7 de março de 2006

Cannibal Holocaust


Qualquer pessoa que tenha o mínimo de intimidade com o universo explotation conhece a obra máxima do italiano Ruggero Deodato. O filme causou controvérsia e polêmica em um mundo famoso pelos excessos. O diferencial de Cannibal Holocaust foi apresentá-lo como uma obra real. Um documentário que acabou mal para os realizadores. A câmera tremida, a conclusão incerta e os abusos e punições dos incautos documentaristas reforçam essa concepção de realidade. A idéia é mesmo genial, por isso comparações inevitáveis que continuam até hoje. O exemplo mais fácil é mesmo Bruxa de Blair. Os produtores negam veementemente, mas que a coisa parece plágio, isso parece.

Cannibal Holocaust nos remete a origem desses deliciosos filmes feitos na década de 1970 e 80 apenas para agredir, mexer com o estômago dos espectadores. Pareciam não ter limite na tentativa de chocar os incautos. O interesse de quem produz explotations (os italianos ainda são insuperáveis, se bem que os orientais não fazem feio) é apenas um: dinheiro. Não tem mensagem política, conscientização, dever social, nada disso. Dizem que Holocaust lança aquela velha máxima de quem são os verdadeiros canibais. E quem levou a sério uma mensagem tão “profunda”? O objetivo, na verdade, é chocar o público para trazê-los ao cinema e, dessa forma, lucrar para produzir mais filmes. Motivo pouco nobre? Ao contrário, na verdade apenas um pouco de autenticidade. Assumir sexo e violência como a fórmula do sucesso. Bem mais honesto que os lobos em pele de cordeiro da indústria cinematográfica americana.

Sabe o que mais chama a atenção em quem aprecia o gênero maldito? A criatividade e a inteligência para driblar os recursos escassos. É neste sentido de improvisação que está a grande paixão. Às vezes a coisa fica somente apelativa e sem um viés satisfatório de interesse, mas quando as peças se encaixam, a impressão é que estamos diante de uma obra única. Concebida tão como o idealizador a imaginou. Isso é uma satisfação não só para os realizadores, mas também para quem aprecia o gênero. Por mais incrível que possa parecer, o acabamento técnico das produções é, na maioria das vezes, bem realizado. Música, fotografia e efeitos nos fazem esquecer que estamos diante de uma produção modesta. E os italianos são insuperáveis neste quesito.

Juntando todos esses elementos, Cannibal Holocaust é mesmo um marco do explotation. Realizado em 1979, sob a batuta de Deodatto, acompanhamos um desfile de excessos que nunca parecem “desagradáveis”. Logo na abertura, os acordes maravilhosos de Riz Ortolani e uma visão aérea da imensidão amazônica. Coisa fina! Depois, somos apresentados ao conceituado professor Harold Monroe (Robert Kerman, fez vários filmes pornôs). Famoso antropólogo de uma universidade nova-iorquina, Monroe tem a missão de ir atrás de quatro jovens que desapareceram ao se embrenharem pela floresta amazônica (Inferno Verde) a procura de personagens pitorescos para realização de um documentário. Depois de alguns contratempos, como ser recepcionado por militares nada hospitaleiros, presenciar um estupro violento e tomar banho com uma porção de nativas ousadas, o herói se depara com um monumento ornado por rolos de fita. Parece que o material pertencia ao grupo. Monroe, então, volta à civilização pra desvendar o mistério. Não sem antes desfrutar uma refeição de procedência duvidosa.

Em Nova Iorque, ao desbaratar os rolos, o professor tem contato com o material que revela o paradeiro do grupo. No suposto documentário feito pelos quatro desaparecidos está o fascínio de Holocaust. Ficamos sabendo que Allan Yates (Gabriel York), Jack Anders (Perry Pirkanen), Mark Tomasso (Luca Barbareschi) e a bela Faye Daniels (Francesca Ciardi, que para alegria da galera não economiza na nudez) são na verdade um grupinho de sádicos. Ao entrar na floresta, eles protagonizam barbáries diversas, como desmembrar uma tartaruga, matar o guia ao improvisar uma amputação e humilhar de todas as maneiras os nativos. Tudo sempre com o registro trêmulo da câmara na mão. Eles chegam ao cúmulo da filha-da-putice quando estupram uma garota e depois ficam zombam da mesma, agora empalada em uma estrutura de madeira que atravessa o ânus e passa pela boca. Ao que tudo indica, ela foi punida por ter perdido a virgindade, mesmo sendo um ato forçado. Para reforçar o tom documental, as imagens têm perspectiva subjetiva e trechos com falhas de edição.

Por fim, uma certa expectativa para a exibição da chocante reviravolta. Os forasteiros são encurralados e a tribo canibal parte para a aguardada vingança. E esta é imbatível. A cena não dura mais que dez minutos e foi realizada de maneira tão realista que faz o espectador questionar a veracidade do material. Maravilhosamente chocante. Entretenimento de primeira qualidade é isso: independente, barato e ousado! A obra continua inigualável como os próprios italianos mostraram em uma série de imitações a posteriori. Ah, os americanos também tentaram, mas sem um pingo do charme do original.

Ponto Alto: nas barbaridades dos documentaristas com os canibais, a queima das cabanas é um momento inesquecível. Cruel, a cena ganha o tom exato na música melancólica de Ortolani que invade todos os espaços. Muito bom!

Ponto Baixo: Faye Daniels mereceria melhor sorte no desfecho da trama. Sentia-se desconfortável com os abusos dos colegas, mas, mesmo assim, recebeu punição severa. Coitada, tão linda!

OBS: alguém sabe dizer se entre as imagens de brutalidades em guerras civis há trechos do clássico AFRICA ADDIO.

11 Comments:

Blogger Ailton said...

Gosto desse filme, mas gosto ainda mais de ÚLTIMO MUNDO CANIBAL. Vi em vhs numa cópia bem fuleira e dublada em português.

1:14 PM  
Blogger Juarez Junior said...

Fala Ailton. Primeiro um elogio ao seu blog! Muito bom! Quanto ao comentário, concordo contigo quase que totalmente. Na minha opinião, a tríade fundamental do ciclo canibal é formada, na ordem, por Cannibal Holocaust, Mountain of Cannibal God e Last Cannibal World.
Vc assistiu dublado em português e em cópia fuleira?! Caramba, isso sim é barra pesada!

10:36 AM  
Blogger Ailton said...

Sim, ele foi lançado dentro de uma série de filmes exploitation, tipo FACES DA MORTE ou algo parecido.

12:50 PM  
Anonymous Graziele said...

Texto muito bem escrito. Assunto muitíssimo interessante. Pena que, apesar de gostar bastante, quase não entendo de cinema... Bem, de qualquer forma, é uma boa chance de aprender um pouco mais.
Parabéns pelo blog!

8:50 PM  
Blogger Juarez Junior said...

Ailton, meu brother. Infelizmente não lembro desses VHS. Agora que vc mencionou Faces da Morte. Não gostava muito, mas adorava as piadinhas do narrador. Impagáveis. Lembra?

Graziele, fiquei feliz demais com seus elogios. Suas palavras foram extremamente gentis. Sinta-se à vontade para ler e fazer os comentários que quiser. Vc aqui é pessoa muito grata!

10:45 AM  
Anonymous Eduardo Aguilar said...

Fala Juarez!!

Ótimo texto, nada a acrescentar, a não ser pelos 'coments', pois sou louco prá conhecer "A Montanha do Deus Canibal" q. é do Martino, de qm. virei fã confesso por conta de "Tutti I Colori del Buio", q. aliás, influenciou fortemente meu último curta. Faça uma resenha do filme de Sergio Martino.

10:59 AM  
Blogger Juarez Junior said...

Eduardo, acredita que nãi vi a este famoso "Tutti I colori del Buio". É o famoso giallo com um toque de fantástico, né?
A Montanha do Deus Canibal, pedido anotado. Resenha vai sair nos próximos dias. Fico feliz com seu interesse!
Sobre seus curtas. Como faço pra ter acesso?

9:28 AM  
Anonymous Clayton said...

colegas se puderem me enviar onde posso comprar este filme e assim outros do genero, por favor enviar email para eu .

marinhomarisa@uol.com.br .



grato

4:51 PM  
Anonymous Apenaz said...

Filme simplesmente clássico!
Adorei seu texto parabéns

5:07 PM  
Blogger Juarez Junior said...

Valeu garoto,também vi e gostei do seu portal de horrorcore.

11:49 PM  
Anonymous Lincon Santos (San Sebastian, DF) said...

Gostei do seu post. Ainda não vi Holocausto Canibal, mas sempre recebi referências conflitantes a respeito: uns gostam, mesmo tendo reservas sinceras quanto às (reais) crueldades gratuitas com animais. Outros detestam, não entendem a tal "metáfora social" do diretor Deodoido. E alguns criticam supostos artificialismos e/ou defeitos técnicos, como índios estuprando ainda "vestidos" e movimentos pouco convincentes durante o ato. Falta-me ver... Abraço.

1:26 AM  

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