11 de novembro de 2007

O Fim e o Princípio


Sou fã de Eduardo Coutinho. O cara tem uma técnica genuína e um acabamento estético ímpar em seus documentários. Merece sim toda a badalação em torno de seu nome. O Fim e o Princípio apenas corrobora seu talento. No entanto, a repetição do tema sertanejo forte, que não é novidade desde a época de Euclides da Cunha, e a falta de um direcionamento para a produção fazem deste uma obra menor – ao menos, na minha opinião - na trajetória de Coutinho.

Essa falta de direcionamento é explicitada no primeiro minuto do filme, quando o cineasta confirma que vai filmar sobre alguma coisa no sertão nordestino. E a intenção é que a coisa flua no decorrer das gravações. Uma câmara na mão e uma idéia na cabeça (olha que original?!) Ele pára, então, em uma cidade do interior da Paraíba a fim de descobrir algum agente da Pastoral da Criança que conheça a região para lhe dar um direcionamento. Encontra a desenrolada Rosa, mas no primeiro contato com pessoas de uma vila rural mais afastada percebe que o filme deve virar apenas um canal para o sertanejo apresentar queixas contra as condições insatisfatórias do lugar, do trabalho... Solução para fugir do panfletário – filmar as pessoas do vilarejo (Araçás) da simpática guia.

Aí é aquele exercício de estilo primoroso do cineasta no retrato dos anciãos sertanejos. Os rostos marcados por rugas e as mãos calejadas da lavoura não têm cultura, mas sabem muito da vida. E apesar de apontar um canhão para a pessoa e logicamente tirar um pouco da naturalidade do cotidiano, Coutinho sabe deixar o entrevistado o mais relaxado e natural possível. O cineasta se anula quando é possível e proporciona aqueles imensos e constrangedores silêncios nas explanações dos paraibanos. Na questão de se anular, destaque para a cena em que alguém pergunta se o cineasta acredita em Deus.

O respeito às pessoas é imenso e não há aquela forçada de tornar as cenas emocionantes ou de manter o distanciamento maravilhado e babaca no retrato de vidas tão diferentes. O filme é visceral, seco – sempre tive a impressão de que Coutinho nos deixa aquele amargo na boca que só se tem ao ler Guimarães Rosa. Agora, é fato que ao focar tão somente o rosto de uma pessoa a imagem causa estranhamento ao próprio retratado. E o filme brinca com isso, como na seqüência em que uma senhora vê uma foto dela com um cachimbo. O Fim e o Princípio seria a obra definitiva de muita gente, mas em relação a Coutinho vou buscar em Cabra Marcado para Morrer a essência da sua obra.

Ponto Alto: a fotografia é arrebatadora.

Ponto Fraco: pouco mais de uma hora já estava de bom tamanho, mas filmar todas as pessoas praticamente duas vezes deixa o filme arrastado demais. Fica chato!

3 Comments:

Anonymous Graziele said...

Já disse que você escreve muito bem? Acho que sim, mas é fato!
Beijos.

11:48 AM  
Blogger Juarez Junior said...

Vc que é extremamente gentil!

Obrigado.

Bj

10:22 AM  
Anonymous Mateus said...

Atualiza essa porra mais não?

Superbad!

2:35 AM  

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