Watchmen

Impressões pessoais sobre cinema


Ao acompanharmos as aventuras de Jeff (ChowYun-Fat), entendemos em detalhes o porquê de John Woo ter se tornado um objeto tão cult entre cineastas moderninhos do mainstream americano. As construções das várias seqüências de ação são realmente de tirar o fôlego. Tiros, sangue, tiros, pombos, tiros, roupas brancas, tiros, acordes histriônicos, tiros... O estilo do cineasta que foi consagrado a posteriori com obras mais “limpas” como A Outra Face e Missão Impossível II transborda por aqui. Estamos falando do auge de Woo no cinema chinês – violência, estilo exagerado, cafonice e uma pieguice de fazer corar roteirista de novela mexicana.
A trama gira em torno da amizade entre um ético matador profissional (Fat) e o policial (Danny Lee) que o persegue. Jeff mata bandidos e é um cara cheio de honra e em um tiroteio acaba ferindo a cantora Jenny (Sally Yeh) e a deixa praticamente cega. Sente-se culpado e topa um último serviço para conseguir um transplante de córnea para a garota. Cumpre o serviço, mas acaba vítima de uma emboscada e tem início a sua perseguição pelo policial vivido por Danny Lee. O sucesso de O Matador não vem de sua trama, mas da maneira com a qual o diretor constrói as belas cenas de ação; os movimentos dos heróis são belíssimos, cheios de estilo. Em contraponto, há vilões caricatos que deixam nítido a contradição entre o belo e o feio. Palavras de honras pra lá de afetadas, muitos (mas muitos) tiroteios e um melodrama de arder os olhos em um filme que fez de Woo um mito. Aqui o diretor contou com o apoio do produtor Tsui Hark (aquele mesmo, o diretor de Era Uma vez na China) e do super astro Chow Yun-Fat. Simplesmente irresistível.
Ponto Alto: o humor estilo pastelão me incomoda.
Ponto Baixo: a plasticidade das sequências de ação continua insuperável, mesmo depois de tantas imitações.
Entre os dias 22 de junho e 02 de julho, os paulistanos poderão desfrutar do SP TERROR - Festival Internacional de Cinema Fantástico. Os filmes serão exibidos nas salas da Reserva Cultural na Avenida Paulista. São mais de 30 títulos com destaque para o sueco Deixe Ela Entrar de Tomas Alfredson (eu nunca vi, mas já li que a coisa é boa) e o brasileiro Mangue Negro, filme de zumbis dirigido por Rodrigo Aragão. Outro produções que não posso deixar de citar são o britânico Lesbian Vampires Killers de Phil Claydon e Solos do chileno Jorge Olguín. Mas a lista é grande e não pára nisso; têm filmes argentinos, japoneses e também independentes americanos.
O SP TERROR terá ainda duas mostras competitivas: a internacional e a iberoamericana. Os jurados são do quilate de José Mojica Marins (dispensa apresentação), Dennison Ramalho (cineasta de curtas como Amor Só de Mãe), Erico Borgo (crítico de cinema – site Omelete – lembra?!) e Leopoldo Tauffenbach (artista plástico e “dono” do recém-lançado blog Cine Demência). Oportunidade imperdível para a galera de Sampa. Aqui em Brasília, resta ficar morrendo de inveja ou programar uma viagem de última hora. Quem sabe?
Serviço – www.spterror.com





Quem viu o novo filme de David Fincher com certeza vai o comparar a Forrest Gump. E a semelhança com a obra de Zemeckis não é à toa – os roteiros foram concebidos pelas mesmas mãos. No caso, as mãos de Eric Roth. Não sei se isso é bom ou ruim – pois apesar do inegável talento em dar vida a personagens fascinantes - Roth enfraquece o foco deste Benjamim Button, que é a ação implacável do tempo. E há outras peculiaridades que detonam com a pretensão épica idealizada por Fincher: a estrutura narrativa não é nada inventiva (e, como diz um amigo, lembra Titanic), a maquiagem e os efeitos comprometem qualquer verossimilhança (tudo bem que o tom era de fábula, mas fica o registro) e certas “liberdades poéticas” são, no mínimo, inadequadas (aceito sugestões para seqüências mais piegas que a do beija-flor).

Fui todo empolgado ver o novo de Woody Allen e saí decepcionado. O tema do pragmatismo dos americanos versus o espírito libertários dos europeus é batido e o cineasta não apresentou nada de novo, na verdade se afundou em um sem fim de situações comuns. Minha memória só conseguiu buscar Só Você – farofa com Marisa Tomei e Robert Downey Jr. que enriqueceu nosso capenga vocabulário romântico há uns bons 10 anos atrás. A ciranda de paixões propostas por Allen em Vicky Cristina Barcelona é falsa e mal estruturada e, assim, somos levados a crer que não é obra de um artista genialmente cínico que tem o poder de interpretar situações cotidianas como nenhum outro.
Este clássico do horror é presença obrigatória na lista de quem se aventure a entender o cinema americano. O filme tem um tom documental genuíno que empresta uma urgência desesperada ao espectador – uma sensação que vai além do medo. A grande obra de um cineasta, tanto que, a despeito do relativo sucesso comercial que alcançou depois, Tobe Hooper sempre será lembrado pela originalidade de O Massacre da Serra Elétrica. O filme foi realizado com uma liberdade artística evidente e não temeu em ser ousado. Nos anos 1970, o hype era ser politicamente incorreto e os excessos de toda esta geração foram escancarados com a crueza necessária em câmeras de 16 mm neste exemplar singular do cinema independente.


A história da caçada da polícia soviética ao insaciável serial killer Andrei Chikatilo deu um excelente telefilme com gente do porte de Stephen Rea, Donald Sutherland e Max von Sydow no elenco. Na verdade, a história é focada nas perrengas enfrentadas pelo médico-legista Viktor Burakov (Rea) elevado à condição de investigador e perseguidor do mais cruel assassino da cortina de ferro, que matou mais de 50 jovens nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Toda a investigação passava pelo crivo do partido comunista e os problemas eram muitos, não só pelo ponto de vista ideológico, mas principalmente pelas limitações estruturais.
O filme faz severas críticas ao sistema comunista e uma coisa ou outra ainda parece provocação gratuita (uma vez que Citizen X é de 1995), mas é evidente a falta de tato por parte do governo soviético para enfrentar um monstro como Chikatilo (aqui vivido com a angústia necessária por Jeffrey DeMunn). Mas será que é simples enfrentar um homem que leva uma vida aparentemente normal, mas para saciar um instinto bizarro ou uma frustração deplorável molesta e mata crianças? Definitivamente não, uma vez que do lado de cá da ficção, países ricos sofrem com a profusão destes monstros sociais, cuja imprevisibilidade da atuação torna praticamente impossível qualquer ação de prevenção. O que países com um aparato tecnológico melhor e um banco de dados mais completo geralmente faz é identificar e tirar de maneira mais célere o serial killer de circulação, pois no caso de Chikatilo o próprio governo soviético se negava a acreditar na existência de um assassino tão brutal – o que realmente dificulta e muito qualquer trabalho.
Apesar de detalhes como o fato de todos falarem inglês na União Soviética (isto me causa incômodo desde Casa dos Espíritos) e o protagonista ser um ser humano composto apenas de virtudes deixarem a produção com a cara da boa e velha dialética maniqueísta do cinema americano, isto não estraga o fato de Cidadão X ser uma produção intrigante e muito bem realizada. Na verdade, o que importa é que o filme é bem conduzido e deixa o espectador ligado até os créditos finais. E olha que estamos falando de uma produção feita para a televisão. Merece e muito ser descoberto.
Ponto Alto: Donald Sutherland como o oficial irônico que agiliza por baixo dos panos as coisas para o esforçado Burakov destila talento. E olha que o pai do nosso querido Jack Bauer levou no piloto automático.
Ponto Baixo: A entrada do psiquiatra interpretado por Sydow, que cria o tal relatório Cidadão X com o perfil psicológico do assassino é feita de supetão. A importância do personagem é fundamental na trama, entretanto ele é muito mal explorado.
Quando Tom Cruise e Cameron Crowe realizaram Vanilla Sky todos acharam o filme diferenciado e correram atrás do original, idealizado por Alejandro Amenábar e protagonizado por Eduardo Noriega um tempinho antes. Muitos se frustraram com o filme espanhol, mas o preconceito é infundado, pois, apesar da versão americana ser mais bem realizada (produção caríssima e tal), é fato que não é mais interessante (e muito menos original, obviamente) que seu antecessor. Enquanto Tom Cruise - apesar de qualquer preconceito que se possa ter contra o cara - passeia quando posto em comparação com o nosso eterno platinha queimada Noriega, Cameron Diaz definitivamente não é melhor que sua rival latina (Najwa Nimri) e no duelo Fele Martínez versus Jason Lee sugerimos um empate técnico com ligeira vantagem para o americano. Como Penélope Cruz é a tal musa Sofia nas duas produções e o personagem do psquiatra tanto faz como tanto fez, deixamos o desempate para outro diferencial que é o clímax do filme. E aqui é inegável que o original é mais sustentável que seu primo rico. Sem falar que ter a idéia original também conta pontos e, dessa forma, o ouro vai para Amenábar.

Trata-se daqueles filmes orientais violentos, mas este aqui está longe de ter um roteiro elaborado ou alguo emblemático. Na verdade, aqui não há absolutamente nada de inventivo – um grupo de jovens (alguns são tão jovens que parecem crianças) se perde em meio a uma floresta e são mortos pelo sobrenatural (no melhor estilo Premonição) ou por um serial killer (aqui vamos de slasher mesmo). Sempre que o pesadelo está para acabar, mais surpresas. E, por fim, o confronto final que não é tão FINAL assim...
Estamos falando de uma produção tailandesa com pinta e estilo de filminho americano, mas então por que ver este tal de Rap Nawng Sayawng Khwan? Simples – o gore. Obra de arte neste quesito!!! Cada coisa exagerada e pra lá de divertida. Para os iniciados um deleite, pra quem não ta acostumado só vai ter de novo o estilo silábico e entoado de falar dos tailandeses, logicamente mais próximo dos chineses que dos japoneses. Mas é importante avisar que ninguém vai passar alheio a tanta sangueira. Esqueça completamente o senso crítico e boa diversão. Vale a pena.
Ponto Alto: gore, gore, gore, gore.
Ponto Baixo: a forçada no desfecho é uma das coisas mais imbecis que vi nos últimos tempos. Pode até amarrar algumas coisas que acontecem durante o filme, mesmo assim não dá pra aceitar de coração aberto.

Numa comparação ousada, atrevo-me a dizer que Tim Burton é uma espécie de Fellini da nova geração. Ao invés da estrutura onírica do primeiro, o nosso amigo é soturno e tem preferência por uma atmosfera gótica. Assim como o italiano, Burton criou seu universo nos filmes – todos os personagens são pálidos e o tom que prevalece é o cinza. E adiante nesta comparação inusitada, digamos que o Marcello Mastroianni do americano seja Johnny Depp. Não há dúvida sobre a eficiência da dupla que já provou a fina sintonia em filmes como Ed Wood, Edwards – Mãos de Tesoura e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Burton diz que adora trabalhar com o astro, pois ele não tem medo de se colocar nas mais inusitadas situações; sem falar que o aspecto camaleônico do ator é fundamental para o sucesso da parceria.
O clássico maior da era da Disco Music. O filme é forte em suas imagens e na construção do conceito de uma época. Para isso a parte técnica ajudou bastante - teve até inovações na câmera (steady-cam - câmeras menores sem o uso de tripés, rodas ou outros acessórios) a fim de mostrar com mais precisão o rebolado de John Travolta. O filme também é intenso não apenas pelo colorido da Discoteca 2001, mas pelo clima depressivo e questionamentos que pesam na trajetória de Tony Manero.














Um dos poucos filmes baseados em obra de Stephen King que conseguem superar a mediocridade literária do escritor e fazer cinema de qualidade. Neste caso, o mérito recai sobre os ombros do nosso bizarro canadense David Cronenberg, que faz um filme acertado em quase todos os aspectos. O cineasta segue a cartilha de coisas estranhas acontecendo com gente comum em um ambiente frio e desconfortável. O lugar, acho que é Colorado, funciona como um personagem soturno e branco, mas jamais aconchegante. As pessoas são aquelas branquelas do início dos anos 1980 com óculos grandes e roupas de inverno sem cor. Enfim, Cronenber na veia.


















































