrário de qualquer conceito do establishment atual, somos deleitados com um festival de seqüências perturbadoramente antológicas.

Antologia suja construída com a desconstrução de mitos do american way of life: veterano de guerra ardil e sanguinário, a morte de um cadeirante sem qualquer valoração por conta das suas limitações e a nada convencional cena de jantar em família são apenas exemplos. Revi um dia desses e o filme continua original, anárquico e assustador. E para alfinetar os moderninhos, vale salientar que não há remake violento e bem produzido que faça jus ao original.

Ponto Alto: a cena da primeira morte com a marretada na cabeça.

Ponto Baixo: não que tenha feito falta, mas vamos dizer que faltou um pouco mais de exploração da sensualidade da protagonista.

20 de novembro de 2008

Falcões da Noite

Filme policial estiloso e casca grossa ambientado em uma úmida Nova Iorque no início dos anos 1980. Astros de primeira linha, violência sem frescura e ainda uma trama de terroristas com atentados na Europa. Falcões da Noite é um filme bom, mas não passa disso, pois em momentos cruciais da trama seus realizadores optaram por lançar mão de uma ironia que pode soar agressiva a quem curte o gênero. Particularmente, não gostei de certas resoluções que tiraram o foco do contexto violento e sério que pautava a obra até então. Pensando com calma, depois da cena do teleférico – estilo 007 fanfarrão - tudo já tinha ido por água abaixo mesmo e a tal “sacação final” apenas pôs fim a quem, assim como eu, ainda acreditava em alguma redenção.

Pois bem, vamos falar das flores. Stallone faz o cana barra pesada Deke DaSilva - veterano da guerra do Vietnã, cheio de marra, que marca território com o cabelo grande, a barba e o inseparável casaco de couro. Seu parceiro de polícia é outro poço de estilo, o bruto Matthew Fox (o galã Billy Dee Williams) – os dois vivem armando botes em traficantes e ladrões dos bairros mais violentos de Nova Iorque. Fazem um excelente trabalho, mas são rechaçados constantemente pelos superiores. A propósito, DaSilva está em uma fase de reconciliação com a ex-mulher Irene (vivida pela famosa Lindsay Wagner, em papel pequeno). Do outro lado da linha, temos o terrorista Wulfgar (Rugter Hauer, sempre mesclando elegância e agressividade na dose certa) que depois de aprontar nas ruas de Londres e Paris se manda para Nova Iorque para fazer valer uma lógica política precipitada mal explicada no filme. Wulfgar ainda conta com o apoio da bela Shaka (Persis Khambatta).

O diretor Bruce Malmuth - que, entre outros, fez o figurinha carimbada da sessão de gala Onde Estão as Crianças? e também Difícil de Matar com Steven Seagal - sabe criar estilo, mas tem mão frouxa na condução da trama. A despeito de tudo nos deleitamos com cenas pra lá de icônicas, como a perseguição que se inicia na boate e termina na estação do metrô e a canastrice de Stallone fazendo beicinho ao receber a notícia de que em uma situação de risco pode haver a possibilidade de ferir alguém para deter o tal terrorista. No fim, o saldo positivo se deve a bela construção de algumas seqüências. Mesmo assim, não vale a consciência pesada, pois se nem os realizadores levaram o filme a sério, não é o publico que os vai redimir!

Ponto Alto: Billy Dee Wiliams faz o coadjuvante dos sonhos de todo o protagonista – dá uma força, se machuca, mas sua presença no fundo pouco acrescenta – nada sabemos sobre o personagem ao longo trama. No caso de Falcões da Noite, ele apenas impregnou os frames de estilo.

Ponto Baixo: as cenas de drag queen.

31 de outubro de 2008

La Casa Dalle Finestre Che Ridono


O filme não é de todo ruim, mas por comentários de amigos, confesso que esperava mais. A estória do restaurador Stefano (Lino Capolicchio) que ao chegar a uma pequena cidade italiana passa a investigar estranhos acontecimentos ocorridos com o pintor do afresco de São Sebastião que tenta restaurar é razoável, mas sinceramente careceu de um roteirinho mais bem elaborado e de uma produção melhor acabada. Enquanto o incipiente investigador adentra nos meandros da cidade e descobre os segredos de seus habitantes somos atacados por uma horda de situações lugar-comum que veríamos depois em uma infinidade de obras. Não há como discutir o caráter inovador do filme em 1976, como também não há como negar que La Casa... não resistiu tão bem ao tempo e, numa inversão irônica, acabou por se tornar uma obra comum.

Vamos aos fatos – Stefano tem um amigo na cidade que tenta alertá-lo do perigo em investigar os desdobramentos da vida do pintor, mas o que ocorre? O amigo morre. O tal mistério principal envolve um caso de família mal resolvido e todos na cidade têm consciência dos crimes, mas o único disposto a falar é um bêbado (o Coppola de Gianni Cavina), que logicamente carece de credibilidade. Há o affair do protagonista (a bela Francesca – Francesca Marciano) a quem desconfiamos no início, mas descobrimos a posteriori ser apenas mais uma vítima. A polícia não descobre nada quando é convocada pelo incauto investigador. E, por fim, o personagem mais óbvio aparece como o derradeiro vilão. Ou seria vilã? Por mais simpáticos que sejamos ao gênero, é fato que a produção sucumbiu à superexposição dos próprios clichês.

Infelizmente, a concepção estética da produção também tende ao local comum. Obviamente, o filme é bem retratado, a música é boa e algumas seqüências realmente causam tensão. Entretanto, não há nada no filme de Pupi Avati que se destaque. Mais uma vez tudo (ou quase tudo) caiu na vala comum. Não há como negar que contemporâneos e conterrâneos de Avati como Argento e Fulci são bem mais gráficos não só do ponto de vista da violência, mas também no acabamento estético. Por outro lado, é impossível não reconhecer que assistir ao filme é uma boa diversão. La Casa.... tem um bom ritmo e apesar de óbvia, a trama prende a atenção. Até o lugar comum do cinema italiano lá nos 1970 é diferenciado.

Ponto Alto: o melhor momento, sem dúvida, é a tomada com a tal "casa das janelas que riem”.

Ponto Baixo: faltou um pouco mais da boa e velha sensualidade italiana.

21 de outubro de 2008

Cidadão X


A história da caçada da polícia soviética ao insaciável serial killer Andrei Chikatilo deu um excelente telefilme com gente do porte de Stephen Rea, Donald Sutherland e Max von Sydow no elenco. Na verdade, a história é focada nas perrengas enfrentadas pelo médico-legista Viktor Burakov (Rea) elevado à condição de investigador e perseguidor do mais cruel assassino da cortina de ferro, que matou mais de 50 jovens nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Toda a investigação passava pelo crivo do partido comunista e os problemas eram muitos, não só pelo ponto de vista ideológico, mas principalmente pelas limitações estruturais.


O filme faz severas críticas ao sistema comunista e uma coisa ou outra ainda parece provocação gratuita (uma vez que Citizen X é de 1995), mas é evidente a falta de tato por parte do governo soviético para enfrentar um monstro como Chikatilo (aqui vivido com a angústia necessária por Jeffrey DeMunn). Mas será que é simples enfrentar um homem que leva uma vida aparentemente normal, mas para saciar um instinto bizarro ou uma frustração deplorável molesta e mata crianças? Definitivamente não, uma vez que do lado de cá da ficção, países ricos sofrem com a profusão destes monstros sociais, cuja imprevisibilidade da atuação torna praticamente impossível qualquer ação de prevenção. O que países com um aparato tecnológico melhor e um banco de dados mais completo geralmente faz é identificar e tirar de maneira mais célere o serial killer de circulação, pois no caso de Chikatilo o próprio governo soviético se negava a acreditar na existência de um assassino tão brutal – o que realmente dificulta e muito qualquer trabalho.


Apesar de detalhes como o fato de todos falarem inglês na União Soviética (isto me causa incômodo desde Casa dos Espíritos) e o protagonista ser um ser humano composto apenas de virtudes deixarem a produção com a cara da boa e velha dialética maniqueísta do cinema americano, isto não estraga o fato de Cidadão X ser uma produção intrigante e muito bem realizada. Na verdade, o que importa é que o filme é bem conduzido e deixa o espectador ligado até os créditos finais. E olha que estamos falando de uma produção feita para a televisão. Merece e muito ser descoberto.


Ponto Alto: Donald Sutherland como o oficial irônico que agiliza por baixo dos panos as coisas para o esforçado Burakov destila talento. E olha que o pai do nosso querido Jack Bauer levou no piloto automático.


Ponto Baixo: A entrada do psiquiatra interpretado por Sydow, que cria o tal relatório Cidadão X com o perfil psicológico do assassino é feita de supetão. A importância do personagem é fundamental na trama, entretanto ele é muito mal explorado.

2 de outubro de 2008

Abre Los Ojos


Quando Tom Cruise e Cameron Crowe realizaram Vanilla Sky todos acharam o filme diferenciado e correram atrás do original, idealizado por Alejandro Amenábar e protagonizado por Eduardo Noriega um tempinho antes. Muitos se frustraram com o filme espanhol, mas o preconceito é infundado, pois, apesar da versão americana ser mais bem realizada (produção caríssima e tal), é fato que não é mais interessante (e muito menos original, obviamente) que seu antecessor. Enquanto Tom Cruise - apesar de qualquer preconceito que se possa ter contra o cara - passeia quando posto em comparação com o nosso eterno platinha queimada Noriega, Cameron Diaz definitivamente não é melhor que sua rival latina (Najwa Nimri) e no duelo Fele Martínez versus Jason Lee sugerimos um empate técnico com ligeira vantagem para o americano. Como Penélope Cruz é a tal musa Sofia nas duas produções e o personagem do psquiatra tanto faz como tanto fez, deixamos o desempate para outro diferencial que é o clímax do filme. E aqui é inegável que o original é mais sustentável que seu primo rico. Sem falar que ter a idéia original também conta pontos e, dessa forma, o ouro vai para Amenábar.


Novamente acompanhamos a trajetória do playboy mulherengo (mas sensível e inteligente) que se vê diante de um dilema ao comer o pão que o diabo amassou depois que fica deformado por conta de um acidente. Ele tinha tudo e com o rosto destruído desliga-se de um mundo no qual sempre reinou como protagonista. Ele não sabe lidar com a sensação de ser desagradável, e aí parte para um tratamento nada convencional. O bom do filme é que a galera com menos de 40 anos vai se identificar com dilemas como envelhecimento, eternidade, beleza, desejo, dinheiro, sexo... Um estudo superficial e deliciosamente pop, mas que inegavelmente causa reflexões. Não é mania de moleque metido a indie não, mas que este pequeno clássico moderno fica ainda mais autêntico e charmoso com sotaque latino isso fica. Pode acreditar!


Ponto Alto: Penélope Cruz quando fala espanhol é mesmo uma atriz diferenciada. É aqui ela se sobressai.


Ponto Baixo: o roteirista teve uma idéia, colocou no papel e viu que o negócio era bom pra ser filmado, entretanto a produção, nitidamente sentido o peso da falta de dinheiro, acaba por exagerar na improvisação em certos momentos. E é nesses momentos que refletimos como a máquina hollywoodiana sabe mesmo tornar mais críveis as fantasias.