20 de março de 2006

Super Fly


Estilo. Palavra chave para definir o traficante Priest de Ron O'Neal em Super Fly, o filme de definitivo do blaxplotation americano. Priest era o objeto de fascínio e cobiça de todo negro das grandes cidades americanas nos loucos anos 1970. O filme, dirigido por Gordon Parks Jr em 1972, simplesmente criou a identidade cultural de toda uma geração. Uma figura de veneração no momento em que os negros passaram a se aceitar e buscar, na própria comunidade, suas referências. Ultrapassando as barreiras do cinema, o filme traçou um modismo que extrapolou o figurino e cultivou uma forma de pensar e protestar.

Para entender melhor o contexto de Super Fly, uma noção básica da situação dos negros nos EUA. Depois da escravidão, veio a servidão. Foi apenas a partir da metade do século passado que as coisas começaram a mudar. A mensagem pacifista e contestadora de líderes como Martin Luther King e Malcom X começaram a incomodar. Esses viraram símbolos pelo discurso e também pela intolerância com que foram recebidos em um país de origens racistas. Assim, a alternativa foi gritar. Desta leva, veio grupos como os Black Panthers. Conseguiram virar, a seu modo, as costas para a elite branca que, preconceituosa como sempre, se refugiou nos subúrbios com medo dessa auto-afirmação. E essa auto-afirmação veio por meio de representantes que conseguiram extrapolar as barreiras do gueto e se fazerem importante no contexto do país mais rico do mundo. Esportistas, artistas e líderes religiosos conseguiram unir em volta de si a supremacia norte-americana com cabelo black e punhos cerrados em sinal de protesto. Infelizmente não conseguiram chegar aonde queriam, mas foram ouvidos.

Junto com Muhammad Ali e companhia, Priest foi um símbolo do orgulho negro. Um traficante que planeja a grande venda para se ver livre das ruas; tem medo de matar ou morrer. Um milhão de dólares dividido entre ele e o parceiro seria suficiente. Priest é cool por excelência; cabelos na chapinha, bigodão, roupas caras, o Cadillac Eldorado e mulheres à disposição. Ele tem bom relacionamento até fora dos limites do bairro. Bem que essa última condição é contestada por um personagem no final do filme.

Priest está sempre fungando blow, dirige com desenvoltura seu carrão pelo bairro e faz caratê como hobby. No seu mundo, ele é o rei. O símbolo de esperança, uma esperança agressiva, é verdade, mas ainda sim o fôlego em meio à miséria diante da fartura. Um legítimo precursor do movimento gangsta. Orgulhoso da condição de negro, Priest confere um soco na cara de um bandidinho que diz que o seu visual é de branco. O público enlouquece.

Super Fly, no entanto, merece ser contestado ao apresentar um protagonista carismático, mas cruel e amoral. Em um dado momento, Priest diz que caso seu subordinado não lhe pague vai colocar a mulher deste no meretrício, digamos assim. Um herói sacana personificando uma estratégia de imposição social perigosa demais. Os diálogos emblemáticos com Eddie (Carl Lee) simbolizam o toque politizado em uma produção que, por trás de tanto estilo, ensaia um grito de alerta. No debate sobre o último golpe, Eddie resume o sonho americano de sua geração. “Som estéreo, televisão colorida em cada quarto e um pouco de droga à disposição”. A ostentação infantil dos rappers de hoje começou aqui. Combinação explosiva.

Voltando ao aspecto cinematográfico. A premissa é mesmo batida, mas, acredite, isto pouco importa. O que vale é ver Ron O’Neal andando pelo Harlem ao som de Curtis Mayfield em uma das apresentações de créditos mais bacanas da história. Vale ainda perceber a indiferença do protagonista perante tudo e todos. O estilo despojado e arrogante impregna cada frame com uma originalidade ímpar. Originalidade? Parece incrível, mas a estória furada de um bandido no último golpe nunca foi retratada com tanto charme. A energia vem da fusão acertada da extravagância dos anos 1970 e da autenticidade do movimento negro.

Não podemos esquecer que a obra é uma produção explotation, e, dessa forma, não podia faltar os ingredientes básicos do gênero: sexo e violência. E eles funcionam como deveriam, apenas reforçam a mensagem, jamais têm muito destaque. Os elementos se completam de maneira suave, contrapondo-se a brutalidade do racismo. Só a criatividade dessa turma genial poderia fazer de um filme como Super Fly criador de um estilo que influenciaria tantas gerações.

Para dizer que não falei dos cravos, há problemas. Erros vergonhosos de continuidade e outros defeitos que escancaram os recursos escassos da produção. Limitação que fica evidente no momento em que a polícia interroga violentamente Fat Freddie (Charles MacGregor). Detalhes que não arranham a reputação deste marco representativo do movimento negro. Esqueça Shaft e até algumas continuações paralelas e divirta-se com o melhor. Ontem, hoje e sempre – Poder Para o Povo Preto.

Ponto Alto: a trilha sonora de Curtis Mayfield já seria suficiente, mas o próprio soulman cantando Pusherman em uma casa noturna na comunidade é demais. Deslumbrante.

Ponto Baixo: a maneira equivocada em que as mulheres são apresentadas. Esta abordagem deselegante e machista se perpetuou em boa parte da maravilhosa cultura do gueto. Uma pena!

4 Comments:

Anonymous Eduardo Aguilar said...

1.º, uma nova sugestão: um filme de Jack Hill: "Faca na Garganta".

Bom, fiquei curiosíssimo sobre esse "Super Fly", é possível achar prá locação??

Uma questão: há outra olhar na cultura afro sobre a mulher, q. não o machista?? E voltando ao tópico de cima, não sei se Jack Hill era negro, mas o filme sugerido trata-se de um libero feminista e em certa altura, aparece uma gangue de mulheres negras radicais e muito instigante.

11:59 PM  
Blogger Juarez Junior said...

Caro Eduardo, corri atrás desse Switchblade Sisters de todo jeito e nada. Sou doido para ver este clássico sobre o qual já ouvi várias referências. Por enquanto, vou ficar te devendo... :P
Sobre o Super Fly, assisti em DVD importado. Gastei uma grana boa, mas está repleto de extras e acabou sendo um bom investimento. Boa pedida.
Sobre o machismo...realmente é uma pena uma cultura tão rica ter essa característica.

8:30 AM  
Blogger prof. Cadu said...

Na verdade eu mesmo nunca vi este filme para locação. Apesar de ter grande curiosidade em assisti-lo.Soube de sua existencia quando fui baixar a musica "Freddie's Dead", de Curtis Mayfield, que se assemelha com o som "Mano na Porta do Bar" dos Racionais Mc's...Alias ele "chuparam" a batida desta musica para o som deles....mas quem souber onde encontrar me diga. Grato. Fabio

3:33 PM  
Blogger Cinthya said...

Me lembrou muito o enredo do filme Jackie Brown do Tarantino. A mulher negra que dá a volta nos traficantes e na polícia e sai levando toda a grana.

12:22 AM  

Postar um comentário

<< Home