5 de março de 2006

Pixote - A Lei do Mais Fraco


A história de Fernando Ramos da Silva é realmente uma expressão inconfundível da intolerância e hipocrisia da sociedade brasileira. Depois de protagonizar a obra definitiva sobre a delinqüência juvenil no Brasil, o garoto foi morto em 1987 em São Paulo. Ele tinha 18 anos de idade e apesar da fama repentina não conseguu se desvencilhar da deliqüência. Assassinato até hoje mal esclarecido; as maiores suspeitas recaem sobre policiais, desafetos do garoto. A simbiose perfeita entre ficção e realidade. O neo-realismo levado às últimas conseqüências. Tornou-se caso pitoresco, nota em caderno policial. Talvez uma página inteira de segundo caderno em algum grande jornal paulistano e, com sorte, alguns trabalhos acadêmicos. País ingrato sempre enaltecendo os medíocres e ridicularizando quem realmente importa. A interpretação ingênua lhe rendeu um lugar na eternidade. Ele tem o papel mais intenso de toda a cinematografia nacional. Esqueça as alegorias personificadas do cinema novo e pagadores de promessa, Fernando Ramos é absoluto! O número um.

Dizem que o filme é comparado a Os Esquecidos, que se eu não me engano foi um que Luis Buñel realizou com crianças mexicanas. Vamos dizer que Pixote apenas seguiu uma trilha aberta pelo cineasta espanhol. O uso de garotos de rua como atores foi apenas um dos fatores que trouxeram reconhecimento ao filme brasileiro. Pixote é contundente como alarme social e irretocável como construção cinematográfica. Hector Babenco nunca se repetiu e dificilmente se repetirá com tanta veemência.

Inspirado no livro a Infância dos Mortos de José Loureiro, o roteiro escrito por Babenco e Jorge Duran mostra sem falsetes a trajetória maldita de um garoto de 10 anos, apenas um dos muitos filhos de uma ninguém na periferia de São Paulo. Pixote é lançado à própria sorte em um reformatório junto com outros amigos de rua depois da morte de um desembargador em um assalto mal sucedido. A faxina nas ruas ressalta que a vida de alguns tem mesmo mais valor.

Sob a turma de Pixote recai a suspeita. Nas mãos de Sapatos Brancos (Jardel Filho, sensacional), os pequenos delinqüentes enfrentam as ingerências de um sistema feito para destruir. Apesar da pouca idade, Pixote mostra habilidade e ousadia para sobreviver em um universo com tantas hostilidades. A lei do mais fraco (ironia sobre a proteção legal aos menores de 18 anos) nunca se mostrou tão ridícula. Os parceiros são cruéis. Em um primeiro momento, o estupro de um garoto causa indignação. São monstros de verdade, bestas sociais! Visão maniqueísta que exorciza as mazelas de uma sociedade desesperada para apontar culpados.

Com o passar do tempo laços de amizade se formam na “prisão” juvenil. Pixote recebe atenção de Fumaça (Zenildo Oliveira Santos), garoto boa-praça que ao dividir um baseado com o pequeno parceiro expõe a carência infantil em sua face mais agredida. Entretanto, Fumaça vira o bode expiatório. Executado, a mãe desesperada lança a polêmica na imprensa. Rebeliões nos reformatórios e a fuga de Pixote e seus parceiros pontuam a trágica epopéia. Distantes de qualquer tipo de amparo, Pixote, Chico (Edilson Lino), Dito (Gilberto Moura) e Lilica (Jorge Julião) vão lutar pela sobrevivência em um lugar que não lhes oferece nada a não ser a palmatória.

Parênteses para uma reflexão sobre Lilica. No início, a porta para o preconceito óbvio fica escancarada diante do dublê de travesti de 17 anos. Mas se fecha com contundência ao mostrar a maturidade precoce de uma criança que ao assumir a homossexualidade nas ruas a faz com autenticidade. Esperta, dissimulada, protetora e acolhedora, Lilica se torna a peça fundamental do grupo de jovens errantes. Dito, seu homem, é quem faz às vezes de chefe, mas é Lilica quem arma todos os esquemas. Emocionante é acompanhar a interpretação improvisada de Força Estranha do Caetano em uma praia carioca “Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo...”. Forçada em princípio, a cena não resiste ao encantamento de uma segunda oportunidade.

Em 1980, a coisa não era fácil nas ruas da imensa metrópole e o grupo se envolve com gente, como o traficante blackcool Cristal (Tony Tornado). Na passagem pelo Rio de Janeiro, Dito faz o grupo cair em um golpe da picareta Glória (Elke Maravilha). A fuga da cidade maravilhosa deixa para trás Chico e seu anseio de comprar uma arma pra poder se vingar do policial que o torturou no reformatório. Sonhos comprometidos pela realidade. Por fim, os três sobreviventes armam golpes nos incautos clientes da prostitua Sueli (Marília Pêra). A mulher desinibida e amargurada tem nas crianças soluções para suprir todas as ausências – amante (Dito), desafeto (Lilica) e, obviamente, filho (Pixote). Depois de vomitar a condição de marginal, Pixote encontra no seio da prostituta uma oportunidade de desfrutar da fragilidade da infância. Pietá miserável e fundamental. Antes disso, uma pista ainda no reformatório quando Pixote fica deslumbrado diante da imagem de Nossa Senhora entrega o desespero pela ausência do amor materno.

Pixote alcançou o reconhecimento. Marília Pêra foi eleita melhor atriz do ano pela associação dos críticos de Nova York. Prêmio merecido pra um entrega tão expositiva e sem jamais soar enganosa. Festivais de cinema mundo afora também trouxeram fama para as auguras da infância perdida. Uma revista francesa chegou a colocar a produção como a terceira melhor da década de 1980, perdeu para Fanny e Alexandre (Bergman) e Ran (Kurosawa). Hector Babenco não é mais o mesmo, os garotos continuam anônimos e o resto do elenco ainda vivo luta pra sobreviver em trabalhos fáceis. No entanto, Fernando Ramos da Silva passou incólume por todo o processo de pasteurização do filme. Para esse garoto genial, apenas nossa reverência.

Ponto Alto: o personagem Roberto Pé-de-lata. No reformatório, o garoto enaltece o ídolo em uma apresentação no dia de visitas.”Eu sou o Roberto Carlos dos pobres...”, vocifera com os olhos fechados. A perna mecânica é, com certeza, uma das ironias mais inteligentes da história do cinema brasileiro.

Ponto Baixo: difícil acreditar em uma imprensa responsável e denunciativa. Hoje é um enfadonho jogo de interesses, imagine no início dos anos 80, com o Brasil sob a batuta de um general.

8 Comments:

Blogger Andréa Ormond said...

Oi Juarez,
Adorei a resenha, gosto muito de "Pixote", o filme é tão bom quanto o livro e o aspecto móvel da ação, de São Paulo para o Rio, é um bocado interessante e difícil de se encontrar no Cinema Brasileiro daquela época.
Além de todos os momentos que vc tão bem descreveu, vale acrescentar que a cena em que o Pixote e o outro amigo dele matam a Glória, a personagem da Elke Maravilha, foi gravada em uma boate que existe até hoje em Copacabana, na Rua Prado Júnior. Concordo com vc quando diz que o trecho da Lilica cantando "Força Estranha" soa forçado em um primeiro momento e gruda na memória depois :) Beijos.

3:02 AM  
Blogger Juarez Junior said...

Que honra, receber participação tão ilustre em meu humilde blog. rs
Valeu Andréa!

12:46 PM  
Blogger litle said...

Nossa muito legal seus cometários feitos sobre os filmes,já sassisti o pixote muito legal!

9:26 AM  
Blogger Nara said...

Assisti Pixote outra vez e fico chocada em por estarmos em 2009, com o ECA há 19 anos e tudo está muito pior pois agora temos o crack e o crime muito, muito mais organizado.

7:53 PM  
Blogger Prof. Cláudio Sousa said...

Maravilhosa resenha do filme!
Ah... fiquei encantado, viajando pelo passado...
Alguém sabe do paradeiro dos meninos que participaram do elenco, especialmente José Nilson Martins dos Santos?
Morro de saudade dele... Deve ter, hoje, 45 anos. Formou-se em Economia na Universidade São Luis (Hadok Lobo), Trabalhou na Universidade de São Paulo e mudou-se para os Estados Unidos na década de 1990...
Há, coisas que o tempo não apaga... seria um enorme presente rever esse menino.
Prof. Cláudio Sousa

1:39 PM  
Blogger Prof. Cláudio Sousa said...

Juarez,
Parabéns pela iniciativa, adorei o seu blog!

1:45 PM  
Anonymous Anônimo said...

Que espetáculo de post. Quem é você, por favor?

5:29 PM  
Blogger Prof. Cláudio Sousa said...

Meu nome é Cláudio Adão Alves de Sousa, sou também, baiano e dividi apartamento com José Nilson em 1996, no Centro de São Paulo. Como ele foi para os Estados Unidos, eu me mudei para a CHOAB Adventista (próximo à casa da mãe dele, na Rua Mercanteis).
Eu sou Professor de Ensino Médio e Técnico, mas também atuo como Coordenador Pedagógico de uma Escola.

9:38 PM  

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