18 de março de 2007

A Lei do Desejo


O melhor filme de Almodóvar, por acaso também é sua obra mais gay. Caramba, isso é mesmo uma proeza, levando-se em conta a genialidade do cineasta e sua insistência em retratar o tema. Aqui, temos a estória do inteligente diretor de cinema e teatro Pablo Quintero (Eusebio Poncela) e de sua irmã transexual Tina (Carmen Maura). Com a partida do jovem amante para o litoral, o cara acaba cedendo aos encantos do prestativo Antonio Benitez (Antonio Banderas). A relação entre o cineasta e seu admirador vai se tornando doentia. Pronto, as cartas estão na mesa e com o assassinato de um personagem o filme evolui, com muito bom humor, para um clímax grandioso.

O fator que mais se destaca na produção é a bem sucedida e peculiar mania de dar problemas comuns, trazer sentimentos comuns para personagens, digamos, diferentes. Neste caso, a hilária travesti Tina interpretada com maestria por Carmen Maura. Almodóvar adora abordar a questão da sexualidade e da figuração do gênero, por isso trata com tanto respeito e carinho estes personagens. Ela é muito mais que um travesti com uma história triste no passado, é uma pessoa frustrada que busca um futuro melhor ao lado da filha Ada (Manuela Velasco). Ainda sobra tempo para ser uma religiosa devota, com constantes pedidos às santas. Uma contradição marcada, mas deliciosamente verossímil. Na verdade, estranhas são a pessoas comuns (medíocres), que se fecham em seus mundinhos egoístas, caso da ausente mãe de Ada (vivida por Bibi Andersen).

Outro detalhe - o cineasta é muito bem resolvido quando o assunto é sexualidade, mas sua relação com o catolicismo é conturbada. Apesar de, a seu modo, fazer um afago na fé católica aqui e ali, ele insiste em culpar a igreja pelas escolhas sexuais alheias. De cada cinco gays almodovorianos, quatro tiveram o primeiro contato sexual com padres. Aqui, a coisa fica bem explícita com Tina, que apesar de ter traumas da infância, mantém uma fé inabalável. E com o respeito que tem por seus personagens, principalmente os travestis, essa religiosidade passou longe da zombaria.

Apesar de o homossexualismo ter uma importância primordial na trama, A Lei do Desejo vai muito além dessa ilustração. O melhor do universo almodovoriano está lá - o humor rasgado e sofisticado (contraposição que virou uma marca do cineasta), as roupas coloridas, os diálogos vibrantes, a metalinguagem bem encaixada e o clima noir que perpassa toda a obra. Em suma, Almodóvar prova mais uma vez que é muito maior que sua sexualidade e suas frustrações.

Ponto Alto: muito engraçada a relação dos dois policiais. Um veterano doidão e sensível e o outro, jovem e arrogante.

Ponto Baixo: o tal de Juan, que é o personagem central da trama, não é bem explorado. Sem falar que Miguel Molina não está no nível do filme.

5 Comments:

Anonymous P. said...

Estava navegando por entre sites e acabei aqui, lendo a história do menino Carlinhos, em um post antigo. A curiosidade me levou a atualizar a página, e, sem minimas pretensões me deparo com um texto almodoviano...
A lei do desejo é surpeendente, gosto de todos os filmes de Almodovar, porém, tenho alguns que são para mim, especiais..

1:19 PM  
Blogger Juarez Junior said...

Ainda bem que vc gostou dos textos P. Ao menos tive essa impressão. Será sembre bem-vindo (a).
Abração.
PS: Gostei do Profusion. Só citações geniais.

6:17 PM  
Blogger Rodrigo Karashima said...

isso me lembra uma coisa: vc é aluno do...? Percebe-se. hahahha

Lembranças bizarras à parte, ainda não vi Volver. Recomenda? Gostei muito de Carne trêmula, gostei de Tudo Sobre minha mãe, Fale com Ela.. mas achei Má educação + ou -.

Abraço aê!

10:58 PM  
Blogger Fausto said...

Juarez, não acredito que Juan e Miguel Molina sejam pontos baixos no filme porque são personagens pouco explorados ou superficiais... essa careterísticas de alguns personagens masculinos serem "sem sal", e justamente aqueles tais "homens perfeitos", na obra de Almodóvar tem uma intenção, é claro. Assim como leva a um sentido e provoca sentimentos, provavelmente desejados pelo diretor (e isto não entra em questão)... vamos pensar no último filme o Volver, quantos "homens de família" realmente importam no filme, a não ser os mortos?
...então para mim o filme não perde em qualidade, ao contrário ganha, pois a própria estrutura do enredo produz um sentido formal...
No mais, gostei da resenha, parabens!!

11:57 PM  
Blogger Juarez Junior said...

Grande Fausto. Pois é, essa opinião é bem pessoal mesmo... daí a divergência. Mas cinema bom causa isso mesmo. Abraço!!!

11:02 AM  

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