9 de fevereiro de 2006

Carrie, a Estranha


O sucesso comercial de Stephen King não esconde suas imensas limitações artísticas. Isso, porém, não impede e funciona até como incentivo para que suas obras fáceis sejam adaptadas aos milhares para o cinema e televisão. Como não podia ser diferente, o resultado é assustador, no mal sentido. Entretanto, há exceções. São obras como O Iluminado de Kubrick e Christine de Jonh Carpenter - mérito integral dos cineastas e não do fio de trama puxado por Stephen King. No meio dessas exceções, há Carrie, a Estranha, que não por acaso ganhou status de cult. O filme concorreu a dois oscars (atriz e atriz coadjuvante, Spacek como Carrie e Piper Laurie, no papel da mãe repressora) e ganhou alguns prêmios, além de ter sido um sucesso de bilheteria. Mas não é esse reconhecimento comercial que faz de Carrie um filme acima da média, e sim a coragem em se assumir como uma obra baixo astral e angustiante. Além, é claro, de abordar com propriedade o universo feminino.

O filme é extremamente feminino (não feminista) ao centrar sua trama nos conflitos de mulheres e ao apresentar homens como meros instrumentos. Os “machos” simplesmente não têm importância, não tomam nenhuma atitude, seja o professor de literatura efeminado ou o galã, que apenas personifica a ascensão social. A passividade masculina incomoda. O momento em que a maquiavélica Chris Hargenson (Nancy Allen) convence o namorado Billy Nolan (John Travolta) a participar de uma sórdida brincadeira usando de recurso sexual é um reforço da fácil manipulação do sexo masculino.

Direção eficiente de um jovem Brian de Palma e uma enxurrada de possíveis astros e estrelas dão o tom certo a trama da menina com poderes de telecinese. Soma-se a isso o estilo setentista em pleno auge, o filme é de 1976. Cabelo, carros, gírias, maquiagem, roupas – enfim, tudo lembra aquela época. Tanto que assistir ao filme em DVD remasterizado acaba sendo um aspecto negativo, pois Carrie é pra ser visto em VHS usado.

A trama mostra a menina insegura, motivo de chacota na escola, simplesmente, por ser introvertida. Pausa para a interpretação perfeitamente melancólica de Sissy Spacek (na época com 27 anos) e o uso adequado de seus grandes olhos azuis. Carrie White também traz na mãe Margaret (Piper Laurie), fanática religiosa e protetora, outro fardo. Escrito por Lawrence D. Cohen (especialista em adaptar obras de Stephen King), o roteiro não é nada sutil em mostrar o “talento” da menina. Em menos de 20 minutos de projeção, Carrie já faz uso da tecinese em três situações e parece controlar com perfeição absoluta seus poderes. Bem, o lance é que as populares da escola recebem uma punição severa da professora de educação física, Srta.Collins (Bett Buckley), pelas zombarias que fazem com Carrie. A mimada Chris não aceita e acaba sendo severamente punida com a não-participação no aguardado baile de sêniors. Resultado: brincadeira brutal pra cima de Carrie. Por fim, a inevitável vingança da menina no baile.

Além de Carrie, uma personagem secundária tem destaque - Sue Snell (Amy Irving). A menina é uma descolada bem resolvida e com família estável que se sensibiliza com a inocência de Carrie e oferece o namorado bonitão Tommy Ross (William Katt) como parceiro para a garota no baile. A motivação de Sue parece ser cruel, mas depois descobrimos que é ato de puro altruísmo. Mal estruturado, uma vez que a atitude do casal não se encaixa com o posicionamento desleixado e arrogante dos personagens no início do filme. Estamos diante de personagens complexos e bem elaborados com motivações oscilantes como nos romances de autores russos? Pouco provável – Carrie é um excelente filme e ousa em vários momentos, mas é cinema americano baseado em obra de Stephen King! Fico com a opção de que seja um falsete do roteiro para humanizar mais as personagens da trama.

A cena inicial e a apresentação dos créditos, por sua vez, são atrevidas em mostrar a nudez frontal das garotas no vestiário feminino, a alegoria é lúdica. O contraste com a zombaria, destacando risadas sarcásticas em primeiro plano, é um ponto forte do filme. Aliás, no início, a ignorância de Carrie em lidar com a primeira menstruação é desconfortante. Ela fica no chuveiro, confusa e angustiada com a situação. No pós-clímax, Carrie volta a se lavar do sangue agora impregnado em todo o corpo. A condição de mulher extrapolou a da menina, então ela se lava e volta a triste, mas confortável e inocente posição inicial. Enfim, uma obra bem acabada e que proporciona reflexões que vão além do maravilhoso desbunde visual no massacre no baile.

Ponto Alto – as referências a Hitchcock, principalmente Psicose, que vão da música à composição de personagens e cenários. O colégio chama-se Bates High.

Ponto Baixo – seqüências engraçadinhas, como a que um personagem experimenta com amigos a roupa do baile, vão de encontro ao clima pesado da produção.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Só pra constar...
na lista de excessões de stephen.. está "Cemitério Maldito"... que será brevemente "remakerizado"..
obrigado pelo espaço!

5:14 PM  
Blogger Juarez Junior said...

Giancarlo. Cara, novidade essa pra mim! Quer dizer que está pra sair uma nova versão de Cemitério Maldito... Gosto muito desse filme. A galera não perde tempo hein?! Se não me engano a produção é de 1989.
Abração!

8:36 AM  

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