9 de fevereiro de 2006

Possessão



Parafraseando o mais picareta dos paladinos brasileiros: Isabelle Adjani desperta em mim, os instintos mais primitivos. A francesa é um enigma, tem traços perfeitos e transmite uma sensação de urgência iminente. Vai fazer a vítima se apaixonar, usando não a sensualidade, e sim a fragilidade que pede proteção. Depois, o desprezo frio e implacável. E em Possessão, ela usa deste poder com ênfase nada eufêmica. Os surtos são incontroláveis e os momentos de fraqueza de uma intensidade comovente.

Possessão é obra do polonês Andrzej Zulawski e causou furor nos festivais de cinema, inclusive no Brasil, ao abordar a estranha relação de uma dona de casa de Berlim com uma criatura horrenda. A estória de Anna (Adjani) vai além de um caso de adultério e propõe um estudo altamente complexo das motivações e insatisfações humanas. Apesar de casada com o ausente Mark (Sam Neill) e ter o escape do amante Heinrich (Heinz Bennet), Anna está insatisfeita. A esposa expressa sua infelicidade em crises coléricas – tudo em tom forte, retratado por uma fotografia fria. Mark lança mão até de um detetive e este descobre que a esposa divide um apartamento com um possível amante. Mark ainda se envolve com a professora do filho, a suave Hellen (Adjani, novamente). Enquanto isso, o bizarro monstro vai se metamorfoseando em homem e Anna sente a transformação por meio de convulsões e ataques de ira. O final é arrebatador.

As interpretações são várias e se confundem neste universo assustador e profundamente angustiante proposto por Zulawski. O filme é deprimente, pois não permite concessões. Tudo é visceral, urgente, desesperado. Adjani se entrega e se desgasta na dupla Anna/Helen. Mark, por sua vez, sente-se culpado e procura no abandono da esposa uma motivação pra continuar de pé, fato que fica claro na insegurança que demonstra ao lidar com a professora do filho. Há um embaraço de sentimentos e personalidades, que machucam não apenas o personagem de Neill, mas o próprio espectador.
O ritmo de Possessão é lento e desconfortável, compensado por momentos de intensidade lacerante. A aparência bizarra da criatura e momentos de pura agressão visual esfregam na cara do espectador a urgência em mandar uma mensagem desesperada. Uma insatisfação da Europa pós-guerra (não à toa, a trama se passa em Berlim) sem esperança e insatisfeita com a monotonia de vidas medíocres. Como uma obra de arte bem estruturada e que simplesmente não acaba em si mesmo, Possessão permite uma infinidade de alegorias (homem com meias cor-de-rosa). É preciso talento pra se permitir tantos abusos. A ressalva fica por conta de que o filme é para ser apreciado e analisado a posteriori, no momento da projeção o impacto é direto no estômago.

Ponto Alto: a interpretação desajustada de Heinz Bennet, que faz um alemão efeminado que vive com a mãe. O amante mais ambíguo possível. Até o suspiro de Possessão é carregado.

Ponto Baixo: Sam Neill fez sucesso demais depois do filme. Sua cara de Jurassic Park alivia, infelizmente, a áurea transgressora da produção.

2 Comments:

Anonymous Eduardo Aguilar said...

Estou adorando o blog, recomendado q. fui pela 'genial' Andréa Ormond, e claro, se não é possível ler todos os textos de uma vez, eu tinha q. ler o sobre "Possessão", um filme de cabeceira, mas apesar de vc. ter mandado super bem, discordo sobre o 'ponto baixo', Sam Neill é a escolha certa exatamente pelo motivo q. vc. aponta como negativo.

11:26 PM  
Anonymous Michael Carvalho Silva said...

Amo demais a Isabelle Adjani. Ela é uma atriz francesa belíssima e extremamente talentosa que nem a igualmente fabulosa Sophie Marceau. O Sam Neill é maravilhoso também.

8:22 PM  

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